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Luanda já não é do MPLA, mas o país ainda é

João Lourenço foi reeleito Presidente de Angola, mas o partido de Adalberto Costa Júnior não acredita no resultado das eleições. Em Luanda, a UNITA conseguiu uma vitória estrondosa.

Luanda já não é do MPLA, mas o país ainda é

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Uma sondagem à boca das urnas e a divulgação de atas de assembleias de voto fizeram a UNITA acreditar que tinha ganho as eleições em Angola, e, por isso, cantou vitória. Na quarta-feira, dia das eleições, depois das 20 horas, elementos afetos ao partido do Galo Negro começaram a colocar nas redes sociais os resultados de muitas assembleias de voto, maioritariamente de Luanda, e no estrangeiro – que terá muito pouca importância, pois votaram poucos angolanos da diáspora – que davam uma vitória clara à UNITA. 

E aqui entra um dado curioso: a Comissão Nacional Eleitoral (CNE), através de do seu porta-voz, afirmou, depois do encerramento das assembleias de voto, que não havia previsão para a divulgação dos resultados – muito boa gente dava como certo que só hoje, sexta-feira, se saberia quem ganhou. Mas eis que, perante a divulgação nas redes sociais de atas de assembleia favoráveis à UNITA, a CNE decidiu publicar na madrugada de quinta-feira os primeiros resultados provisórios que já davam uma clara vitória ao partido do poder, dando assim azo a teorias de conspiração. 

Em Lisboa, por exemplo, chegaram a haver confrontos entre simpatizantes da UNITA e a Polícia, porque os homens do Galo Negro terão protestado de forma violenta contra os supostos responsáveis de uma alegada troca de urnas durante a noite. Vídeos que circulam na internet dão conta disso mesmo. Curiosamente, na quarta-feira, nas redes sociais apareceram os números da votação do Porto e Londres, por exemplo, mas os da capital portuguesa nem vê-los. Acontece que todas as assembleias de voto têm a obrigação de fixar publicamente as tais atas das votações. 

João Soares, antigo ministro, ex-presidente da Câmara de Lisboa e simpatizante assumido da UNITA, é um dos que acredita que se está perante uma golpada, tendo escrito no Facebook: “A dita CNE de Angola está a traçar na TPA que estou a ver agora o quadro da fraude. Quer CNE quer TPA são ferramentas controladas pelo MPLA. O retrato da vigarice fraudulenta com que o MPLA quer castigar Angola e os angolanos por mais cinco anos. Os ladrões cleptocratas, do MPLA têm revelado o seu imenso talento a roubar riqueza pública. Mas também votos. Não podemos engolir esta vergonha que humilha os angolanos, e condena Angola a mais do mesmo”. 

Umas horas antes, já tinha sido corrosivo: “A UNITA ganhou em toda Angola, todas as 18 províncias sem excepção. Adalberto Costa Júnior venceu largamente as eleições também presidenciais. Sem margem para qualquer dúvida. A aparente ‘concessão’ de admitir a derrota em Luanda, é parte da estratégia para credibilizar a fraude”. Como facilmente se percebe, o antigo governante português não é nada meigo com o partido do poder angolano e diverge completamente do presidente do seu partido, o PS, já que Carlos César está em Angola como observador e foi taxativo: “Creio que se pode dizer que Angola tem hoje, em matéria de direito eleitoral, um normativo muito semelhante àquele que existe para as eleições para o quadro dos países europeus. Foram tomados muitos cuidados, designadamente em áreas como os do recenseamento, como nos processos de apuramento”, acreditando na credibilidade dos resultados apresentados.

Derrota estrondosa em Luanda e vitória no país E o que dizem os 97,3% dos resultados apurados? Dizem que o partido de Adalberto Costa Júnior esmagou em Luanda, onde está próximo dos 63%, e venceu na província do Zaire e de Cabinda – esta era dada como ganha pela MPLA quando estavam contabilizados pouco mais de 45% – mas perde no resto do país. Depois das três províncias da UNITA, o mapa é completamente vermelho, as cores do partido de João Lourenço.

A UNITA, como já se percebeu, não se conforma com os resultados e entende que é preciso confirmar todas as atas das assembleias de voto, admitindo contestar os resultados. Esperemos pelos próximos episódios.

De dez em dez... O MPLA, que governa o país há 47 anos, tem vindo a perder votantes de eleição em eleição. Se em 2012 conseguiu 71,84% dos votos, em 2017 ficou-se pelos 61,05% e agora está nos 51,07%. Significa isto que a cada acto eleitoral o MPLA perde 10% dos seus votantes. Os responsáveis do partido atribuem à forte abstenção da capital o mau resultado em Luanda, e acreditam que a maioria absoluta lhes permitirá fazer as reformas que anunciaram na campanha eleitoral. A abstenção a nível nacional bateu recordes, tendo atingido os 54%. Algo nunca visto em Angola.
Hoje, em Luanda, começam as cerimónias fúnebres oficiais de José Eduardo dos Santos, sendo esperados vários chefes de Estado, em especial no domingo, altura em que o corpo do antigo Presidente angolano será sepultado num sarcófago. Segundo alguns jornais angolanos, estão destacados cerca de 80 mil agentes de autoridade para fiscalizarem eventuais manifestações de desagrado pelas eleições, além de zelarem pela segurança das exéquias de José Eduardo dos Santos.

Redes sociais e a revolta Na quinta-feira, as redes sociais foram inundadas de vídeos que davam conta de confrontos entre populares e as forças de segurança, atribuindo-se, inicialmente, ao descontentamento de simpatizantes da UNITA. Nada mais errado. De facto houve confrontos, mas de simpatizantes do APN que queriam receber o dinheiro de terem sido delegados de lista nas assembleias de voto. O responsável financeiro do partido fugiu do local, com medo de ser linchado. Os descontentes deverão receber o dinheiro no sábado, segundo disse ao i fonte do partido.

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