Política a sério

A paz dos cemitérios

Não é crível que, por muito fanatizados que estejam, os dirigentes comunistas não se comovam com a desgraça dos ucranianos, não se choquem com a cruel agressão russa, não estejam solidários com um Presidente e um povo que defendem o seu território.

A paz dos cemitérios

O Partido Comunista Português recusou estar presente na sessão solene do Parlamento convocada para ouvir o Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, com o argumento de que defende a paz – e Zelensky é um ‘senhor da guerra’.

Exprimindo a posição oficial do partido, a líder parlamentar, Paula Santos, atacou violentamente o Governo ucraniano, chamando-lhe «belicista e xenófobo». 

Mas ficámos sem saber o que o PCP pensa do Governo russo e do seu Presidente, pois Paula Santos não disse nada a esse respeito.

O secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, também se referiu por estes dias à guerra, chamando-lhe «operação militar». 

Por acaso, a designação usada por Putin.

Enquanto isto acontecia, as autoridades russas divulgavam um comunicado dizendo que «a vida em Mariupol» tinha retomado «a normalidade».

E as televisões mostravam imagens de uma cidade totalmente arrasada.

Não se via um único prédio em pé.

Falar de ‘normalidade’, naquela situação, só podia ser… humor negro.

No mesmo dia, a CNN transmitiu uma reportagem feita em Donetsk, na zona ocupada pelos separatistas russos. 

Entrevistou alguns deles, que acusavam as tropas ucranianas de os atacarem e bombardearem, mostrando como prova o resto de uma granada. 

Falavam também de «genocídio», dizendo que a intervenção russa era «inevitável».

Não sendo legítimo duvidar do que aqueles homens diziam, as imagens mostravam uma cidade com prédios intactos, ruas intactas, automóveis intactos. 

Tudo tinha o aspeto normal de uma cidade normal. 

Ora, o que vemos nas cidades da Ucrânia atacadas pelas tropas russas?

Vemos prédios desfeitos, ruas juncadas de destroços, carros queimados, corpos pelo chão.

Os separatistas russos queixam-se da violência dos ucranianos – mas colaboram com um Exército que tem praticado atos de uma violência incomparavelmente superior. 

Cá dentro, os comunistas também se queixam.

Dizem que está a formar-se um «pensamento único» e reivindicam o direito de ter sobre esta guerra uma opinião própria, diferente da da maioria. 

Concordo absolutamente. 

Mas não foi o PCP que defendeu sempre o ‘pensamento único’? 

Não foi o PCP que defendeu com unhas e dentes e até ao fim a URSS, onde o pensamento único era imposto pelo partido que dominava o Estado? 

Não foi o PCP que sempre defendeu Cuba? E que defende a Venezuela, a Coreia do Norte e outros países onde a liberdade de pensamento não existe?

Se há uma força política sem moral para contestar o pensamento único essa é exatamente o PCP.

Até devia envergonhar-se de o fazer.

Quanto à defesa da paz, a situação é exatamente a mesma.

O PCP nunca defendeu a paz – sempre advogou a violência. 

Na guerra colonial, pôs-se abertamente ao lado dos movimentos que lutavam pela independência. 

Quando hoje fala de ‘paz’ não está a ser verdadeiro.

Só o faz para lançar a confusão.

É preciso dizê-lo abertamente: o PCP usa a paz como uma cortina de fumo para fugir a criticar abertamente a invasão russa da Ucrânia. 

Só lhe falta dizer que os culpados das mortes e da devastação na Ucrânia são os ucranianos porque se opuseram aos russos.

Se os tivessem deixado entrar livremente no país, nada disto estaria a acontecer. 

Vi o meu pai chorar quando a URSS invadiu a Checoslováquia.

Era o desmoronar de um sonho.

A invasão de um país que queria seguir o seu caminho contrariava tudo o que ele tinha defendido até aí.

Mesmo assim, era uma invasão pacífica.

Os tanques de Moscovo entraram em Praga sem disparar um tiro.

Ora, o que sentirão os comunistas hoje ao verem as tropas da Rússia entrarem pela Ucrânia dentro e arrasarem prédios, matarem gente e atirarem os corpos para valas comuns, obrigarem as pessoas a esconder-se em subterrâneos onde os vivos convivem com os mortos, ou então a fugirem em massa, provocando milhões de refugiados?

Algum comunista honesto pode assistir a isto sem um arrepio?

Sem uma palavra sequer de repúdio e de condenação clara de Putin?

Sem pronunciar a palavra ‘invasão’, substituindo-a por ‘operação militar’, como fez Jerónimo de Sousa?

Qualquer que seja o ponto de vista sob o qual observemos esta questão, a posição do PCP é chocante.

Por trás dela tem de haver outras razões, que não apenas as ideológicas ou políticas.

Tem de haver razões obscuras, eventualmente financeiras.

Não é crível que, por muito fanatizados que estejam, os dirigentes comunistas não se comovam com a desgraça dos ucranianos, não se choquem com a cruel agressão russa, não estejam solidários com um Presidente e um povo que defendem o seu território.

E só por inconcebível cegueira os militantes comunistas acreditarão na retórica de dirigentes que, alinhados com o Kremlin, defendem a paz… dos cemitérios.

P.S. – A visita de Guterres à Rússia e Ucrânia tornou clara a total incapacidade da ONU para desempenhar a função para que foi criada: intermediar e resolver conflitos armados. 

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