Paulo Trigo Pereira. Professor de economia e ex-deputado

'O caminho da redução da dívida é inevitável. É isso ou o resgate financeiro daqui a cinco anos'

O economista realça em entrevista ao Nascer do SOL que, ‘nos próximos 10 anos, a preocupação com a dívida tem de estar sempre presente’, mas acredita que esse será o caminho enquanto António Costa for PM.


Um caminho de ‘contas certas’ que terá de ser seguido pelo próximo ministro das Finanças, que, adverte o economista, «tem de se saber impor e de saber dizer não», caso contrário deve «desocupar o lugar». Para o ex-deputado socialista, esta é a altura certa para o Governo reduzir a carga fiscal, nomeadamente no que diz respeito aos combustíveis, já no próximo Orçamento do Estado. Paulo Trigo Pereira acredita que este será o último Governo maioritário, independentemente da cor política, e acredita que em junho e julho, com o fim da guerra, a contestação voltará a tomar contas das ruas. Quanto ao PSD, defende que haja entendimentos para fazer as reformas necessárias. E em relação ao Chega, diz que funciona como um barómetro da democracia: «Quanto mais crescer pior estará a democracia».

Como vê o impacto económico desta guerra? As entidades internacionais já começam a deixar alertas, mas terão de rever as metas de crescimento?
Inevitavelmente, há três grandes impactos. Um, ao nível da desaceleração do crescimento, ou seja, todas as metas serão revistas em baixa. Um segundo, é que a inflação vai acelerar. E um terceiro, que já se está a sentir, é a subida das taxas de juro. Além do impacto social e humano desta guerra, também vai haver um impacto económico que será diferenciado no contexto europeu.

A Fed já subiu as taxas de juro, o Banco de Inglaterra também. Para já, o BCE ainda não, mas será inevitável esse caminho?
Os juros já começaram a subir por parte da Reserva Federal Americana e vão subir também ao longo deste ano por parte do Banco Central Europeu. Isto vai ter consequências em toda a zona euro e Portugal, tendo um peso da dívida muito grande, vai começar a sentir essa subida dos juros no final do ano e sobretudo em 2023.

E isso terá impacto não só para as empresas mas também para os portugueses que têm créditos...
Depende dos contratos, mas isto afeta tudo: o Estado, as famílias e as empresas. As condições de financiamento vão ficar mais exigentes e aquilo que sem guerra estimaríamos que aconteceria a partir de 2023 e 2024, quando a inflação subisse para perto de 2%, neste momento já sabemos que a inflação vai ser claramente acima e as taxas de juro vão subir rapidamente também por via de uma alteração na política do Banco Central Europeu, que tem tido uma política expansionista de compra de ativos e que vai reduzir-se.

Antes da guerra, o BCE já tinha sinalizado que ia acabar com o programa de recompra de ações. Esta incerteza acabou por acelerar esta política?
Acelerou o processo de alteração da natureza da política monetária do Banco Central Europeu, no sentido mais contracionista. 

E estamos a braços com uma subida dos preços dos combustíveis e da energia...
Esse é o impacto da inflação e que atinge sobretudo os combustíveis, por um lado, e outras fontes de energia – gás e bens alimentares –, por outro, o que vai ter um impacto obviamente na inflação em todos os países e há um efeito direto e indireto. O efeito direto é nas nossas importações e já estamos a sentir isso ao nível dos bens alimentares. Não nos esqueçamos que a Ucrânia é dos maiores exportadores de milho e trigo a nível mundial. E, portanto, vamos ter quer um aumento geral de preços, quer um aumento setorial em determinados bens específicos. A energia tem um impacto em todos os setores, através dos transportes e acaba por se repercutir no preço de quase todos os bens. Vamos ter uma inflação bastante mais alta e obviamente que isso vai ter um impacto diferenciado na economia portuguesa, porque há setores, nomeadamente a nível industrial, que têm maior intensidade energética, como a cerâmica, o vidro, e esses setores serão mais afetados por essa subida de preços.

Não nos esperam meses fáceis?
O grande problema da guerra está a ser pago pelos ucranianos. Não estamos a ser os mais afetados.

Somos danos colaterais...
Exatamente, mas obviamente vamos sentir isso e vai ter um impacto em termos da diminuição do salário real dos portugueses. Com a inflação e sem a alteração dos salários, o salário real diminuiu. A guerra tem um impacto social, humano e económico e vamos ter que pagar o nosso preço por esta guerra, sobretudo os europeus. 

Isso não mostra a fragilidade da economia portuguesa devido ao grande peso das importações e da elevada dependência dos mercados externos?
Não, porque vivemos em economias globalizadas, em que cada país tem as suas vantagens comparativas. É isso que é o normal na globalização e é vantajoso que aconteça. Aprendemos isso desde o David Ricardo nos compêndios de Economia. O que não estávamos à espera é que esta globalização das economias fosse afetada por uma guerra com esta magnitude. Esta guerra tem um dado novo: não é Portugal que tem de ser autónomo, mas a Europa que tem de ser mais autónoma em termos de fontes de energia, nomeadamente em relação à Rússia. Esta ideia que se tinha com o Nord Stream 1 e depois com o Nord Stream 2, que agora está suspenso, de uma integração económica, do ponto de vista económico fazia todo o sentido. Esta postura de Putin levou os europeus – é esta a escala que é preciso pensar, não é Portugal é a Europa – a pensar em sermos mais autónomos do ponto de vista energético e de outras coisas que agora não se falam, como é o caso dos semicondutores e que tem a ver com o sudoeste asiático. Se calhar devíamos começar a pensar e já o estamos a fazer que a Europa para ter soberania tem que ter soberania ao nível económico, ao nível das fontes de energia e ao nível do digital. Já estamos a fazer progressos nesse sentido, mas vai ter de ser acelerado por causa desta guerra.

A Alemanha já anunciou a criação de uma fábrica de chips. A tendência será essa?
A abordagem que deve ser feita, do meu ponto de vista, é à escala europeia. Cada país deve desenvolver aquilo que são as suas vantagens comparativas, obviamente a Europa não vai deixar de ter relações com países terceiros, mas em setores estratégicos para o seu desenvolvimento e para o seu crescimento não pode depender de forma tão acentuada de terceiras entidades, seja ela a Rússia ou a China, sobretudo países que não partilham dos valores democráticos que partilhamos. 

E Portugal poderá especializar-se em que área?
Temos de apostar em setores tecnologicamente avançados, ou seja, temos aquelas indústrias tradicionais, como o vestuário, o calçado, etc., em que alguns dos quais se conseguiram diferenciar e, como tal, conseguiram incorporar mais valor, mas temos de reconverter um pouco a nossa estrutura produtiva para alimentar o nosso crescimento económico. Isso passa por apostar mais nos setores digitais e tecnológicos que têm de ser mais dinamizados.

Depois da pandemia, uma guerra era tudo o que não precisávamos de ter...
Tivemos uma sucessão de três crises. Tivemos a crise financeira de 2011/2014, a crise pandémica que não está totalmente resolvida mas o pior terá pesado de 2020 a 2022 e agora temos esta crise. Estou relativamente otimista em relação ao desfecho desta guerra e por mais irracionais que possam ser algumas atitudes que Putin esteja a tomar e são, ninguém ganha com esta guerra e quem perde mais é a Rússia, estou convencido que está a ser pressionado, quer internamente pelos oligarcas, quer externamente por todos os parceiros internacionais para se arranjar uma solução rápida. As conversações, ao que parece, estão a decorrer. Putin já admite falar com  Zelenski, desde que isso leve a uma resolução e estou convencido que esta guerra não vai durar muito mais tempo. O que não quer dizer que os efeitos económicos não perdurem. Ou seja, se daqui a um ou dois meses houver um acordo em termos gerais, os efeitos vão perdurar ainda mais alguns meses, mas esta instabilidade vai atenuar-se. Aliás, já se sente uma descida, quer do preço do barril do petróleo que esteve o seu pico a 7 de março e já desceu abaixo dos cem dólares recentemente, quer do gás. O único setor que mantém os preços elevados está relacionado com os cereais e por causa da Ucrânia que, se calhar, nem sequer vai conseguir fazer o plantio porque esta seria a altura de semear. O único efeito mais duradouro será esse. Isto significa que temos incerteza, mas se a guerra durar mais um ou dois meses, poderemos chegar ao final do ano do ponto de vista económico com uma situação mais normalizada, obviamente com taxas de juro mais elevadas e com a inflação mais alta.

As medidas anunciadas pelo Governo para atenuar essas subidas são suficientes?
Não há medidas suficientes, ou seja, o Governo, por mais medidas que tome, não vai conseguir contrabalançar o poder de compra real das famílias que diminuiu ou o aumento de custo das empresas que subiu. Nesse aspeto, as medidas nunca são suficientes. Agora, elas devem ser bem desenhadas para atingirem os objetivos que se pretende. Por exemplo, na área dos combustíveis espera-se que a União Europeia consiga tomar a decisão de que os Estados-membros diminuam o IVA sobre os combustíveis. No nosso caso, a taxa normal está nos 23% e uma descida para os 13% seria uma redução de 10 pontos percentuais, o que seria significativo. Acho que estamos na altura e agora com este Orçamento do Estado de o Governo repensar um bocadinho toda a política de tributação dos combustíveis. Uma das coisas que não faz muito sentido, por exemplo, é que o IVA incida também sobre o ISP (Imposto sobre os Produtos Petrolíferos). 

É a tal dupla tributação...
Exato, mas esse é um diálogo que tem de se fazer com Bruxelas, mas isso parece-me evidente. E também olhar para a nossa posição no contexto europeu, somos dos países que temos a gasolina mais cara e não é por causa do preço do combustível, é por causa dos impostos. É evidente que devem existir por razões ambientais impostos sobre os combustíveis, mas penso que o Governo deveria aproveitar esta época e esta situação para repensar um pouco esta tributação dos combustíveis. Depois, porque isto afeta todos os setores de atividade económica, claro que uns usam mais esta componente energética do que outros, o Governo tem de avançar com medidas e por mais gerais e seletivas que sejam serão sempre consideradas insuficientes pelos agentes económicos. As empresas pedem mais ajudas, mas há uma série de medidas que estão a ser tomadas de apoio, como linhas de crédito com garantia do Banco de Fomento. Mas essas coisas devem ser feitas, mas devem ser feitas com cuidado. Esta garantia do Estado para empréstimos significa que se a entidade não reembolsar os empréstimos será o Estado a entrar e isso significa mais dívida. 
 

E, tendo em conta várias experiências passadas, nem todos os projetos correm bem...
Há sempre um grau de incumprimento em termos de pagamento de empréstimos, mas é preciso manter isso controlado. Depois, há medidas de apoio às famílias, sobretudo às mais vulneráveis e isso é necessário. E tem de ser pensado, ou seja, como é que se apoia as famílias de mais baixos rendimentos, principalmente quando sabemos que temos uma pobreza energética. Há tarifas sociais, mas será que as pessoas que têm direito estão a beneficiar dessas medidas? Isto tem a ver com a chamada ativação das políticas públicas, não basta o Governo anunciar uma política e depois não ser implementada porque os potenciais beneficiários dessa política não acedem a ela. É preciso efetivar essas políticas de apoio às famílias mais carenciadas.

Disse que esta era a altura para o Governo rever a carga fiscal no próximo Orçamento, mas isso depois irá comprometer contas e metas...
O Governo tem que alterar o Orçamento do Estado, porque o cenário macroeconómico é diferente. O preço do barril de petróleo é mais alto, as expectativas de crescimento para este ano são mais baixas, a taxa de inflação vai ser mais alta e o Governo vai ter que repensar o Orçamento do Estado, sobretudo do lado da receita, mas também alguma coisa do lado da despesa. 

Na campanha eleitoral, António Costa acenou com o Orçamento chumbado e prometeu apresentar o mesmo documento.
Na campanha eleitoral não havia guerra e em situação normal acho que era compreensível que, neste caso, o PS e António Costa – primeiro-ministro e candidato a primeiro-ministro – tivesse acenado com um Orçamento que tinha sido apresentado dois meses antes. Numa outra situação seria normal que as ideias para o país não mudassem. Com a guerra temos um dado novo e vai ser preciso repensar, desde logo, o objetivo para o défice orçamental. Mas chamo a atenção que o défice orçamental previsto para 2021 é menor do que aquele que estava previsto no Orçamento de Estado. No Orçamento do Estado estava previsto 4,3% de défice e aquilo que se estima é que ande à volta dos 3%. Ou seja, em 2021 ter-se-á ultrapassado a meta que se queria alcançar. Se pensarmos para 2022, a questão é saber se deverá ainda reduzir mais o défice ou não. Na minha opinião, e atenção que sou um defensor de contas certas no sentido de que enquanto tivermos uma dívida muito alta como temos, a preocupação com a redução da dívida tem que estar sempre presente. Nos próximos 10 anos, a preocupação com a dívida tem de estar sempre presente, ainda assim, em relação ao corrente ano se o défice de 2021 tiver sido à volta dos 3,1%/3,2% não deve haver um esforço de redução do défice em cerca de um ponto percentual, que era o que estava previsto no Orçamento do Estado. Deve haver uma contenção porque obviamente a receita fiscal vai ser mais baixa do que o Governo preveria se a economia crescesse acima dos 5%. Aquilo que estava em todas as projeções internacionais para Portugal era um crescimento acima dos 5% e isso não vai acontecer este ano e é claro que isso vai ter um impacto no Orçamento. Em resumo, o Governo além de rever o cenário macroeconómico deve rever os objetivos orçamentais para este ano, tendo em conta, quer os resultados de 2021, quer a nova realidade em termos de inflação, taxas de juro e desaceleração do crescimento.

Tudo indica que no próximo Governo iremos assistir a uma mudança de pastas nas Finanças. Corre-se o risco de seguir outra linha? 
Estou plenamente convencido que, enquanto António Costa for primeiro-ministro, o PS vai defender o caminho das contas certas. Acho que isso foi uma herança do grupo dos economistas, em que modestamente me incluo, e porque António Costa percebeu porque frequenta os fóruns europeus que essa questão é essencial e é importante. Se houver mudança de pasta e se for um ministro mais político, o objetivo será certamente a sustentabilidade das finanças públicas, mas será mais permeável, dependendo da sua personalidade, a pressões políticas porque está mais entrosado politicamente.

Fala-se em Fernando Medina...
Uma coisa é um ministro independente, como Mário Centeno ou João Leão, e haver pressões de fora. Outra coisa é um ministro que possa ser mais permeável a pressões e onde os contactos políticos existem e são mais estreitos. Depende muito da personalidade que for escolhida e da sua capacidade de dizer não, porque um ministro das Finanças tem de se saber impor e saber dizer não. Se não o fizer é um mau ministro das Finanças e mais vale desocupar o lugar.

Para não assistimos a um desequilíbrio orçamental como o que já tivemos...
Temos que prosseguir um caminho de desendividamento da economia portuguesa, em particular do Estado, porque os juros já estão a subir e os países que tiverem maior rácio da divida no PIB serão os primeiros a entrar negativamente no radar das agências de rating e a subir a nossa despesa com juros. E isso não é desejável para ninguém: em vez de estarmos a gastar dinheiro com hospitais, escolas ou outro tipo de serviços públicos estamos a pagar juros da dívida. Este caminho que temos seguido nos últimos anos e que foi interrompido bruscamente com a pandemia tem que voltar a ser implementado de forma moderada. Não podemos cair nem para o lado do aumento do défice orçamental, mas também não devemos cair para o lado oposto que é ir além das metas e ter uma politica restritiva, numa altura em que a economia sofre um choque desta natureza. 

Voltar ao caminho antes da pandemia?
Antes da pandemia estávamos a reduzir o rácio da dívida no PIB de forma acentuada. Isso aconteceu em 2016 e 2019, depois tivemos a pandemia em 2020 e assistimos a um agravamento do peso da dívida. Esse caminho é inevitável. É isso ou o resgate financeiro daqui a cinco anos. Temos que ter sempre presente esta meta até estarmos bem integrados num grupo, não o grupo de Itália ou da Grécia porque estou convencido que vai haver um problema em Itália nos próximos anos porque não está a reduzir o seu endividamento. A Itália é dos países que mais recorreu aos empréstimos do Programa de Recuperação e Resiliência (PRR) e nós aí já tivemos uma atitude mais sensata que foi recorrer a uma pequena utilização dos empréstimos, optando mais por uma utilização dos fundos a fundo perdido. Não queremos estar nesse grupo porque se tivermos e se os juros subirem significativamente e não sabemos o que vai acontecer – este ano sabemos, mas em 2023 e 2024 não – arriscamos a pagar mais milhares de milhões em juros.

Ninguém quer isso.
E ainda temos todos presente a memória dos tempos da troika...
Acho que todos temos memória de quão difícil e tão penoso foi o período da troika em Portugal. Poderia ter sido menos penoso se as políticas tivessem sido melhores. Não queremos voltar a essa situação e para isso é necessário ter sempre presente a ideia de sustentabilidade das finanças públicas. Isso não significa não ter uma politica demasiadamente restritiva. Há aqui um equilíbrio ótimo entre, por um lado, caminhar para a sustentabilidade das finanças públicas e, por outro lado, não ter uma política de tal maneira restritiva que agrave o próprio crescimento da economia e que agrave as condições de vida das famílias pela sobrecarga fiscal. Há aqui um ponto de equilíbrio entre dois males que não se querem. 

Falou no PRR. Há cada vez mais vozes, principalmente por parte das empresas a pedir uma nova alocação de verbas para fazer face a estes aumentos. Seria desejável?
Em termos gerais quando se faz um plano obviamente que pode ser afinado. Mas não deve ser muito alterado. Temos aquelas três grandes componentes: ambiental e de descarbonização; digital e da formação e resiliência. E temos envelopes financeiros afetados a estas três áreas, onde há objetivos, há metas e há indicadores. Alterar completamente isto estou completamente em desacordo. Temos uma margem no PRR que tem a ver com a parte dos empréstimos, em que usámos uma pequena tranche e poderíamos usar mais, e isso é que poderemos ver com as associações empresariais que mais fundos poderiam ser afetos às empresas. Aí há uma margem para novos programas além daqueles que já existem neste momento. Em relação à outra componente que já está de certa maneira afetada do ponto de vista da sua distribuição dos envelopes financeiros não me parece que haja muita margem para grande negociação porque depois isso cria uma irresponsabilização. Se temos um plano, se o mudamos e depois não alcançamos as metas, pode dizer-se que as metas não foram alcançadas porque a meio do jogo foi alterado o plano. É preferível recorrer a empréstimos, mas é preciso ter em atenção a questão das garantias do Estado e nisso o Banco de Fomento tem de ser bastante transparente nos critérios porque as garantias do Estado é algo que também nos pode cair no bolso dos impostos, como aconteceu com as PPP. Parece que não tem problema nenhum, mas em caso de incumprimento é o Estado que tem a responsabilidade de ressarcir esses empréstimos. Isso tem que ser bem descortinado e justificado sabendo que há sempre uma taxa de incumprimento, mas essa taxa de incumprimento não pode ser 80 ou 90%. Pode ser no máximo 10 a 15%. E para isso é necessário que a seleção das entidades que recorrem seja criteriosa e que os critérios sejam transparentes para que a sociedade civil possa descortinar. 

O novo Governo ainda não tomou posse, mas, sendo maioritário, não vai precisar dos partidos de esquerda. Espera uma forte contestação nas ruas?
Enquanto houver guerra só se vai falar da guerra e durante esse período acredito que não vai haver grande contestação. Mas se, como prevejo dentro da incerteza, dentro de três meses se estivermos livres da guerra então esses três meses coincidem com a fase de discussão do Orçamento do Estado na Assembleia da República aí não tenho grandes dúvidas que a contestação se vai fazer sentir, dizendo que os preços estão a aumentar e que não é possível aceitar salários tão baixos, por exemplo, na Função Pública ou uma série de reivindicações setoriais de todos os setores que estão a ser mais afetados. Ou seja, junho e julho admitindo que a guerra terminará, vão ser meses de forte contestação social. Depois haverá uma quebra no verão e  regressará com o outro Orçamento do Estado. Isso é inevitável. O PCP, em particular, está mais ligado à CGTP, perdeu representação parlamentar e a sua estratégia sempre foi que através da luta das massas é que se consegue alcançar os objetivos.

Isso foi visível no discurso de Jerónimo, após as eleições...
E só ainda não foi porque, neste momento, o PCP ficou enfraquecido. Apesar de se distanciar um bocadinho de Putin e da Rússia, esta guerra também não beneficiou o PCP, embora o partido tenha feito um esforço nesse sentido. O PCP sai duplamente enfraquecido disto. Mas continua a ter uma importância do ponto de vista sindical e é expectável que venha a existir maior contestação social.

Estava à espera desta maioria absoluta?
Não estava, nem ninguém estava à espera deste resultado. Embora estivesse à espera que o PCP e o Bloco de Esquerda fossem fortemente penalizados, porque ninguém compreende, à exceção de poucas pessoas nesses partidos, que tivessem chumbado um Orçamento sabendo a priori que o Presidente da República iria dissolver o Parlamento se o documento não fosse aprovado. Eles sabiam, mesmo que depois tenham dito que constitucionalmente seria evitável a dissolução, mas o Presidente anunciou que se votassem contra e se derrubassem objetivamente o Governo levaria a eleições antecipadas. Ninguém acreditou na narrativa que tentaram transmitir de que era o PS que tinha querido as eleições. Isso não admirou nada. A única coisa com que me admirei foi o PS ter ganho por maioria. Houve muito voto útil à esquerda e eventualmente também da direita para o PS. Sou uma das pessoas que não defende maiorias absolutas e que não são muito benéficas, mas que já existem, a responsabilidade cabe agora totalmente ao Partido Socialista de implementar políticas.

Como é que Costa vai governar? 
Acho que esta governação vai depender muito da equipa governativa que Costa conseguir ter. Se for uma boa equipa, o facto de ter uma maioria absoluta é muito bom e acho que negoceia à esquerda e à direita, mas tem a possibilidade de avançar não havendo acordo. Do meu ponto de vista devia tentar acordos com o PSD, sobretudo em reformas estruturais em áreas importantes do país porque é a única forma de lhes dar estabilidade no futuro. Uma reforma para ser estável tem que assentar numa base suficientemente ampla para que quando tiver outro partido no Governo não reverta essa reforma que foi implementada. Quanto ao tipo de governação depende da equipa que for formada. Há uma coisa curiosa em Portugal, como os partidos são fracos do ponto de vista interno e de grupos de estudos, a política que é implementada por um Governo depende muito das personalidades desse Governo. Por exemplo, Mariano Gago foi um excelente ministro da Ciência, descurou um bocadinho as universidades, mas da parte da ciência foi muito bom. 

E em relação a maus exemplos?
Acho que Manuel Pinho não foi um bom ministro. Isso revela que os ministros em Portugal têm muita influência na política do Governo, porque nos outros países mais avançados, como a Inglaterra ou a Alemanha há um pensamento muito estruturado sobre o que se quer fazer na área ambiental, laboral, etc. e quando esses partidos estão no Governo, mesmo em coligação sabe-se qual é o pensamento do partido em relação a determinadas áreas. Em Portugal isso não acontece. Mais, no nosso caso temos exemplos de quando muda a pasta e muda o ministro – isso aconteceu, por exemplo, na Educação – a política muda do mesmo partido. São as personalidades que imprimem algumas características fundamentais de uma determinada política.

Os nomes que são apontados para ministros apontam para uma boa equipa?
Não sei quais vão ser as pessoas convidadas e não quero futurologia.

Defende acordos com o PSD. Estando o partido com esta instabilidade será menos fácil? 
Do ponto de vista do timing do país temos quatro meses que vão ser o Orçamento de 2022 e é a guerra. Agora não há grandes conversas a ter, no final desses quatro meses haverá sucessão no PSD e essas conversas, quer com o PSD, quer com outros partidos, sobre algumas reformas estruturais deveriam ser pensadas logo a seguir, no segundo semestre deste ano porque as reformas também só se fazem e devem-se fazer no início da legislatura e não no fim. Portanto, o segundo semestre devia ser aproveitado para que houvesse um verdadeiro ímpeto de reforma e isso já incluiria o Orçamento do Estado para 2023. Mas há reformas que não têm nada a ver com Orçamento do Estado. É o caso do sistema eleitoral.

Quais reformas?
Não é preciso ir a todas áreas. É preciso ir a quatro ou cinco áreas e tentar fazer reformas aí. O sistema eleitoral é uma delas, a justiça é obviamente outra. Quanto à administração pública, a questão central é a descentralização e a forma em que  se poderá processar. 

Mas a descentralização poderá ser mais ou menos fraturante consoante o próximo líder do PSD...
O PSD é tendencialmente favorável à descentralização pelo peso autárquico que tem. E o PS também. Não há é suficiente debate e reflexão sobre o que se pretende. 

E como vê os nomes do PSD que estão em cima da mesa para suceder a Rui Rio e  para fazer oposição ao PS?
Depende do que entendemos do que pode ser a melhor para fazer oposição ao PS. Acho que Luís Montenegro faria uma oposição mais radical, no sentido de antinómica. Parece-me que Miguel Pinto Luz seria mais construtivo na diversidade. Seria um bom candidato para fazer oposição, mas conseguiria fazer mais algumas pontes com o PS do que Montenegro.

Como ex-deputado como vê agora o novo cenário do Parlamento?
Há duas novidades. A primeira é haver uma maioria absoluta e isso altera completamente a natureza do jogo político parlamentar. Em ultima análise, o PS pode passar os diplomas que quiser. Outra coisa, apesar de não estar alinhado acho um empobrecimento o desaparecimento do CDS e a grande responsabilidade tem um nome: Francisco Rodrigues dos Santos. Vejo com alguma curiosidade e interesse o surgimento de maior representatividade do Iniciativa Liberal. Acho importante haver um partido nesta área e Portugal era dos poucos países europeus que não tinha essa representatividade e é um bom contraditório ao PS. Em relação ao Chega tenho pena que tenha tido a subida que teve, mas deverá estar isolado porque não aceita nem a Constituição. Acho que o Chega deve ser entendido com um sinal da qualidade da nossa democracia. Ou seja, quanto mais crescer pior estará a democracia. Temos agora no Parlamento um barómetro da qualidade da democracia: quanto mais crescer, pior está. 

Então com a eleição de 15 deputados revela que a democracia está ferida...
Está com problemas. Escrevi um livro sobre isso A Democracia Em Portugal - Como Evitar O Seu Declínio porque acho que está a haver um declínio da democracia portuguesa e escrevi-o antes das eleições.

Também disse que as maiorias absolutas serão cada vez mais raras...
Acho que houve esta e duvido que haja mais alguma, nem com o PS, nem com nenhum partido. Muitas pessoas que votaram no PS não pensaram que iriam dar maioria absoluta. Mas também foi muito resultado desta indefinição do PSD que antes das eleições não deixou muito claro que não iria conversar ou ficar refém do Chega. E o PAN também não. O PAN deu a entender que poderia fazer coligações com o PS ou com o PSD. 

Entrou como deputado socialista, durante essa legislatura passou a não inscrito e acabou por votar 74 vezes contra o PS... 
Nunca votei contra o Partido Socialista. Cumpri escrupulosamente o compromisso ético que todos os deputados têm de fazer e assinar, pelo menos os do PS, sobre a forma de votação em plenário. E esse compromisso ético diz que em coisas importantes, como Orçamento do Estado, moções de censura, moções de confiança  ou coisas que estão claramente inscritas no programa eleitoral deve-se votar alinhado. Nas outras coisas não. É isso que está lá escrito e foi isso que cumpri escrupulosamente. Nunca votei contra o Partido Socialista, votei em linha do que são as minhas convicções, daquilo que ensino na universidade há mais de 30 anos. Se tenho um livro com um capítulo em que diz que as Ordens Profissionais são organizações corporativas então não posso ir para o Parlamento e quando há um projeto-lei, mesmo que seja do PS, para criar mais ordens profissionais voto contra. Tenho no meu site todas as declarações de voto que fiz e que são muitas em que justifico porque é que votei como votei. Acho que esse é que dever ser o papel de um deputado, se todos os deputados votarem exatamente como a direção do grupo parlamentar quer então não é preciso haver 230 deputados, bastava haver tantos deputados quanto o número de partidos. Se temos um Parlamento com este número de depurados é para que todos contribuam. Acho que dei o meu contributo, quer dentro do grupo parlamentar do PS e quando achei que o grupo parlamentar não me estava a beneficiar das minhas capacidades e possibilidades disse: ‘Meus caros, amigos à mesma, mas nesse caso saio’. Ninguém compreende como é que uma pessoa que é vice-presidente da comissão de Orçamento e Finanças e professor catedrático de Finanças Públicas não possa intervir nem no Orçamento do Estado, nem na discussão do programa de Estabilidade. Não compreendo, ou pelo menos, só posso tirar uma ilação como aquela que tirei que não vale a pena continuar a justificar aqui.

Todos compreenderam a decisão?
Acho que todos compreenderam, inclusive as pessoas do PS. Não fiz, nem quero fazer uma grande questão em torno disto. Acredito que a minha saída tenha criado algum desconforto, mas como diz o outro, ‘É a vida’. 

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