Economia

Juros. Subida é oficial e crédito à habitação dispara já este mês

Numa análise feita para o i, as prestações mensais podem subir entre os 30 e os 60 euros, consoante o valor da habitação. Ao final de um ano estamos a falar de acréscimos que poderão ultrapassar os 732 euros.


​O cenário mais pessimista veio a concretizar-se, como já tinha sido antecipado pelo i. O Banco Central Europeu (BCE) aumentou as taxas de juro em 50 pontos base, acima dos 25 pontos base que tinha indicado na reunião anterior. Trata-se da primeira subida em 11 anos e, de acordo com a entidade liderada por Christine Lagarde, é uma resposta à aceleração da inflação: “O conselho do BCE decidiu proceder a um aumento de 50 pontos base das três taxas de juro diretoras do BCE e aprovou o Instrumento de Proteção da Transmissão (IPT)”. O banco central acrescenta que “considerou apropriado dar um primeiro passo maior, na sua trajetória de normalização das taxas de juro diretoras”. E quem sai penalizado é quem já tem créditos, especialmente os de habitação, e quem estiver a pensar em recorrer a um empréstimo. 

Numa simulação feita para o i do simulador ComparaJá.pt, para um empréstimo a pagar em 33 anos para uma habitação de 186 mil euros, em cerca de um ano prestações sobem cerca de 40 euros mensais, o que se traduz num gasto de quase 500 euros a mais por ano. Já para uma habitação de menor valor (125 mil euros) e para o mesmo período temporal, o aumento ronda os 30 euros mensais, ou seja, no final do ano terá gasto mais 360 euros. No entanto, se estivermos a falar de um imóvel de valor mais elevado (275 mil euros), a pagar durante os mesmos 33 anos, o aumento mensal é de aproximadamente de 60 euros, uma diferença que ao fim de 12 anos ronda os 732 euros (ver simulações ao lado).

É certo que, segundo a plataforma gratuita, as taxas médias de juro têm vindo a aumentar, “sendo que os números estão a crescer de forma significativa desde o início do ano”. E deixa um alerta: “É importante dar a nota de que os juros irão aumentar 0,5% em apenas 5 meses, as taxas de juro médias voltaram a ultrapassar o 1%, algo que não acontecia desde julho de 2020, ainda assim, a procura pelo crédito habitação não tem diminuído, sendo que em março de 2022 foi atingido o valor máximo de euros disponibilizados pelas instituições bancárias nos últimos cinco anos: 1 691 milhões de euros”, considerando que “os valores que se começaram a ter em conta são históricos e ultrapassaram as previsões calculadas pelo Banco de Portugal”.

Expectável mas com impacto O aumento da inflação e a desvalorização do euro face ao dólar já tinham levado os analistas contactados pelo i a reconhecer que a subida dos juros seria mais drástica, com as carteiras dos portugueses a saírem penalizados por este aumento.

Luís Alves, analista financeiro do Banco Carregosa, chamou a atenção para o facto que, tendo em conta que em Portugal a grande maioria dos empréstimos tem taxa de juro variável, “será de esperar que uma subida das taxas diretoras pelo BCE resulte numa deterioração nas condições de crédito”.

E lembra que a “inflação elevada e persistente já tem tido um efeito significativo na deterioração do rendimento real das famílias, com a subida de salários a não acompanhar os aumentos de custos para os consumidores”, referindo que “esta dinâmica terá efeitos indiretos no comportamento dos consumidores, promovendo uma redução da procura agregada que pode alimentar os receios de uma recessão. “Os consumidores com empréstimos de taxa variável podem ter ainda mais dificuldade para pagar essas dívidas, à medida que as taxas de juro de referência vão subindo”, acrescentou. Um cenário que se deverá repetir nas empresas. 

Também Ricardo Evangelista, diretor executivo da ActivTrades Europe, já tinha admitido que esta subida iria ter um impacto nas taxas Euribor, que também subirão, o que tornará o crédito mais caro, aumentando por exemplo o valor das prestações mensais das hipotecas. A situação também terá reflexos em quem está a pensar em pedir empréstimo. “Com o crédito mais caro, muitos consumidores sentir-se-ão menos confiantes e hesitarão mais no momento da decisão”, diz.

Já ontem voltou a reagir: “Há muito que se esperava que o Banco Central Europeu virasse a página da política monetária, não obstante as palavras de Lagarde em janeiro, quando indicou que a instituição que lidera tinha todos os motivos para não enveredar pelo caminho do FED no sentido de corrigir a sua política monetária de forma mais agressiva. Ora, já na altura tal caiu muito mal no mercado, porque era óbvio que existia uma divergência entre o que Lagarde disse e o que os indicadores económicos obrigavam a fazer, nomeadamente no que diz respeito à inflação, com o aumento de preços a relevarem um cenário que ao contrário das opiniões da presidente do BCE, tal como tinha acontecido com Powell o ano passado, evidenciava um problema persistente e não temporário”.

Já Nuno Melo, analista da XTB, acredita que “é normal que já este ano, mas sobretudo a partir do próximo ano, vejamos uma quebra nos pedidos de crédito, quer por parte das famílias, quer das empresas”. Para evitar as oscilações das taxas de juro, aconselha a optar por um crédito com taxa fixa, embora alerte que, por enquanto, “esta opção ainda implica pagar mais do que nos empréstimos com taxa variável”.

João Melo, da plataforma ComparaJá.pt, ainda assim, admite que os números surpreendem. “Uma diferença de quase o dobro pode ter consequências importantes no crédito. Ainda mais relevante é o facto de este número poder ser interpretado como uma medida quase drástica numa conjetura algo complicada”.

Alternativas Para o responsável, “tendo em conta que vivemos um momento bastante atribulado e muito pouco certo no que ao mercado financeiro diz respeito, os cuidados a ter nas nossas finanças têm de ser redobrados e é, por isso, aconselhável que adotemos algumas estratégias relativamente ao crédito habitação”. E face ao cenário aconselha a simular o crédito que foi contratado no momento em que o imóvel foi adquirido visto que as condições contratadas na altura podem ser diferentes do que o mercado disponibiliza atualmente. Ou, em alternativa, aconselha a fazer uma transferência de crédito à habitação. “Apesar de esta ser uma solução algo desconhecida, a verdade é que renegociar um crédito com a atual entidade bancária ou transferi-lo para outra acaba por resultar, na maior parte dos casos, na poupança de centenas de euros”, diz ao i.

 

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