Politica

O segundo mandato do 'presidente dos afetos'

Marcelo Rebelo de Sousa tomou as rédeas da Presidência em 2016 e, desde então, tem-se destacado pelas posições ‘informais’. Há quem não desgoste, e há quem questione o papel do PR.


Marcelo Rebelo de Sousa não é, de todo, um Presidente da República qualquer. O antigo comentador chegou a Belém em 2016 e, desde então, tem feito manchetes com o seu estilo ‘afetuoso’, incomum e noctívago – há quem diga que só dorme quatro a cinco horas por noite. Dos banhos em Cascais e no Gigi, até às selfies e aos abraços, Marcelo é um Presidente mediático, presente e ativo. Mas as últimas semanas têm visto uma intensificação no número de manchetes que incluem o seu nome, quer pelo anúncio inusitado da visita de António Costa à Ucrânia, antes que o próprio gabinete do primeiro-ministro anunciasse a viagem, até ao anúncio de que levaria a lei dos Metadados ao Tribunal Constitucional, mesmo antes da proposta de revisão desta lei estar entregue.

E a ‘cereja no topo do bolo’ foi a visita de Marcelo Rebelo de Sousa a Díli, em que o Presidente da República se mostrou com a sua efusividade característica, dando um caloroso abraço a Xanana Gusmão, antigo Presidente timorense, e protagonizando emocionantes discursos a enaltecer os 20 anos de independência do país e a relação de Portugal com Timor-Leste.

Mas, se bem que Marcelo é conhecido pelas posições, por vezes, ‘politicamente incorretas’, as últimas semanas têm sido ricas em polémicas, levantando algumas sobrancelhas um pouco por toda a sociedade portuguesa.

Há, no entanto, quem não ache mal nenhum nas posições tomadas por Marcelo Rebelo de Sousa. É o caso, por exemplo, de Carlos Guimarães Pinto, deputado e antigo líder da Iniciativa Liberal, que, ao Nascer do SOL, considera que estas posições fazem «parte do perfil do Presidente a que nos habituamos ver intervir com frequência e algumas vezes com falta de cuidado institucional». Um estilo que, confessa Guimarães Pinto, não o «desagrada completamente». «Embora o Presidente da República por vezes exagere, não me desagradam políticos sem demasiadas amarras formais no discurso», explica o deputado da Iniciativa Liberal.

Em reação a este tipo de posições tomadas por Marcelo, há quem questione qual é, afinal, o papel do Presidente da República? Para Guimarães Pinto, este deverá ser «um papel discreto», o que, reconhece, «não vai muito de encontro ao estilo pessoal do presidente». «Marcelo Rebelo de Sousa parece buscar a relevância política e mediática que a Constituição não lhe dá nas atuais circunstâncias», acusa ainda o liberal, destacando, no entanto, que se trata de efeitos do facto de o Presidente da República estar a exercer o seu segundo mandato em Belém. «Não me parece haver diferenças assim tão grandes», argumenta Guimarães Pinto, comparando o primeiro e o segundo mandato de Marcelo Rebelo de Sousa. «O presidente sempre teve este estilo de intervenção, eventualmente um pouco restringido por ser o primeiro mandato. Será normal que num segundo mandato, sem necessidade de ser reeleito com os votos do PS, Marcelo Rebelo de Sousa não tenha alguns dos cuidados que teve no primeiro mandato. Isso não é necessariamente mau», conclui o liberal.

Nem toda a gente, no entanto, se mostra muito satisfeito com as posições de Marcelo Rebelo de Sousa. Num artigo de opinião do jornal Público, Ana Sá Lopes acusou o Presidente da República de viver uma ‘crise existencial’. «Percebe-se que o Presidente viva uma crise existencial com a sua família política aos trambolhões e sem a alternativa com que sempre sonhou – mas tem urgentemente que, como se diz agora, se ‘reinventar’», acusa Ana Sá Lopes, definindo como «incompreensível» a revelação de que Costa iria encontrar-se com Zelensky no mesmo dia em que o Presidente estaria em Timor. Uma revelação, aliás, que como o próprio Nascer do SOL noticiou, não incomodou só o gabinete do primeiro-ministro, mas também os militares, que acusaram, citados na edição da semana passada do Nascer do SOL, o Presidente de «falta de sentido de Estado».

Divórcio em processo
A ‘geringonça’, a maioria absoluta do PS e o alegado apoio de Marcelo Rebelo de Sousa ao acordo que governou Portugal durante seis anos foram vários dos temas que várias figuras contactadas pelo Nascer do SOL fizeram questão de realçar quando se fala das mais recentes posições tomadas pelo Presidente da República. Uma dessas figuras foi Raquel Varela, historiadora e investigadora da Universidade Nova de Lisboa, que acusa o fim do «casamento» entre Marcelo Rebelo de Sousa e a ‘geringonça’ que governou o país entre 2015 e 2021. «Aquele namoro da ‘geringonça’ que, apesar de ser de esquerda, tinha o apoio da direita via Marcelo Rebelo de Sousa, acabou», diz Varela, recordando que «Marcelo é um homem do PSD, e da ala conservadora da direita» e «neste momento, está numa disputa contra a maioria absoluta».

Ou seja, argumenta Raquel Varela, «o PS e o PSD são os principais partidos que disputam o aparelho de Estado. Com a maioria absoluta do PS, fica em muito melhores condições para ocupar lugares fundamentais neste aparelho». «Marcelo Rebelo de Sousa o que está é a afirmar a sua ala, a fração das elites que representa, e a dizer a António Costa ‘Calma lá que nós também estamos aqui e queremos disputar estes lugares, não pode ser tudo para o PS’», afirma ainda a investigadora.

Sobre se estes seriam, eventualmente, efeitos do facto de o Presidente da República estar a viver no seu segundo mandato, Raquel Varela, no entanto, não vai por essa via. «Na ‘geringonça’, assistimos a algo que nunca tínhamos assistido: uma esquerda tão apoiante do PS, e uma direita apelando tanto à estabilidade governativa», explica, relembrando que a própria candidatura de Marcelo Rebelo de Sousa a um segundo mandato na Presidência foi anunciada por António Costa, numa visita à Autoeuropa, «pouco tempo depois de ter estado em greve».

Outra opinião tem, no entanto, António Costa Pinto, professor universitário do ISCTE, que é sucinto nas suas opiniões sobre Marcelo Rebelo de Sousa: «Sobre temas como o tema de Kiev, realmente isto remete é para um estilo do Presidente da República e não para nenhuma demarcação em relação ao Governo. É, no entanto, natural, e isso irá com certeza acontecer no futuro, que o Presidente da República represente uma voz mais autónoma e até crítica do Governo, tendo em vista a conjuntura de maioria absoluta socialista».

Poder perdido
Sobre as posições tomadas por Marcelo Rebelo de Sousa nas últimas semanas, quem não faz «grandes interpretações» é o sociólogo Alberto Gonçalves. «É possível que se trate do típico comportamento errático do prof. Marcelo, é possível que o prof. Marcelo esteja a tentar provar que existe», começa, no entanto, a explicar ao Nascer do SOL, deixando uma nota final em tom ‘agridoce’: «Em qualquer dos casos, nada disto é consequente e digno de atenção», acusa, garantindo que a sua «capacidade de influenciar a governação» se perdeu  «há muito, por culpa própria». «Quem passa um mandato a abdicar da ‘iniciativa presidencial’ não vai a tempo de a recuperar. E de esperar que alguém o leve a sério. De certeza que o dr. Costa não o leva a sério», dispara ainda o sociólogo.

Sobre esta ser uma eventual ‘delimitação’ do PS por parte do Presidente da República, Alberto Gonçalves diz o oposto, garantindo que «o prof. Marcelo nunca se ‘delimitou’ do PS quando o partido tinha maioria relativa e uma aliança com dois partidos comunistas». «Desde logo, concedeu ao Governo carta branca para impor toda a sorte de abusos a pretexto da Covid, abusos que jamais procurou moderar e jamais criticou. E a covid é só um exemplo, embora medonho», continua o sociólogo, acusando o PS de ter «ultrapassado a linha democrática» em diversas matérias. «Infelizmente, nem o PR nem a oposição apareceram a lembrar que a linha estava lá e devia ser respeitada. Decerto por caráter, um caráter que o leva a abominar conflitos e ‘polémicas’, o prof. Marcelo é radicalmente incapaz de tomar uma atitude e assumir a responsabilidade por ela», acusa ainda o sociólogo, argumentando que «o único objetivo do prof. Marcelo é ser ‘popular’, na infantil conceção que ele tem da palavra». 

O estilo «devotado às ‘selfies’, aos banhos de mar, à deprimente exaltação da pátria e ao vazio absoluto não poderia ter um resultado diferente deste: a completa desvalorização da função presidencial», dispara ainda, lamentando que «talvez o prof. Marcelo queira emendar a mão e deixar um ‘legado’, mas não vai a tempo de emendar coisa nenhuma, e o legado é um desastre para o regime».

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