Sociedade

Furos a mais e professores a menos

Que tipo de problemas está a gerar a dificuldade em contratar professores? Onde ficam os alunos no meio disto tudo? E os pais?


«Tenho alguma preocupação com a educação dos meus filhos e pondero quando é que chegará a altura de olhar para o ensino particular. Porque o ensino público está um caos completo». O testemunho é de Anabela Spencer, bancária de 47 anos, preocupada com a situação dos seus dois filhos: Guilherme Spencer, com 15 anos, aluno da escola EB D. Domingos Jardo, em Agualva-Cacém, e Gabriel Spencer, que irá fazer 11 anos no próximo mês, e que estuda na Escola Secundária Leal da Câmara, em Rio de Mouro.

Guilherme e Gabriel foram para o centro de estudos ‘5 a tudo’ por Anabela e o marido não conseguirem dar apoio por estarem muito tempo fora devido ao trabalho. Apoio esse que é, nos dias hoje, cada vez «mais crucial», conta Anabela ao Nascer do Sol. O filho mais novo, Gabriel, quase não teve aulas de HGP. «Houve uma professora que foi colocada, mas que está ausente por doença prolongada. Houve uma outra docente que se disponibilizou, mas infelizmente não resolveu o problema. Se o meu filho teve cinco aulas, já foi muito», alerta. A juntar ao problema, a professora que dá HGP também dá Cidadania, «portanto são logo dois conhecimentos que lhe estão a faltar».

As aulas de Cidadania e HGP não foram as únicas afetadas, a disciplina de Matemática também regista alguns constrangimentos. «Há uma professora com uma situação delicada a nível familiar e que se ausentou durante muito tempo. Não é um tão radical como a outras disciplinas, mas Matemática é um pilar. É das disciplinas que não poderiam falhar». Os centros de estudos e de explicações estão preparados para acompanhar, mas não para dar as aulas, salienta.

No ano passado, Guilherme só teve Inglês durante um mês e meio em todo o ano letivo. Em alternativa, Anabela Spencer colocou-o numa escola particular de inglês. «Mas é importante perceber que isto não é possível para toda a gente», refere. «Nem todas famílias conseguem ter estas vertentes extra de ajuda à educação dos filhos. Isso preocupa-me. A nível nacional, o problema dos professores pode ter uma repercussão muito grande no que toca à aprendizagem das crianças. Também logo no início do ano letivo não havia professor de Biologia, mas a situação foi resolvida passado um mês», afirma. 

Face às circunstâncias e dificuldade em resolver os problemas, Anabela mantém em aberto a hipótese de colocar os seus filhos no privado: «Se eu vir que a escola pública não está preparada, pondero pôr o meu filho mais novo no privado».

Zita Marcelo, do centro ‘5 a tudo’, explica ao Nascer do Sol que muitos encarregados de educação recorrem à ajuda destas instituições por dois motivos: «Com a falta de professores os alunos têm mais tempo livre e, como os pais estão a trabalhar, querem que haja um sítio seguro e de confiança onde os filhos possam ficar». A juntar a isto, «o facto de aqui haver professores que os ajudam na matéria que não estão a conseguir ter nas escolas é outro dos motivos que levam muitos dos pais a procurar os centros, porque ainda há imensos alunos que não têm professores de Português ou de Matemática A – disciplinas muito importantes – e 90% dos alunos não têm professores de alguma disciplina – situação que já acontecia no ano letivo passado», diz.

Mas será que todos os pais têm capacidade de suportar uma escola particular ou centros de estudo? Não. «Há pais que, não tendo possibilidades de recorrer ao ensino privado – por não terem capacidade de pagar as mensalidades – optam por ficar na escola pública e, depois, complementam com um centro de estudos». 

Os centros de explicações estão a aproveitar o problema da escassez de docentes para obter mais procura? Zita Marcelo discorda. «Não noto uma maior procura no centro de estudos pela questão da falta de professores, pelo menos aqui. Muito menos os centros aproveitarem para inflacionar preços devido a essa maior procura», garante.

Não basta tapar buracos, é preciso olhar para o futuro 
João Lourenço, presidente da Associação de Pais da Escola Secundária João de Barros, no Seixal, refere ao Nascer do Sol que neste momento a instituição tem apenas um horário por preencher de uma professora que está com atestado há duas semanas. O problema é que «o tempo que estas situações demoram a ser resolvidas são semanas sucessivas. É o sistema tal como ele está montado», aponta. Todos os anos, diz, existem horários por preencher que, de uma forma mais rápida ou não, vão sendo preenchidos.

O verdadeiro dilema, conta João Lourenço, é na contratação de professores. Trata-se de uma questão transversal a todo o país. «Daqui a meia dúzia de anos 50% dos docentes que estão neste momento no ativo vão para a reforma. E não há formação de docentes que irá conseguir contrariar esta tendência. Vai ser um problema muitíssimo grave», salienta. O ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, já apontou um caminho, mas que não convence o presidente da Associação de Pais. «A solução passa por pegar em licenciados e pô-los a dar aulas. Mas, como se sabe, dar aulas não é só ter uma licenciatura de uma determinada área. É preciso uma componente pedagógica que não faz parte do plano das unidades curriculares das licenciaturas». A maior preocupação é com a aprendizagem dos alunos pela escassez do número de docentes. E «é importante referir que tudo isto tem sido combatido com os professores», continua João Lourenço. Ou seja, «têm sido dadas autorizações às escolas para pagar horas extraordinárias aos professores da escola. Ao invés de contratarem recursos humanos para preparar o futuro das escolas, estão a pôr pensos rápidos», critica. «Resolvem o problema no imediato, mas não resolvem o problema no futuro».

Questionado se o ensino particular poderá ser uma opção tentadora, João Lourenço clarifica que no privado as mensalidades equivalem ao ordenado mínimo nacional, pelo menos. Por isso, «estar de olhos voltados para o particular não parece ser uma alternativa» porque «as pessoas que podem pagar esses valores não são a maioria», diz. «São para os que podem. Para esses, claro, pode ser uma alternativa». Mas o desejável, conclui, seria «um acesso universal de todos os miúdos ao ensino com qualidade». E se estamos a falar de alternativas, a mais realista são a dos centros de estudo, que acabam por ser uma muleta para pais e filhos e uma espécie de rede de segurança para as aprendizagens.

‘Há muita palha na matéria’
Mas João Lourenço deixa o aviso: «Há uns anos para cá que poderá ter havido alguma inflação de preços por parte de algumas instituições. Estamos a falar de mensalidades que podem ir de 100 a 250 euros, com base em alguns casos de que tenho conhecimento». 

O presidente da Associação de Pais reflete também sobre a forma como as disciplinas estão a ser dadas. «Há muita palha na matéria», garante. As disciplinas «são de tal maneira intensivas que não resta tempo ao professor em aula para poder tirar todas as dúvidas». Uma coisa, distingue João Lourenço, é quando os alunos frequentam o 10. º ano, onde podem e devem aprofundar mais os estudos a que, depois, vão dar continuidade para a área superior que escolherem. «Mas não é começar logo no segundo ciclo a dar matérias tão extensas, porque os alunos começam a ficar perdidos», defende.

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