Sociedade

Sandra Felgueiras: "Os políticos que não gostam de ser escrutinados estão muito felizes com o fim do Sexta às 9"

O Sexta às 9 morreu na RTP, mas vai ser ressuscitado noutra televisão. Sandra Felgueiras diz querer continuar a sua cruzada pela verdade.

 


Por Daniela Soares Ferreira e Vítor Rainho

Tornou-se, nos últimos anos, num dos rostos mais conhecidos da RTP, através do Sexta às 9, um programa de investigação, em que muitos políticos foram escrutinados. Elementos do Conselho Geral Independente da televisão pública chegaram a manifestar-se contra a existência do programa. Ao fim de 22 anos de RTP, e de dez de Sexta às 9, Sandra Felgueiras bateu com a porta, cansada de lutar por melhores meios para fazer o programa, segundo diz. E não confirma nem desmente que está a caminho do grupo Cofina. 

Por que sai da RTP?

Saio ao fim de 22 anos com a certeza de que, para mim, esta RTP deixou de ser capaz de responder às necessidades dos portugueses. A RTP, na minha modesta opinião, deixou de ser capaz de servir o público. E só entendo uma empresa de serviço público quando esta serve única e exclusivamente o público de acordo com critérios jornalísticos óbvios e que são aferíveis por quem tem a possibilidade de o fazer e eu tinha. Saio, se quiserem, amargurada no sentido em que fiz tudo o que estava ao meu alcance para que esta missão fosse possível no interior da RTP. Reconheço e sempre defendi que é no quadro do serviço público, das suas responsabilidades, que o bom jornalismo que eu julgo representar deve ser exercido. Quando cheguei a um limite em que me pareceu impossível voltar a fazê-lo, e quando me parece evidente que só é possível fazê-lo num privado, a minha trajetória parece-me óbvia. 

Por que deixou de ser serviço público?

O Sexta às 9 começou em 2012 como um projeto de jornalismo de investigação que nunca tinha sido feito na televisão portuguesa. E começou com cinco jornalistas que, na altura, eram dos melhores que havia na redação da RTP. E começou com essa ambição de criar algo que não existia. A missão que eu tinha em fevereiro de 2012, que é quando surge o programa, de servir as pessoas com os melhores jornalistas ou dos melhores jornalistas que a casa tinha naquela altura, passou a ser reduzida à mesma figura de estilo, aos mesmos cinco jornalistas, considerando que hoje, esses cinco jornalistas estão entre eles dois recibos verdes, dois têm menos de 30 anos, uma tem 37 mas começou há pouco tempo a fazer jornalismo de investigação, apenas uma delas estava há dois anos comigo no programa e a outra começou agora. Eu tinha, em 2012, um pequeno quiosque com a ambição de fazer muito, de vender notícias muito boas. E, entretanto, esse quiosque cresceu para uma multinacional à escala internacional em termos de produção de impacto, de notoriedade, de relevância, ganhou prémios, ganhou visibilidade. Não é um programa apenas de escândalos como muitos quiseram transformá-lo. O Sexta às 9 tornou-se um programa de confiança, de proximidade, em que a maioria dos portugueses confiava para poder relatar as suas histórias. Das coisas que mais orgulho me provoca é saber que o Sexta às 9 ajudou mais de cinco pessoas a saírem da cadeia. Pessoas inocentes. Se bem me lembro, terá sido o único programa em Portugal ao qual um fugitivo se quis entregar porque temia a Polícia. Não me lembro de outra coisa igual, falo do Pedro Dias. No fundo, tentei meter aqui os últimos 10 anos para explicar porquê que acho que muitos tentaram reduzir o Sexta às 9 àquilo que ele não é. O Sexta às 9 tornou-se, em dez anos, uma marca com notoriedade e relevância social impares e a RTP não quis, não soube, acompanhar este crescimento. Tenho muita dificuldade em entender que jornalistas que ocupam cargos de relevo numa direção de informação digam, como único argumento que apresentam para justificar o fim do programa, que o Sexta às 9 tem hoje os mesmos jornalistas que tinha há cinco anos sem perceberem o crescimento, a influência e o impacto que ele tem hoje na sociedade portuguesa. Passámos de um quiosque a uma multinacional. E tínhamos hoje os mesmos jornalistas em número mas não tínhamos, de todo, os mesmos jornalistas em termos de aposta da estação de informação. Começámos com aqueles que eram considerados, à época, os melhores, e terminámos com aqueles que mais ninguém quis. E, ainda assim, estes eram aqueles com quem eu quis trabalhar. E digo sinceramente: termino este programa com a certeza de que trabalhei com as pessoas mais bem formadas com quem já me cruzei na vida. 

Ninguém vai a todas... Esta equipa defendeu-a, ainda agora, com um comunicado duríssimo. Mas diz que é uma das razões por que deixa o programa.

O jornalismo de investigação não é uma empreitada simples para ninguém. Atrevo-me a dizer que há muitos jornalistas com 50, 60 anos que, às tantas, não o saberiam fazer. Estamos a falar de uma área muito específica. Mas todos eles – e isso tenho muito orgulho em dizer – têm capacidade para ser e tentaram e fizeram muito para ser. Tenho pessoas na equipa que me disseram ‘consegui ver em mim o que nunca ninguém tinha visto, capacidades, testei capacidades que nunca tinha visto’. Tudo o que fui fazendo fui aprendendo também com os anos. A Sandra Felgueiras jornalista hoje em 2021 não é, de todo, a mesma pessoa que existia em 2012. Aprendi muito ao longo destes anos. Aprendi onde procurar fontes fiáveis de informação, onde cruzar dados públicos que muitas vezes nem sabia que existiam e que estavam ali à mão de semear. O que nós aprendemos a fazer ali – também muito em conjunto – ninguém nos ensinou. Aprendemos, fomos aprendendo, fomos escavando, nesta missão que é aquela que me parece a mais digna e a mais nobre que é a de escrutinar o poder independentemente de quem é o visado. Uma direção de informação e um jornalista – que é jornalista – que está na posição de diretor e diretor adjunto que me dizem ‘tu tinhas cinco jornalistas e hoje tens os mesmos, portanto a aposta é a mesma’, só se não perceber minimamente o que estamos aqui a fazer é que não entende o que eu acabo de explicar. Exigi a jovens jornalistas que fizessem o que muito poucos seniores são capazes de fazer. Considero-me uma boa gestora de recursos humanos e um bom líder tem que ser, em primeiro lugar, uma boa pessoa. Não pode exigir aos outros o que não é digno que se exija. Pedi-lhes sacrifícios da sua vida pessoal diariamente. Não podia continuar a pedir sacrifícios pessoais diários a pessoas que, ainda por cima, no limite de tudo isto, ganham 800 euros por mês. Não é possível, no limite da nossa responsabilidade, continuarmos a pedir sem paragens. Que eu exija a mim própria que sou líder do programa? Ainda fiz esse sacrifício durante 10 anos. Agora que faça isso a outros? E que essas pessoas acabem por abdicar das suas vidas pessoais às quais têm direito apenas em nome de fazer um programa de jornalismo? Isso não posso exigir a ninguém. Nem o faria mais.

Diz que houve um desinvestimento da direção de informação. 

Que não é desta. É um desinvestimento ao longo de vários anos e que não imputo apenas a esta direção de informação. Longe de mim. Tive, com esta direção de informação, uma relação bastante cordial. Quando leio – porque li – sem me ter sida dada a palavra, que a Sandra Felgueiras se veio despedir e não deu margem negocial, eu pergunto-me: ‘O que havia para negociar?’ O bom jornalismo, a independência, a liberdade, não são bens negociáveis e eram os únicos bens que sempre pedi. Orgulho-me muito de vos dizer e a toda a gente que nunca pedi um cêntimo a nenhum conselho de administração da RTP. E de dizer que, com os devido cortes no período da troika e com os devidos acertos após a troika, ganho o mesmo que ganhava há 10 anos e nunca para mim a questão foi dinheiro. A minha questão sempre foi possibilidade de fazer bom jornalismo. E o que senti foi que esta RTP deixou de ver em mim – ou às tantas nunca viu – aquilo que o mercado viu: capacidade e potencial para fazer mais e melhor jornalismo. A minha decisão não era negociável. 

Foi por isso que foi contratada por outra empresa apesar de não querer falar no assunto.

A partir do dia 3 de janeiro terei todo o à vontade para dizer com muita abertura o que vou fazer em detalhe.

Se não tivesse surgido essa proposta de trabalho continuava na RTP mesmo com estes recursos?

Esta proposta que recebi hoje, não é de hoje. A pergunta feita assim não tem adesão à realidade. Ou seja, o que se modificou foi a realidade que se foi degradando. Propostas fui tendo várias ao longo destes 10 anos. E as pessoas facilmente compreendem que um recurso como eu, que trabalhou sempre muito, que deu sempre de si o melhor ao longo da vida não lhe foram faltando algumas oportunidades. O que mudou foi a minha convicção face à instituição RTP e àquilo que ela poderia proporcionar àquilo que eu entendo que é um projeto necessário de jornalismo em Portugal. Foi isso que mudou, não foi outra coisa.

Tinha programas até 17 de dezembro. O último programa que fez foi a 26 de novembro. Acha que os programas que tinha preparados levaram a que o processo de saída fosse acelerado?

Não, de todo. Não acho isso. Acho sinceramente que o que aconteceu foi uma tentativa de resolver rapidamente o problema. Ou seja, a partir do momento em que a direção de informação percebeu que a minha saída era uma inevitabilidade, tentou acelerar o processo. Tenho muita que não tenham aproveitado o melhor de mim até ao fim porque eu sempre fui e sou uma pessoa leal à RTP e estaria, com toda a minha integridade e toda a minha capacidade a trabalhar até ao meu último dia. E esse era o meu plano, não havia outro. Fiz a minha comunicação ao diretor de informação da minha decisão de saída no dia imediatamente seguinte à tomada de decisão. Que foi uma decisão dolorosa em mim, feita em muito silêncio porque não se abandonam 22 anos de vida assim (lágrimas). E fi-lo na consciência de que era o melhor. Ele, nesse dia, pediu-me que ficasse em silêncio, perguntou-me se havia algum anúncio público ao que eu respondi que não. E compreenderá toda a gente que me conhece e que entende estas mudanças que eu não tinha – nem eu nem o grupo que me contratou – nenhum interesse, como continuamos a não ter, em tornar público o projeto que vamos desenvolver e que tenho a certeza que será um projeto que vai honrar muito os portugueses, o país e a democracia. 

Vários notícias dizem que é a CMTV e que será diretora da Sábado.

Há uma associação, se quisermos, positiva, entre o meu nome e o grupo Cofina, considerando que entendo que o grupo Cofina é um grupo de comunicação social livre, independente e que tem a sua marca muito firmada no contexto português. Não há uma coincidência exata entre as notícias que foram veiculadas e a realidade. Entendo que quem quis falar sobre a minha saída o fez para tentar, aos olhos do público, subestimar-me, subestimar o grupo e criar uma falsa narrativa com interesses. Perguntar-nos-emos quem pôs essa notícia a circular...

Se só a Sandra e o grupo é que sabiam...

Não. Sabia a RTP.

Disse para onde ia?

Não, ninguém sabia para onde eu ia na RTP.

Então como é que as notícias saem cá para fora se a RTP não sabia?

São jornalistas, eventualmente saberão como é que os jornalistas investigam e sabem e descobrem as notícias. Não digo que vou para o grupo Cofina. Digo que há uma associação positiva entre o meu nome e o grupo Cofina. Estou a dizer que, eventualmente, o mesmo exercício que estão agora a fazer, alguém com interesses particulares e próprios teve para pôr essa notícia a circular. Portanto, às vezes há regras de três simples. Ligo para aqui, ligo para ali, aqui não é, aqui também não, sobra um, talvez seja para este. Quem teve essa iniciativa saberá porque a teve. Com que alcance e com que necessidade de justificação. Porque eu, até hoje, não me lembro - poderei estar equivocada mas não me lembro – de ter visto necessidade de justificar tão profundamente a saída de um quadro ou de um jornalista de uma estação de televisão. Nunca vi. Quem se justifica tanto, deverá saber porque o faz. Não senti necessidade de me justificar até agora. Só estou a dar esta primeira entrevista – e será a única, pelo menos até ao final do ano que vou falar sobre este tema – porque este é o primeiro dia após a minha saída da RTP. Porque este é primeiro dia em que entro de férias para não mais voltar à RTP. Tomei a decisão interiormente, comuniquei ao diretor de informação, comuniquei à minha equipa e não comuniquei a mais ninguém. E fui transmitir a minha intenção ao presidente do conselho de administração, Nicolau Santos, para ser recebida. Só fui recebida quase uma semana mais tarde. E, nesse dia, expliquei ao conselho de administração que, na minha visão, a falta evidente de estratégia ao nível da direção de informação, o desinvestimento nos recursos humanos que já tinha sido veiculado por mim até ao Presidente da República na cerimónia da entrega dos prémios da SPA em 2019, que o Sexta às 9 orgulhosamente ganhou como Melhor Programa de Informação do ano, traduziu-se numa perda substancial de qualidade e na potencialidade de trabalho para a minha equipa. E que, face a isto, a minha decisão era irreversível. Naquele dia, o presidente do conselho de administração percebeu e, segundo me deu a entender, anuiu, compreendeu os meus argumentos. Saí dali em silêncio, no mesmo silêncio que tinha estado na semana anterior. Até que fui surpreendida com uma notícia que, como digo e volto a repetir, me é completamente alheia, a mim, ao grupo que me contrata e que, portanto, só poderá ter sido colocada por quem tinha algum interesse em tornar aquilo público. Na carta de rescisão que entreguei ao presidente do conselho de administração em pessoa ,está expresso que a Sandra Felgueiras e a equipa do Sexta às 9 mantêm a intenção de trabalhar até ao último dia, ou seja, 17 de dezembro. Têm reportagens em curso até essa data. Se, a partir dali, a direção de informação entende que não há condições para eu continuar a fazer o programa, só me cabe respeitar. Numa certeza, porém: é que a RTP perdeu. A RTP perdeu a possibilidade de continuar a responder com reportagens de investigação que estavam em curso até ao próximo dia 17 de dezembro. A quem é que isto interessa, não sei. Há pessoas, inclusive, que fazem parte do Conselho Geral Independente, CGI, que entendem que o Sexta às 9 não é um programa de serviço público porque responde de segunda para sexta com uma necessidade de escândalos. Primeiro, o Sexta às 9 não é um programa de escândalos. É um programa de investigação que não se demite de provocar escândalos se tiver que ser, mas não é um programa que se faz de segunda para sexta. É um programa com um calendário, de vários dossiers que são trabalhados durante meses. E, portanto, obviamente, que eu não tinha reportagens apenas até ao dia seguinte. Agora também vos digo: há muitos assuntos que eu estava a investigar que não vão ver a luz do dia na RTP. Sabem porquê? Porque no dia imediato à nota pública lançada pela direção de informação, de forma absolutamente anormal naquilo que à minha visão diz respeito, essas mesmas fontes revogaram o direito de uso dessa informação. Disseram-me que as entrevistas que me iam dar e a informação que me entregaram eram para meu uso enquanto coordenadora do programa Sexta às 9. Se já não há o programa já não há reportagem, pelo menos não há aquela informação para ser trabalhada naquele registo. 

Quem tem interesse em que essas informações não sejam colocadas no ar?

Não posso dizer que há um interesse em que essa informação não seja colocada no ar porque, em bom rigor, estamos a falar de investigações que a RTP não iria boicotar. Não acredito, sinceramente, que a RTP, que a direção de informação fosse boicotar estas reportagens. O que disse, e volto a responder, é que houve aqui uma necessidade, eventualmente por causa da proximidade das eleições, de resolver o problema mais cedo. De, em vez de resolver o problema a 17 de dezembro, resolver o problema a 26 de novembro. É só isto que consigo ver.

Está a falar da aproximação das eleições.

Mas não estou a falar da especificidade das reportagens em si. Não estou a dizer ‘estamos a investigar um grande escândalo do lítio e só vão pôr depois das eleições’. Não estou a falar dessa especificidade. Estou a dizer que, a partir do momento em que a minha decisão se tornou irreversível, julgo que se tornou premente para a RTP resolver o problema Sandra Felgueiras e o problema do Sexta às 9.

Ao longo destes 10 anos já tinha tido um problema complexo quando o programa foi retirado do ar antes de outras eleições, em 2019.

É verdade, mas julgo que não é possível sequer fazer essa comparação, não seria justo da minha parte, intelectualmente honesto, fazer essa comparação. Se aí houve, na minha perspetiva, um ataque direto a um produto, sendo que as duas diretoras em exercício – Maria Flor Pedroso e Cândida Pinto – sabiam exatamente o que estava a ser investigado e, portanto, tomaram uma decisão em consciência com os argumentos que encontraram para adiar o programa. O que aqui aconteceu foi uma decisão minha de me ir embora. Se não há Sexta às 9 antes das eleições, não há porque eu me vou embora. E estarei, a partir de 3 de janeiro, a trabalhar num grupo concorrente. Esta é a verdade. A única questão que eu ponho em causa é que eu e o Sexta às 9 poderíamos continuar no ar até dia 17 de dezembro, tínhamos produto informativo de qualidade para nos mantermos no ar até esse dia e, por uma decisão que não considero jornalística nem que salvaguarde os interesses da própria RTP, não estamos no ar até 17 de dezembro e saímos a 26 de novembro. São coisas completamente distintas.

O conselho de redação considerou que não havia ‘lealdade empresarial’.

Causa-me muita estupefação o que é que um conselho de redação que, se bem me recordo, foi eleito quando nem sequer havia uma lista para apresentar em Lisboa e apareceu assim uma lista do dia para a noite, vem dizer sobre a minha saída quando, ao que julgo saber, só soube dessa saída por uma notícia colocada numa revista, a Nova Gente, à qual sou completamente alheia. Como é que o conselho de redação, a ser verdade, se oporia a que eu tivesse feito dois programas se na altura, pelo menos no penúltimo programa, não poderia saber da minha saída? Há aqui uma contradição nos seus termos. Leio uma nota enviada à redação pelo diretor de informação esta semana em que é dito que a direção de informação deixou que o programa fosse para o ar apesar de o conselho de redação se ter oposto. Como é que o conselho de redação se podia opor a uma coisa que desconhecia que podia acontecer? Há qualquer coisa aqui que me ultrapassa, que eu profundamente nem sequer percebo esta necessidade, a não ser que a direção de informação tenha de utilizar o conselho de redação como sua almofada para justificar uma decisão que, na verdade, é sua mas que não quer tomar sozinha. E foi buscar ali o seu apoio sabendo que as pessoas que fazem parte deste conselho de redação dão apoio às decisões – quaisquer que sejam – que a direção de informação venha a tomar ainda que com base em narrativas falsas. Onde é que está a deslealdade empresarial ou funcional da Sandra Felgueiras? Em lado algum. Sinto-me ofendida que um conselho de redação escreva isso sem nunca me ter perguntado nada até ao dia de hoje. 

Se as audiências dizem que o Sexta às 9 era o terceiro programa com maior audiência da RTP, por que acha que a administração e a direção não apostam no programa?

É uma pergunta que peço que façam à RTP e ao conselho de administração e à direção de informação porque essa é a pergunta que se impõe. A única verdade que eu tenho para vos dar, às tantas, nem vem de mim. Vem de tudo o que vocês podem ler, nos últimos dias, do Nuno Santos que criou o programa e que hoje é diretor da CNN Portugal, da Rosário Salgueiro que coordenou o programa nos seus primórdios como diretora adjunta para os não diários e que hoje é correspondente da RTP em Londres, do Duarte Valente, outro dos grandes quadros que esteve no Sexta às 9 a trabalhar comigo e que hoje é correspondente em Bruxelas, do Luís Miguel Loureiro que trabalhou comigo sete anos e que hoje é professor universitário na Universidade do Minho... Todas essas pessoas sabem o que eu valho, sabem o que eu represento, o que sou capaz de fazer. E se o conselho de administração da RTP e a direção de informação não sabem, a pergunta que vos peço é: perguntem-lhes a eles porquê. Porque essa resposta está dada não por mim. Essa resposta está dada por todos aqueles que conhecem o meu trabalho, pelo público que semana após semana o via, há 10 anos consecutivos e que o via com uma fidelidade de 800 mil espetadores por semana sem nunca ter aviso uma quebra na audiência – pelo contrário. O Sexta às 9 manteve-se a segurar e a alavancar as audiências da RTP mesmo em momentos de franca perda e essas pessoas hoje perguntam isso. 

Já disse por outras palavras que o conselho de redação funcionou neste caso, como uma espécie de braço armado da direção de informação. 

Certo.

Por que acha que há esse ataque do conselho de redação e por que teve estes problemas, nos últimos anos, com estas duas últimas direções?

Devolvo a pergunta porque sou jornalista e o jornalista funciona com um arquétipo mental de perguntas às quais não tem que dar respostas cabais porque a minha função na sociedade é, de facto, inquietar os outros e levar os outros a pensar por si, pela sua cabeça. A pergunta que devolvo para responder a essa pergunta é: porquê que as direções de informação da RTP são estas, porquê que o CGI é composto por estas pessoas, porque é que o conselho de administração da RTP é composto por estas pessoas, e porquê que o conselho de redação da RTP é composto por estas pessoas? Quem são estas pessoas?

Quais foram os momentos mais fantásticos e os mais dramáticos dentro da RTP?

Os momentos mais gratificantes foram, sem dúvida, os momentos em que o Sexta às 9 contribuiu para repor justiça onde ela faltava, nomeadamente os momentos em que conseguimos ajudar pessoas inocentes que estavam na cadeia a firmarem a sua verdade e a serem rapidamente libertadas. E foram várias: Leandro Lopes Monteiro – na altura tinha 17 anos e estava na prisão de Leiria –, Leonel Carvalho – preso em Espanha –, Abílio Esteves – engenheiro português que estava detido em Angola –, Maria Salomé Santos – presa em Punta Cana – e Rosa Ribeiro – presa no Bangladesh que regressou este ano. Junto – que mesmo não estando presos estavam em situações de perigo – todos os afegãos e familiares (50 pessoas) que colaboraram com as tropas portuguesas no Afeganistão e foram deixados para trás. Foi uma enorme gratificação conseguir pressionar à sua retirada. Aconteceu na semana anterior à minha saída do ar e foi um alívio para mim. Chegaram a Figo Maduro a 17 de novembro. Essas são, se quisermos, as pessoas que levo mais no coração. São momentos únicos em que nós sentimos que o jornalismo, ao serviço das pessoas, contribui para melhorar um bocadinho o mundo. Não tenho esta perspetiva messiânica de que o jornalismo salva o mundo mas tenho uma perspetiva romântica de que o jornalismo tem a obrigação de ajudar a melhorar o mundo. Momentos dramáticos, tive muitos. A maioria deles vou guardar silenciosamente no meu coração. Tenho algo em mim que é muito próprio e muito característico. Vou muitas vezes ao fundo do poço e saio de lá mais forte. E um dos segredos que tenho para isso é levar as mágoas para o fundo desse poço e afogá-las. Não gosto de as trazer à tona. Permito-me reservar algumas dessas memórias más para mim. Outras foram tornadas públicas e sobre essas falo abertamente. Uma delas bastante dramática foi a forma despudorada com que a anterior direção de informação tratou, trouxe para a ribalta pública, um assunto exclusivo da RTP apenas para se desculpar publicamente de um erro que cometeu. Espero que as pessoas nunca se esqueçam que não foi a Sandra Felgueiras que tornou pública a questão do escândalo do lítio só ter conhecido a luz do dia no Sexta às 9 depois das eleições. O fio cronológico é muito claro e diz que o programa foi para o ar, Rui Rio enquanto líder parlamentar do PSD pergunta, em pleno Parlamento ao primeiro-ministro porquê que o programa só foi para o ar depois das eleições. O primeiro-ministro não responde – saberá ele porquê – e quem responde em sua vez é a diretora de informação, Maria Flor Pedroso, através de uma nota pública emitida no jornal da tarde a dizer que o programa não estava pronto. A partir do momento em que uma diretora de informação em funções, sem ouvir a coordenadora do programa, fala publicamente sobre um programa para mentir, a partir desse momento sinto-me autorizada para dizer em público o que é verdade. E o que era verdade é que o programa obviamente estaria pronto e, obviamente, teria ido para o ar antes das eleições se a diretora de informação assim o tivesse entendido e não o entendeu. O negócio do lítio – que é um negócio que continuo a investigar e que vou continuar a investigar porque a verdade sobre o lítio ainda está absolutamente longe de ter sido esclarecida – é um negócio que se prende com uma entrega de uma concessão a um grupo económico que agora até está a ser revisto. Aliás, se a reportagem não tivesse nenhum fundo de verdade, eventualmente o negócio até já estava feito e não está feito. Até conheceu um revés. Mas era um negócio que envolvia o atual secretário de Estado da Energia, o mesmo que nos veio a qualificar como estrume.

João Galamba...

Também ele saberá por que o faz. Nunca o destratámos e apenas abordámos assuntos sobre ele com total factualidade sem nenhuma adjetivação. O que estava em causa era isto: em que condições, regulares ou irregulares, tinha sido atribuída uma concessão para prospeção de lítio à empresa Lusorecursos que entretanto tinha mudado de administração e já não tinha os mesmos sócios quando conseguiu a licença a 25 anos. E o que estava aqui em causa era, porquê que o Governo sabendo desta alteração societária que poderia e deveria ter inviabilizado o negócio e a concessão definitiva, tinha mantido. Se as suspeitas que o Sexta às 9 levantou não tivessem razão de ser, pergunto-me, porquê que o Ministério Público abriu um inquérito crime – que à data de hoje se estendeu a suspeitas envolvendo o mesmo Ministério e os mesmos governantes do Ministério extensíveis ao negócio do hidrogénio do qual também amplamente falámos. Investigação essa que, como também já é público em vários órgãos de comunicação social, além da RTP, deram origem a escutas telefónicas que intercetaram o próprio primeiro-ministro e que foram alvo de autorização por parte do presidente do Supremo Tribunal de Justiça. Parece-me que, só por estas características, está explicada a relevância do tema e a importância do serviço público de televisão tratar esta situação. Que não era um escândalo. Era um negócio feito pelo Governo, permitido pelo Governo. E eu tenho para comigo que o jornalismo tem como primeira missão, escrutinar o poder político. Qualquer que ele seja, de qualquer cor política. E foi isso que fizemos durante 10 anos. 

Teve um direto com o secretário de Estado João Galamba que, calculo, para si não tenha sido muito simpático.

Para mim foi o exercício livre daquilo que sei fazer, que é jornalismo. Acho que os atos ficam com quem os pratica, as palavras ficam com quem as dirige. Se o doutor João Galamba entendeu dirigir-se nos termos que entendeu a mim e ao programa que coordeno, ele saberá porquê e terá a sua motivação. Sei que nunca tratei o doutor João Galamba de forma discricionária e diferente de qualquer outro governante. Tratei-o sempre e dei-lhe sempre as mesmas oportunidades que dei a qualquer outro governante para esclarecer um assunto que fosse necessário esclarecer. Agora, não deixo de notar, que ao contrário de outros governantes, o doutor João Galamba, no dia em que foi a essa entrevista, escreveu – ou mandou escrever um assessor – que não dava nenhum esclarecimento ao Sexta às 9 e que, de repente, a diretora de informação e a diretora adjunta – Flor Pedroso e Cândida Pinto – me chamaram ao gabinete a dizer que o senhor queria vir ao programa e vinha ao programa. Acho que isto diz tudo. Ao Sexta às 9 e a mim própria o Ministério do Ambiente não tinha nenhum esclarecimento a dar. À direção de informação tinha a dizer que vinha ao programa. E veio. O que estou aqui a dizer aconteceu, foi para o ar.

O que sentiu por ter sido chamada estrume?

Honestamente? Senti que foi uma medalha pela minha independência. Se alguém que teve o comportamento – depois de todas as oportunidades de contraditório que lhe demos – entende qualificar-me assim... Esse alguém tem que ter uma noção muito própria da independência jornalística. E é uma noção que não acompanho. 

A sua relação com a direção de Flor Pedroso e Cândida Pinto não foi a mais amistosa. 

Não foi, de facto.

Porquê?

Sou jornalista desde 1999. Nunca me tinha acontecido perguntarem-me com tanta veemência questões muito profundas das minhas investigações quase ao ponto de me perguntarem quem eram as fontes. Nunca me tinha acontecido e não me parece um exercício legítimo. As direções de informação têm que ter um nível de confiança nos coordenadores. Se perdem essa confiança, devem destitui-los, devem ter essa honestidade, essa firmeza. Sinceramente, custa-me a perceber por que Flor Pedroso e Cândida Pinto não me destituíram, não optaram por essa via. Porque a desconfiança era manifesta e era verbalizada. Nunca exprimi publicamente nada do que se passou ali dentro. E hoje, se me sinto obrigada a falar sobre isto, é como vos digo e volto a repetir: porque fizeram um movimento público de tornar público o que não era público para justificar publicamente a ausência de uma reportagem no ar na altura que ela era devida. E também me custa a entender que a pessoa que era responsável pelo Sexta às 9 tenha desaparecido da fotografia. Porque a pessoa que era responsável pelo Sexta às 9 e que de repente foi o grande motor de tudo isto, chama-se Cândida Pinto, não se chama Maria Flor Pedroso. A Maria Flor Pedroso era diretora de informação e nomeou a Cândida Pinto, é um facto. Dirigi-me várias vezes à Flor Pedroso para dar conta de animosidade, de dificuldade de relacionamento que estava a ter com a Cândida Pinto no sentido em que me parecia justo que eu comunicasse à diretora de informação que havia aqui um problema que, às tantas, teria de ser superado por ela. E que ela entendeu não superar. Tenho dificuldade em perceber por que razão a Cândida Pinto não foi ao Parlamento, por que, de repente, ficou de férias. Até hoje não tenho uma resposta cabal para isto.

Por que acha que não quiseram emitir o programa antes das eleições?

Terão de lhes perguntar porquê que elas não quiseram emitir o programa. Só há uma coisa que posso dizer porque sou absolutamente factual e não posso interpretar além daquilo que me é dado a ver. Há uma coisa que é factual, indesmentível: Maria Flor Pedroso e Cândida Pinto sabiam, desde setembro de 2019, as investigações que o Sexta às 9 tinha em curso. Sabiam por mim, porque eu lhes transmiti. Ainda assim entenderam que o programa deveria iniciar-se a seguir às eleições. Por que o fizeram? É algo que só elas poderão e deverão responder. 

Meteram-lhe o secretário de Estado no programa.

É um facto. Manda quem pode, obedece quem deve. Sou coordenadora de um programa, a diretora de informação disse que a pessoa – que eu queria ouvir no âmbito do programa que estava a fazer – afinal só estava disponível e ia em direto ao programa. Também digo, se jornalisticamente não tivesse interesse, também lhe teria dito, como lhe cheguei a dizer uma vez ‘hoje apresentas tu’. Não me submeto àquilo que não me parece ser um exercício jornalístico.

Recentemente teve outro problema?

Aconteceu recentemente com o senhor Florêncio de Almeida que não quis responder de todo às perguntas incessantes que a Sandra Felgueiras lhe dirigiu no âmbito de uma investigação que deu origem à abertura de outro inquérito crime. Florêncio de Almeida está no âmbito de uma investigação pelas suas ligações ao João Rendeiro, lançámos-lhe várias perguntas, o senhor entende que não deve responder, manda um comunicado que foi revertido para a reportagem e três dias após a segunda investigação, chego à redação e o senhor Florêncio de Almeida tinha sido o grande convidado do programa Bom dia, Portugal com a condição de ir à RTP falar do aumento dos combustíveis se não lhe fosse perguntado nada sobre a investigação que estava em curso. E eu pergunto-me se uma televisão se pode considerar independente quando há espaços informativos onde é possível não fazer as perguntas que se impõem. Mas parece-me muito mais grave que tenha sido possível e que não tenha havido nenhuma consequência. A gravidade dos temas também se afere pela falta de consequências. Foi possível ao senhor Florêncio de Almeida que na semana seguinte – já era arguido no âmbito desta investigação judicial – uma semana antes ter ido à RTP e não responder a nenhuma pergunta que se impunha porque negociou com o jornalista que assim seria.

Acha que o Governo ou os políticos estão contentes com o fim do Sexta às 9?

Acho que todos os políticos que não gostam de ser escrutinados, que entendem que a liberdade de imprensa é uma figura de estilo, estão muito felizes com o fim do Sexta às 9. Agora, se para essas pessoas vencerem-me pelo cansaço na RTP era a sua coroa de glória, tenho que lhes dizer que estão de parabéns. Se, para essas pessoas, calarem-me, silenciarem o bom jornalismo que eu represento, fosse a sua última bandeira, tenho que lhes dizer que foram ao seu funeral. Tenho a certeza absoluta que o que vou fazer a partir de janeiro é um projeto ainda mais credível, ainda melhor. A certeza que tenho hoje é que eu vou fazer mais e melhor. Esse é o meu ponto de partida. Mas não confundo nem permitirei que ninguém confunda por mim esta RTP com a RTP. A RTP é uma instituição extraordinária, feita de profissionais extraordinários sem os quais nunca, mas nunca teria sido possível desenvolver o Sexta às 9. Não fiz isto sozinha. Fiz isto com o esforço e sacrifício individual de muitas pessoas que ninguém vê. Do grafismo, da realização, das imagens, do arquivo, da edição... pessoas que me têm dirigido, na última semana, mensagens incríveis de solidariedade. Desculpem, isto custa-me a sério. Continuando: se eles ficam contentes porque acabaram com o Sexta às 9, parabéns. Não acabaram com aquilo que o Sexta às 9 representa e com a marca que se firmou no país. Essa marca vai continuar, só não vai continuar na RTP. 

Há quem diga que tem um grande ego, que se coloca no centro do universo. O que diz?

Digo a essas pessoas que, talvez, se saírem do seu ego do qual conseguem perspetivar o mundo à sua escala e dimensão e olharem para aquilo que é dito sobre mim, talvez vejam outra coisa qualquer. Tenho muito orgulho em ser quem sou e tenho a certeza absoluta de que a grande maioria das pessoas que me vê assim não só não representam a maioria dos portugueses como nunca experienciaram um terço do que eu já experienciei na vida. Há uma coisa que os outros não percebem e que eu digo muitas vezes: eu não sou quem sou graças a mim. Sou quem sou – feliz ou infelizmente – em consequência do que tive de viver, na pessoa na qual me transformei, normalmente prejudicada por ser filha de quem sou. E haverá poucas pessoas que possam dizer isso sobre si próprias. Não tenho problemas de falar de mim nem tive nunca problemas de falar de ninguém da minha família. Falo com muito orgulho. Mas tenho muita consciência do que sou, do que represento e do trabalho que tive para aqui chegar. E tenho a certeza que o faço com orgulho mas orgulho é uma coisa muito diferente de egocentrismo. E se egocêntrica eu fosse, pergunto-me, por que razão é que as pessoas que sempre me acompanharam e que me conhecem, escrevem o que escrevem hoje sobre mim, me dão os abraços que dão e me dizem o que me dizem? Essas são as pessoas que me conhecem, essas são as pessoas que respeito, que levo no meu coração. E essas eu tenho a certeza que não dizem nem alto nem baixinho que sou egocêntrica. Porque não é isso que elas veem.

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