Cultura

Daniel Libeskind. "O belo é sempre o inesperado"

O arquiteto norte-americano esteve em Lisboa a inaugurar a S+Academy. Os planos para o novo Museu Judaico da capital continuam no segredo dos deuses, mas Libeskind deu uma verdadeira aula sobre a arquitetura e a memória, a beleza e o sagrado. ‘Se um edifício não for belo, não vale a pena construí-lo’, defendeu.

Daniel Libeskind. "O belo é sempre o inesperado"

Filho de sobreviventes do Holocausto, Daniel Libeskind nasceu em 1946 em Lódz, na Polónia, num refúgio para sem-abrigo. Considera, aliás, que o facto de a família não ter casa naquela época o torna «especialmente habilitado para ser arquiteto». Antes de seguir essa vocação, porém, foi um violinista virtuoso, tendo chegado a tocar com alguns dos grandes nomes da música clássica.

Parece espantoso que este que é um dos arquitetos mais cotados e procurados do nosso tempo tenha feito uma longa travessia do deserto. «Durante muitos anos não tive emprego, não porque fosse incapaz de trabalhar, mas porque não encontrava nada que fosse adequado à minha formação como arquiteto», revelou durante uma passagem recente por Lisboa.

Libeskind, que é autor de edifícios emblemáticos em todo o mundo, como o Museu Judaico de Berlim, o Museu de História Militar em Dresden, ou a Freedom Tower, a torre espelhada de 1776 pés (número alusivo à data da independência da América) que nasceu no lugar onde outrora se erguiam as Torres Gémeas destruídas pelos ataques de 11 de setembro de 2001, deu uma palestra (a primeira da S+Academy) na sede da Miguel Saraiva e Associados. Em conjunto com este ateliê, e com a Associação Hagadá, está a desenvolver o projeto do Museu Judaico de Lisboa para a Avenida da Índia.

Na sua intervenção, elogiou a capital portuguesa como «um conjunto extraordinário de sensações, atmosferas, realidades», confessou o seu «amor por Pessoa», recordou alguns marcos do seu trajeto e revelou o que procura quando desenha um edifício: «A arquitetura tem de ser algo que nos traz alegria».

‘O belo é sempre o inesperado’

«Os museus são organizações muito complexas. Muitas pessoas olharão talvez para a forma do museu, o volume e por aí em diante. Mas para mim um museu é aquilo que acontece à pessoa quando entra nele. Se sairmos de um museu tal e qual como entrámos, é porque o museu é horrível, não nos transformou. Antes de tudo, sabemos que era o lugar das musas, é essa a etimologia. E a mãe das musas é a memória, Mnemosyne. Por isso, a memória não é um fator adicional, no meu ponto de vista – é o próprio fundamento da arquitetura. O que não é memorável é desperdício. E cada sítio é único. Não sou daqueles arquitetos que têm um estilo e o aplicam ao lugar. Não, cada sítio é completamente único, e de maneiras inesperadas. Tive muita sorte de poder trabalhar em tantos sítios diferentes. Não acho que seja coincidência. Nasci num refúgio para sem-abrigo. Os meus pais eram sobreviventes do Holocausto, e quando vieram dos campos de concentração não tinham casa. O meu pai andava à procura de familiares que estivessem vivos e não encontrou nenhum. A minha mãe, com a minha irmã mais velha, procurou um refúgio onde pudessem ficar. E isso torna-me especialmente habilitado para ser arquiteto. É assim que começa. Somos todos de algum modo sem-abrigo e temos sorte se encontrarmos uma casa. Muitos arquitetos usam a palavra abrigo quando falam sobre arquitetura. Mas julgo que isso é uma expressão mais zoológica. Um edifício tem um orçamento, tem trabalho, tem um cliente, há todo o tipo de pessoas à volta. Mas no fim tem de ser belo. Sei que é uma palavra em desuso. Estamos numa sociedade woke, a beleza provavelmente vai deixar de ser legal [risos]. Podemos discutir o que é a beleza, mas é sempre o inesperado. E a verdade. É uma noção muito contestada hoje, como se fosse uma bola de pingue-pongue, mas a verdade existe».

‘Faço sempre algo para lá do limite’

«Se pensarmos num projeto, a menos que seja um projeto meramente comercial, uma transação de dinheiro, um projeto cultural é sempre uma viagem. Nunca é apenas: ‘dê-nos isto’, é um processo. Nas suas cartas à comuna de Florença, Brunelleschi, um dos meus arquitetos favoritos, diz o seguinte: ‘Deve-se fazer sempre algo de extraordinário, para que quando as pessoas começarem a atacar, a rebaixar e a comprometê-lo, continue ainda assim a ser um grande projeto’. Aplico isso a todo o meu trabalho. Fazer sempre algo para lá do limite para que quando passe pelo batismo de fogo, saia ainda assim alguma coisa com integridade. E eu adoro esse processo. A arquitetura é uma demonstração da democracia. Não é feita só por pessoas poderosas, agressivamente destruindo a cidade com os seus gestos. Sempre achei que o melhor era quando as pessoas podiam participar. Vou contar-vos onde aprendi isso: no Ground Zero. No Ground Zero havia imensas partes interessadas: os governadores, o governo federal, o Presidente dos EUA, o estado de Nova Iorque, os senadores, os mayors, a Autoridade Portuária (uma organização gigantesca com 7 mil arquitetos e engenheiros), os promotores imobiliários, que tinham investido milhares de milhões de dólares. A certa altura pensei: ‘Não lhes vou prestar muita atenção, porque não sei nada dessas coisas. Vou falar com as pessoas’. Aparentemente, para alguns colegas e amigos foi uma abordagem invulgar. Começam logo com grandes edifícios e a sua localização. Eu comecei apenas por perguntar às pessoas, em especial às famílias das vítimas: ‘O que acha? O que sente em relação a isto?’. Houve as mais diversas opiniões. Uns disseram: ‘Não se deve construir nada durante cinquenta anos’. Outros disseram de imediato: ‘Reconstrua apenas as duas torres como eram’. Era uma resposta perfeita. Mas não se pode parar o tempo. O tempo muda. Aprendi que, se as pessoas se envolverem, será fantástico. Se as pessoas não se envolverem, vai ser mais difícil’. Cresci sob o comunismo, na Polónia, e sob o antissemitismo. Sou cidadão polaco, adoro a Polónia, mas a minha memória da época é de medo, silêncio, um sistema autoritário. Tudo o que faço no meu trabalho serve uma ideia fundamental, que também é uma ideia judaica: liberdade».

‘Os miúdos são os meus maiores apoiantes’

«Nada do que é físico é imortal. O que é imortal é o espírito do edifício. Todos nós vamos a locais que carregam o peso da sua história ao longo dos milénios e de acontecimentos cataclísmicos. Mas a memória é algo muito mais rico do que apenas o gatilho de uma ideia. A memória não é uma metáfora. Algumas pessoas pensam que é alguma coisa que se encontra no computador. Podem perguntar ao Google o que é a memória e ele vai dizer-vos uma idiotice qualquer. Mas a verdadeira memória humana está relacionada de forma muito complexa com o tudo o que somos e pensamos. A verdadeira memória é uma descoberta espantosa. Quando crio um museu ou um espaço público, penso sempre nisso: como é que as pessoas vão entrar. Normalmente penso em miúdos, porque os miúdos são os meus maiores apoiantes. São sempre cínicos e céticos. Eu tenho filhos e muitas vezes convido miúdos, porque têm sempre opiniões fortes. Dizem sempre: ‘Faça mais disto. O ângulo não é suficientemente grande, faça um ângulo maior. Não é suficientemente alto, faça mais alto, faça mais largo, faça mais estranho’. Imagino sempre uma criança a vir ao museu, ou a um espaço público, e o que vai sentir? O que gostaria que sentisse é que tudo é possível. Marcel Proust escreveu a mais espantosa obra de vida, e em que se baseou? Estava em Veneza, na basílica de S. Marcos, e reparou numa pedra irregular. E de repente essa irregularidade remeteu-o para as pedras em Combray, na aldeia em França e na avó. E teve uma revelação de que o tempo não é apenas uma sequência uniforme, e que tinha de escrever sobre o maravilhamento do mundo. É um livro espantoso, que é sobre… Memória. E começo sempre por aí. A maioria das pessoas acha que a memória é algo que se pode captar numa fotografia, mas há muito mais do que isso, há a própria cultura. A memória tem uma estranha vibração sagrada. É como um fantasma, tem de se arranjar uma maneira de entrar em contacto com ela. Como é que isso se faz? Não há método, qualquer método que funcione é bom».

‘A cidade baseia-se em tudo o que não se pode tocar’

«Cresci na Polónia depois da guerra. Varsóvia foi sistematicamente arrasada pelos alemães. Tinham decidido erradicar o povo polaco da Terra, e arrasaram a capital, que era uma cidade linda, a zero. Tenho uma fotografia dos meus pais em 1946, eram apenas escombros, uma terra plana. Como é que reconstruíram Varsóvia? Reconstruíram-na a partir de pinturas de Bellotto. Bellotto pintou estes quadros incríveis de Varsóvia [no século XVII]. E claro, era um país pobre, havia o comunismo, Estaline, tinham betão, casas pré-fabricadas. Por isso algumas pessoas acham que é tudo fingido, falso. Mas eu acho bonito, é bonito terem reconstruído como era, como uma declaração contra a desumanidade. As catástrofes fazem parte da História, e podem acontecer a qualquer cidade. Mas há essa melancolia na cidade porque a cidade não se baseia na sua dimensão física, baseia-se em tudo o que não se pode tocar, e é por isso que as pessoas regressam às cidades destruídas. Na Ucrânia já há um grande grupo de artistas, arquitetos, escritores, intelectuais, que registam os sítios, tentam guardar as cinzas do que havia, bem como fazer um registo dos crimes. É uma tarefa interminável, mas não devemos pensar que é impossível. Eu construí o Imperial War Museum em Manchester. Aquela zona tinha sido arrasada por bombardeamentos. Em Dresden, aquele bico do Museu de História Militar é uma triangulação geométrica perfeita da primeira, segunda e terceira bombas que caíram na cidade, nos bombardeamentos aliados de 1945. Queria que as pessoas, quando deixam o edifício lá em cima olhassem e vissem esta bela cidade reconstruída, barroca, rococó, a partir de uma tábua rasa. Quando o edifício estava quase terminado eu estava a olhar para ele a partir da escadaria. Um alemão que lá estava aproximou-se e disse-me: ‘Este edifício é muito perturbador’. E eu disse: ‘Pois é, e deve ser assim. As armas não podem continuar a esconder-se atrás das paredes’».

‘A arquitetura, como a música, tem de ser interpretada’

«Que mensagem nos dá o allegro com brio da Quinta Sinfonia de Beethoven? Que mensagem nos dá uma sonata de Paganini? Há uma mensagem, mas definitivamente não pode ser passada a palavras. Sentimos alguma coisa, sentimos que alguma coisa nos foi contada. Mas não é uma mensagem do tipo: ‘faz isto ou faz aquilo’. A arquitetura é como a música e eu fui músico profissional. Era um virtuoso e toquei com grandes músicos, como Itzhak Perlman, Vladmir Ashkenazy e por aí fora. Como músico, sabes que estás sozinho com o teu instrumento perante uma plateia e com esta coisa tão simples – algumas notas, alguns intervalos, algumas diferenças no som que tocas – comunicas alguma coisa. A arquitetura é muito parecida. Se mostrarem uma pauta a uma pessoa que nada saiba de música, ela só vê uns pontos, uma indicação do tempo a três quartos, alguns símbolos, legato, não sabem o que é isso. Mas se a derem a um maestro ou a um instrumentista, ele consegue ouvir a música mesmo sem precisar de a tocar. Passa-se o mesmo com a arquitetura. O que é uma planta, o que é um edifício? Um monte de riscos, um sistema codificado bidimensional. Mas estas duas linhas negras representam o limite exterior da parede e o limite interior da parede, e o espaço entre os dois tem de ser preenchido. A arquitetura, como a música, tem de ser interpretada, e temos um sistema codificado antigo que vem da arquitetura grega e da arquitetura egípcia, que já tinham excelentes desenhos». 

‘Se a arquitetura não trouxer alegria, não vale a pena construí-la’

«Não vamos varrer os horrores da história dos judeus portugueses para debaixo do tapete. Foi um crime violento. Imaginem que alguém vem ter convosco e vos diz que tudo aquilo em que vocês acreditam é uma farsa. É brutal, futurístico, apocalíptico. O grande filósofo Theodor Adorno disse nos anos 50: ‘Depois do Holocausto não haverá mais poesia’. Estava completamente errado. A poesia de Paul Celan, que transforma a língua alemã noutra coisa, num super-alemão, ou sub-alemão, não sei, cria uma sensação de urgência e de compreensão naqueles que a leem, e transforma-os. Essa história nem sempre agradável tem de estar lá. Mas também tem de ser algo que as pessoas queiram ver, porque ninguém quer ver a fealdade, as pessoas viram a cara. É por isso que temos tanta indiferença em relação à pobreza, à morte, ao crime. As pessoas olham para o outro lado. Acho que a indiferença é uma coisa terrível. Nunca devemos ser violentos, perpetradores, mas também não devemos ser vítimas nem espetadores passivos. Alguns edifícios podem trazer desconforto, talvez desassossego seja a palavra mais adequada. Mas a verdade é que a arquitetura tem de ser algo que nos traz alegria. De outro modo não vale a pena construí-la, não vale a pena lembrá-la, não vale a pena olhar para ela. Tem de elevar o espírito. Uma parte da arquitetura é a memória, e a outra é o cuidado, tem de haver um profundo cuidado para fazer um bom edifício. Mies van der Rohe foi um bocadinho louco ao dizer: ‘Deus está nos detalhes’, porque Deus está em todo o lado».

‘O desenho é o caminho sagrado para a arquitetura’

«Sigam o coração. Não acreditem em tudo o que vos disserem, não acreditem na propaganda, não acreditem naquilo que toda a gente diz que está certo. E façam alguma coisa de que gostem realmente. Porque aí de certeza que não falham. Durante muitos anos não tive emprego. E a minha mulher foi uma santa, porque me apoiou sempre. Nunca seria o que sou sem ela. Durante muitos anos não tive emprego, não porque fosse incapaz de trabalhar, mas porque não encontrava nada que fosse adequado à minha formação como arquiteto. Tentei trabalhar para arquitetos famosos, vencedores do prémio Pritzker, e saía ao fim de dois, três dias. E era muito bem pago. Mas aquilo não servia para mim. Continuei a perseguir a arquitetura através do desenho, esse foi o meu caminho. Acredito que o desenho é o caminho sagrado para a arquitetura. É bem sabido que para os mestres da Grécia, do Renascimento e do Barroco o desenho é a base da arquitetura. Até Heidegger, esse filósofo nazi, mas ainda assim um grande filósofo, diz que a língua original é gráfica, o que se aproxima da ideia de Derrida. A minha sugestão aos jovens arquitetos seria: persigam o que é imortal, o que nunca morre. Não é uma questão de arranjar um emprego. Querem um conselho? Aqui fica um conselho que não é meu, é do rabi Nachman, um antigo rabi de Bratislava: ‘Deves fazer sempre o que queres. Porque o pior que te pode acontecer é não teres trabalho. E o pior que te pode acontecer se não tiveres trabalho é seres pobre. E o pior que te pode acontecer se fores pobre é teres fome. E o pior que te pode acontecer se tiveres fome é morreres. Mas toda a gente morre, de qualquer maneira’».

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