Opiniao

Surrealidades lusitanas...

Numa palavra, todos, exceto Mendes Calado, ficam mal vistos e quando as razões subjacentes são desconhecidas, sobra a incompreensão das decisões.


Há realidades em Portugal que me conseguem deixar atónito, mesmo dando o desconto aos brandos costumes que tanto nos caracterizam. Vou desfiar umas quantas perplexidades que creio absolutamente desnecessárias, porque surreais, neste final do ano.

1. A substituição do Chefe do Estado Maior da Armada era esperada desde há escassos meses, quando a notícia rebentou de forma extemporânea. Na altura, Marcelo, de forma publicamente agastada, referiu ter havido certamente um equívoco. No entanto, por palavras ditas até por Rio que falou em «fuga de informação» e exigiu a demissão do seu autor, todos ficámos com a convicção que seria coisa de meses, até porque Mendes Calado estava de saída lá para meados de 2022, depois da sua recondução em março de 2021.

Com o Governo em Gestão depois da dissolução da Assembleia, pergunto: havia necessidade desta nomeação ser feita agora? Sabe-se, até porque Mendes Calado foi bem explícito, quiçá desnecessariamente loquaz, que a substituição ora efetuada esteve longe de ser pacífica. Se assim foi, também surpreende que, nas circunstâncias, Gouveia e Melo tenha aceite o lugar, deixando transparecer ter faltado algo a que os militares dão muito valor: a lealdade ‘inter paris’.

Numa palavra, todos, exceto Mendes Calado, ficam mal vistos e quando as razões subjacentes são desconhecidas, sobra a incompreensão das decisões.

2. Todos conhecemos o acidente do ministro Cabrita do qual demasiado se falou por culpa de todos os envolvidos, quiçá também da vítima que faleceu em circunstâncias ainda não cabalmente esclarecidas para o grande público. Mas não é disto que quero falar, apenas de uma iniciativa surgida na Sociedade civil visando abrir uma conta bancária, exclusivamente em nome da viúva e duas filhas do falecido, para uma recolha de fundos (crowdfunding).
Logo, almas iluminadas de uma ‘esquerda caviar’, vieram atribuir torpes intenções a esta iniciativa, inclusive lançando anátemas de suspeita ao seu autor Rui Paiva, como se as iniciativas pudessem ser qualificadas como legítimas ou não, consoante a origem política ou social de quem se propõe fazê-las. Não conheço Rui Paiva, nunca alguma vez me cruzei profissionalmente com ele, mas diz quem o conhece, entre eles alguns amigos que muito prezo, que é de uma integridade a toda a prova. 

Enfim, uma ideia louvável que deveria merecer aprovação genérica pela solidariedade demonstrada, fica vilipendiada por insídias políticas absolutamente desnecessárias e sem quaisquer soluções alternativas apresentadas que visem minorar as dificuldades financeiras da família em causa.

3. Quando os leitores desta coluna se dignarem ler este texto, todos já saberão o resultado do Porto-Benfica para o campeonato. Mas, no momento em que a escrevo e sem conhecer esse desfecho, estou certo de que o Benfica entrou num processo de autoflagelação, denotando clara falta de liderança e consequente equilíbrio nas decisões. 

Há muito que inexistia uma relação saudável entre o clube/SAD e o seu treinador, regressado pela mão de Luís Filipe Vieira apesar de uma passagem tumultuosa pelo Sporting onde foi tudo menos brando com o Benfica. Depois de uma época de 2020/21 desastrada, esta nem corria financeiramente muito mal com o apuramento para a Champions e para os oitavos de final. No entanto, derrotas expressivas com paupérrimas exibições com Sporting e Porto e, sobretudo, um triângulo amoroso inexplicável (Jesus/Flamengo/Benfica) tudo vieram precipitar.

Rui Costa (enquanto presidente) teve diversas oportunidades para substituir Jesus: (i) no início da época, (ii) quando tomou posse, ou (iii) quando o Flamengo anunciou o interesse por Jesus, sem este ter cortado cerce a conversa. Mas, em nenhum destes momentos o fez, escolhendo a rotura contratual exatamente quando nunca o deveria fazer, ou seja, na sequência de uma rebelião no balneário, alegadamente pela suspensão de um jogador, a escassas 48h de um jogo fundamental para o Benfica. Uma conclusão óbvia: Rui Costa ‘jogador’ prevaleceu sobre o Rui Costa ‘presidente’!
Isto ultrapassa o que qualquer um poderia pensar sobre o Benfica – um clube centenário, com a maior massa associativa em Portugal. Como se pode construir o futuro quando se sente que o poder ‘caiu na rua’? Dizem que, no futebol, os resultados tudo escondem, mas esta ferida surreal ficará colada a esta Gestão.

4. Há semanas que a ministra da Saúde Marta Temido vem anunciando que, em finais de dezembro, o número de doentes com covid iria subir de forma aterradora, embora, felizmente, sem os internamentos assustadores de há um ano (mérito da eficácia da vacinação nacional).

No entanto, pergunto: se era assim tão fácil de prever, por que razão não foram atempadamente reforçados os quadros de atendimento telefónico da Saúde 24? As queixas da população são notícia de abertura de telejornais e são exemplo da manifesta incapacidade de gestão que perpassa o setor (a velha máxima de’prevenir em vez de remediar’). A resposta é simples: porque sistematicamente a liderança das operações são nomeadas por desígnios políticos, em vez de se privilegiarem profissionais especializados que deixem a política de fora.

5. Na justiça, sucedem-se decisões incompreensíveis, mesmo surreais para o cidadão comum, impreparado para compreender as alíneas das leis, mas sabendo reconhecer que os processos mediáticos se arrastam sem quaisquer decisões!

Os comentários estão desactivados.