Sociedade

Terrenos agrícolas da líder do PAN estão em reserva de caça

A exploração agrícola da líder do PAN está longe de ser pacífica. Depois da polémica em torno das estufas é a vez dos terrenos estarem integrados numa zona de caça associativa.


Por José Miguel Pires e Sónia Peres Pinto

Os terrenos onde a deputada do PAN, Inês Sousa Real – ou o seu marido – explora o negócio de produção de frutos vermelhos estão inseridos numa zona de caça associativa. A garantia foi dada ao Nascer do SOL pelo secretário-geral da Associação Nacional de Proprietários Rurais (ANPC), ao afirmar que tanto proprietários como arrendatários desses espaços podem decidir que não querem fazer parte de uma zona de caça. Quando questionada pelo nosso jornal, o partido disse apenas: «Relativamente às questões que coloca, o PAN e a sua porta-voz não alimentam mais campanhas que têm como objetivo prejudicar a sua imagem e reputação».

No entanto, João Carvalho lembra que «no caso de zonas de caça associativa é necessário haver um acordo de gestão e de cedência desses terrenos para a sua exploração entre o proprietário ou o arrendatário dos terrenos e a associação de caçadores. Sem esse acordo não é possível haver zona de caça. Teve de haver acordo tanto quando foi constituída essa zona, como quando também teve de existir esse acordo quando houve renovações», diz João Carvalho, ao nosso jornal, lembrando que caberia sempre à deputada «decidir se queria estar dentro ou fora de uma zona de caça». 

Uma situação que leva o responsável a garantir que, no caso da deputada, «é absolutamente inacreditável que a título pessoal e partidário ataque tanto a caça – desde apelidar os caçadores de assassinos – e depois na sua exploração permite uma zona de caça». Uma atitude que, de acordo com o mesmo, apenas é censurável pelo discurso do partido que lidera. E vai mais longe: «Faz todo o sentido permitir a caça naquela zona porque há espécies que causam enormes prejuízos na agricultura se não forem geridas e controladas, em especial javalis que têm causado problemas enormes aos agricultores e naquela zona da Canha faz todo o sentido porque há muitos javalis e se não fossem caçados coitadas das estufas: desenterravam as plantas, destruíam os sistemas de rega e tornaria tudo muito complicado». 

Para João Carvalho trata-se de mais uma hipocrisia «do ‘faz como eu digo, mas não faças como faço’. São contra a caça mas pelos vistos ali dá-lhe muito jeito ter uma associação de caçadores que controla os javalis». E acrescenta: «Nada disto seria um surpresa não fosse a deputada Inês Sousa Real quem ataca de forma feroz e inqualificável os caçadores e o setor da caça, mas quando lhes dá jeito, como é o caso, afinal os caçadores estão ali para a acudir quando é preciso e controlar os javalis que põem em risco a sua exploração de frutos vermelhos». 
Também surpreendido com esta situação está o secretário-geral da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP). «Não basta a deputada ser contra os plásticos e ter estufas de plásticos. Não basta ser radicalmente contra as culturas feitas em Odemira e praticar exatamente a mesma cultura. Não basta ser contra a contratação de trabalhadores sazonais e praticar isso, como não basta ser contra a exportação, defendendo as cadeias curtas e praticar a exportação», diz Luís Mira ao Nascer do SOL. 

Para o responsável, esta atitude não deixa margem para dúvidas: «É um partido animalista, radical, sem nenhum live de bom senso, de realismo. É anti-caça, mas o que verificamos é que a líder do PAN tem propriedades que estão integradas numa zona de caça. E para integrar uma zona de caça ou recebe renda pelos terrenos ou cedeu-os gratuitamente. O que é certo é que contribui para que se faça a caça naquela zona. Isso não tem mal nenhum, até é positivo e até está a fazer o que é correto, o que não é correto é ser uma radical contra a caça».

De acordo com Luís Mira, o que teria sentido, tendo em conta a posição da deputada, é ter exercido o direito de não caça nesses terrenos. «Não é o facto de estar numa zona de caça associativa que manteria essa posição e, como tal, podia e, para ser coerente, deveria exercer o direito de não à caça. Mas como temos visto de coerente não tem nada». E vai mais longe: «Toda esta história é de uma incoerência monumental. Não é um cidadão comum, é uma deputada da nação e é líder de um grupo parlamentar e de um partido que exige que as pessoas sejam coerentes.

Uma pessoa que diz uma coisa e faz outra, na minha opinião, não tem condições para governar». 

As críticas não ficam por aqui. «Não pode tomar uma decisão destas de permitir a caça e depois criticar politicamente e publicamente esses atos. Isso é enganar as pessoas. Isso é enganar todas as pessoas que votam no PAN. Isso não é aceitável, principalmente quando prejudica todos aqueles que têm atividade e fazem-no corretamente, como os agricultores e os caçadores».

Mais críticas 

Luís Mira também aponta o dedo ao facto de o PAN querer proibir explorações agrícolas na Costa Vicentina. «Às tantas começa-se a perceber que ela queira proibir as explorações na costa vicentina para vender melhor o seu produto, já que é praticamente o mesmo. Às tantas é isso que a move. Porque é que as pessoas têm que acabar na costa vicentina e ficar no Montijo? », questiona ao nosso jornal.

E desvaloriza a dimensão da exploração de três hectares por parte de Inês Sousa Real. «Primeiro, três hectares de estufa não é uma pequena agricultura, segundo não é por ter três hectares ou 30 hectares que é mais intensivo ou menos intensivo. A intensidade está relacionada com a forma como é feita a cultura». 

E acrescenta: «Até posso ter meio hectare e ser muito intensivo. A dimensão não tem nada a ver com a intensidade da cultura. Até há estufas com agricultura biológica. Ela tem de ter um registo de fito fármacos que usa, que não tem nenhum mal em si. Não estamos a falar do que acontecia há 50 anos, em que as pessoas usavam pesticidas aos litros». 

Abelhas polinizadoras

A polémica com as produções agrícolas ligadas a Inês Sousa Real não parece ter fim. No website da Berry Dream, uma das empresas em questão, pode-se ler o seguinte: «Cultivamos o terreno, as plantas começam a crescer. Depois vêm as flores e as abelhas, que fazem a sua magia para que as bagas nasçam doces e cheias de sabor.»
Acontece que, até onde o Nascer do SOL conseguiu apurar, a empresa em questão compra abelhas para ajudar na polinização das plantações, num gesto que motiva e incentiva o negócio da compra e venda destes insetos. Ora, o PAN acusa que «a instrumentalização dos animais não-humanos para fins alimentares [...] sem qualquer consideração pela sua qualidade de seres vivos e sencientes, têm vindo a causar um grande desequilíbrio ecológico, uma diminuição crescente da biodiversidade e um enorme sofrimento», como se pode ler no seu próprio website.
Neste caso, as empresas ligadas à porta-voz do partido estariam a ir contra estes valores, pois, ao utilizar as abelhas com propósito de produção agrícola, estariam a incentivar esta «instrumentalização» dos animais, entrando até em âmbitos de utilitarismo e de especismo. Mais, segundo uma fonte da Quercus revelou ao Nascer do SOL, a movimentação e o uso de abelhas nas produções agrícolas pode mesmo chegar a ser prejudicial para a biodiversidade nestes locais.

A mesma fonte acusa o declínio da população mundial de insetos polinizadores, e o efeito nefasto que o uso de abelhas nestes ambientes pode ter. «O maneio e transporte das abelhas é uma preocupação. Imagine que esta polinização entra na moda e compram-se abelhas. Compra-se nos EUA e leva para a Suíça, Espanha, este transporte além de ser duvidoso em termos de bem-estar animal, estamos a poluir geneticamente, com doenças e vírus de outros continentes», refere, acrescentando também o perigo associado à redução da biodiversidade de insetos polinizadores. «Ao importar abelhas para uma produção agrícola, unicamente, e pior ainda se for em monocultura, os restantes insetos polinizadores não têm nada para comer», explicou.

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