Entrevista ao coronel Carlos Mendes Dias

"Não aceito que me passem mensagens"

A guerra na Ucrânia tornou-o um rosto conhecido dos portugueses. Na Bósnia, onde foi observador militar, assistiu às maiores atrocidades.


Tornou-se conhecido do grande público com os seus comentários televisivos, onde se tem destacado na CNN-Portugal. Para muitos é uma voz sensata, para outros será a voz do ocidente. Diz que é, acima de tudo, independente e que recebe informação díspar, mas que só utiliza aquela que acha verdadeira.

Na primeira parte de uma longa entrevista, que se prolongou para lá das três horas, o coronel Mendes Dias conta-nos o horror que foi a sua missão na Bósnia, nos anos de 94-95, e de como voltaria a repetir a experiência. No fim desta primeira parte da entrevista, explica um pouco do que o separa dos majores generais Carlos Branco e Agostinho Costa.  

Como chega a militar? 

Nasci na antiga Lourenço Marques, atual Maputo. Moçambique e, digamos, que aquele gosto por ser militar vem, tão simplesmente, de ver os militares marchar na rua. Tão simples quanto isso. Depois é que nós começamos a complicar. E quando vim para Portugal continental, vim em setembro de 74. Portanto, tudo numa época onde havia muita turbulência.

Mas tinha que idade nessa altura?

Já tinha nove anos, nasci em 1965. Vim para cá, e fiz a quarta classe. Depois, ficámos sem nada. A família ficou sem nada, o meu pai ainda lá ficou um ano, mas, como sabe, roubaram os caixotes todos aqui no Porto de Lisboa que vinham de Moçambique.

O seu pai fazia o quê?

Era civil, chefe de armazém na sucursal do que era conhecido como Casão, as oficinas gerais de fardamento e equipamento.

Ligadas à tropa. 

Sim, mas ele era funcionário civil. 

Diz que vos roubaram todas as malas que trouxeram.

Roubaram tudo. Tudo, tudo, os caixotes, mas não foi só a nós. Quase tudo o que vinha de navio foi roubado. 

Estamos a falar de setembro de 74. Já Samora Machel fazia longos discursos de horas intermináveis.

Sim, estamos a falar daquela fase em que víamos as Forças Armadas da Frelimo atrás dos polícias portugueses, a bater-lhes com um chicote, pois os polícias portugueses estavam desarmados. A nossa tropa, espojada nas esquinas, ao lado dos militares da FRELIMO, não fazia nada. Estavam na posição de descansar à vontade. Havia sempre um elemento da nossa tropa e um elemento da Frelimo.

Lembro-me de ir apanhar o antigo Jumbo, um Boeing 747, que era para sair às 19h00, mas só saiu à meia-noite porque tinha um pneu furado. Uma das últimas imagens que retive foi, por exemplo, ver ao longe um carro explodir. Um casal queria sair do carro por causa da fila interminável e estavam militares da FRELIMO à volta do carro com as Kalashnikov. Como eles queriam sair e os soldados não os deixavam, estes colocaram uma mecha no depósito de combustível e o carro explodiu. É uma das últimas imagens que trouxe de Moçambique. Isto era a situação da conflitualidade.

Lembro-me também de sair da escola com o meu irmão, dois anos mais novo, que é oficial de Marinha, e as professoras faziam-nos sair dois a dois porque tinham ouvido tiros. Faziam-nos sair às parelhas, aquele ambiente noturno de medo, de dormirmos debaixo da cama, por exemplo, talvez me tenha marcado de alguma forma.

Dormiam debaixo da cama?

Sim, na fase final. Os indivíduos que tinham caçadeiras passavam a vida nas varandas a controlar as movimentações por questões de segurança. 

A imagem que o marcou mais foi o carro a explodir?

Não, o que ficou por cá na alma foi ter chegado a Portugal e ver a minha mãe com os três filhos, eu o mais velho, e não nos deixarem sair do avião porque não havia condições de segurança para os chamados, na altura, retornados. Em boa verdade, não era retornado porque nasci lá, e as pessoas aqui no aeroporto não nos deixavam sair e atiravam-nos pedras da calçada. E lembro-me da minha mãe a tentar proteger os três filhos, com nada, praticamente nada. E nós estivemos muito tempo no avião até poder sair para depois levar com pedradas.

Talvez seja esse o momento mais marcante, além do primeiro ano andar praticamente todos os dias à porrada na escola, porque era tido como retornado. Vivi esses momentos porque os retornados vieram ocupar determinado espaço. Estamos a falar da altura dos piquetes das greves, dos pontos de controlo por civis e por militares. Das prisões mais ou menos aleatórias, das revistas aos carros por dá cá aquela palha. Estamos a falar do Verão Quente. 

Quando acabei a quarta classe pedi aos meus pais para ir para o Colégio Militar, mas não tinham posses para isso. Entretanto, depois do liceu, acabei por entrar no Instituto Superior Técnico em Engenharia Mecânica, mas ao mesmo tempo tinha aquele fascínio por ser militar, porque tinha a ideia e ainda hoje sou um bocadinho idealista, embora a realidade tenha corrompido isto de longe, de querer ser diferente, de me sentir diferente, de dar algum conteúdo mais àquilo que eu poderia fazer.

Ao mesmo tempo que entrei no Instituto Superior Técnico concorri à Academia da Força Aérea, para ser piloto. Fui primeiro no grupo dos psicotécnicos, mas descobriram que que eu tinha 0,25, numa vista, e acabei por ser excluído. Entretanto, entrei na Academia Militar em setembro de 1983, tinha 18 anos.

Essa ideia de ir para a tropa tem a ver com a tal imagem de Moçambique? 

Exatamente. Tem a ver com o fascínio que eu sentia. Porque se cultivava coisas que, normalmente, devemos todos cultivar, mas que deveria ser um pouco exacerbado nas instituições desta tipologia. 

O que devia ser exacerbado.

Determinadas referências, determinados valores, determinada forma de estar, digamos virtudes como a lealdade, como a honestidade, como a discrição. Aquela coisa que não sabíamos bem o que era da pátria e da nação. Porque naquele tempo, mesmo em Moçambique, antes de nos sentarmos na escola primária, cantávamos o hino nacional todos os dias. 

Em Moçambique tinha colegas negros?

Tinha, tinha. Não havia em Lourenço Marques aquilo que nós conhecíamos na África do Sul como o apartheid. Havia colegas de cor, de outros países, até asiáticos, indianos, por exemplo. Não havia autocarros para uns, autocarros para outros, não havia isso. Mesmo as pessoas que trabalhavam como criados, serventes, etc., não era a relação do chicote do século XV, do século XVI. 

Mas existiu ainda durante o século XX.

Pode ter existido, mas eu não vi. Estive sempre em Lourenço Marques, atual Maputo, e vim novo para Portugal. Agora pode ser que tenha acontecido nas zonas mais a norte e Centro, onde apenas regressei em 2007, quando chefiei um projeto...

Já lá vamos. Então entrou na tropa com o objetivo de...

Ser oficial do exército e tentar ser diferente, não é melhor nem pior. Às vezes as pessoas misturam estas coisas, nem é melhor, nem pior, é diferente. Nós olhamos para as pessoas fardadas, hoje até olhamos para o segurança que está fardado, ou para as pessoas da Cruz Vermelha que trazem uma boina. Fiz as provas todas, físicas, médicas, essas coisas todas e sei que éramos mais de mil candidatos para 150 vagas.

A última prova era equivalente à recruta na altura, sete semanas. Era um curso geral de milicianos, onde só chegámos pouco mais de 200. E depois desses 200 e tal, só cerca de 150 é que entraram. Os outros, a maior parte, até passou também, mas não foram avaliados de forma tão boa como aqueles que entraram, digamos, os primeiros 150 tal. Iniciei a vida militar na Academia Militar na Amadora, em 1983. Na altura, na Academia Militar faziam-se dois anos na Amadora.

O facto de não ter estado no Colégio Militar condicionou o seu futuro na carreira? 

Não, não condiciona absolutamente nada. A única vantagem que pode ter é uma maior adaptação à vida militar quando se entra na Academia Militar. Porque, de resto, não tem qualquer tipo de condicionamento. 

Por que só chegou a coronel?

Porque quis, porque a uma semana de muito provavelmente ser indigitado para frequentar o curso de oficial general, requeri para passar à reserva.

Porquê?

Não quero entrar em muitos pormenores, mas digo-lhe que foi por ter um desencanto quase visceral com a vida militar em si, com os valores que eu pensava que devíamos defender. E vi e percebi, pode não ser assim, mas percebi que esses valores não estavam a ser defendidos, por desilusão com muitos camaradas meus mais antigos, mais modernos. Claro que se tudo tivesse corrido bem, era indigitado, fazia o curso, era oficial general, um oficial general praticamente sem tropa. Mas não quero entrar em pormenores sobre as razões da minha saída. São de natureza intangível, minhas.

Não há razões nenhumas tangíveis, de falta de cursos. Repare que para além de ter todos os cursos das Forças Armadas que era preciso fazer, ainda tenho o curso de Defesa Nacional, sou doutorado em Relações Internacionais, sou mestre em Estratégia, sou pós graduado em Estudos da Paz e da Guerra. Tenho duas missões internacionais, uma na Bósnia, durante um ano, em 94-95, outra em Moçambique, durante o período de 2007-2008. O meu desencanto tem a ver um pouco com a forma como eu  penso que devia ser interpretado pelas pessoas do exército, e muito particularmente pela oficialidade do Exército. 

O que é isso da oficialidade do exército?

São os oficiais. O meu desencanto era com os oficiais. Há muitos condicionamentos. Mas há coisas do domínio, para mim, comportamental, desde o exercício do dever de tutela até à postura. É claro que nós não sabemos tudo, nem sabemos o que se passa verdadeiramente nos gabinetes, mas talvez eu penso ter faltado naquelas pessoas que eu vi, interpretei e posso estar errado. Na eventualidade de alguma falta de coragem moral, muitas vezes. E sabe também que à medida que crescemos nos postos, vamos tendo acesso a informação e a reuniões que, obviamente, nos postos mais baixos não temos. São razões  deste tipo de natureza. Não são razões por falta de cursos, por idade.

Sou um indivíduo novo, repare que estou reformado desde dezembro do último ano e acabei de fazer 57 anos. Eu passo à reserva com 51 anos, fora da efetividade de serviço. Portanto, são razões deste tipo. Depois há um conjunto de razões como a falta de recursos, desde os humanos ao tipo de recursos. Mas não são as mais importantes, as mais importantes são razões que têm a ver um pouco, eu vou chamar-lhe assim, como a minha coluna vertebral e não a dos outros. Nem estou, digamos, a fazer qualquer juízo de valor sobre a coluna vertebral dos outros. São coisas que vi interpretar que se fosse eu não interpretava assim considerando aqueles valores militares nos quais eu fui educado e nos quais  ainda hoje me revejo. 

Falando um pouco do seu serviço militar...

Formei-me, fui para a arma de artilharia, para Vendas Novas. Como aspirante fui promovido a alferes e fiz a carreira normal, estive 12 anos seguidos na Escola Prática de Artilharia, por opção porque nada me ligava ao Alentejo, como é óbvio.

Gostava da artilharia de campanha, adaptei-te bem à unidade, pois podia ter vindo para Cascais, por exemplo, na altura para o Centro de Instrução de Artilharia Antiaérea de Cascais, hoje a Cidadela ou para a artilharia de costa, em Oeiras, onde, aliás, fui o primeiro classificado nas duas vertentes, relativamente à artilharia de campanha fui segundo, mas depois até ao posto de capitão passei, digamos, a vida muito, muito, muito ligado particularmente à área da topografia e aquisição de objetivos e área de instrução.

A topografia fornecia o controle às unidades, o controlo horizontal, vertical e direcional, isto é, coordenadas às unidades onde ficam, onde vão fazer tiro, os rumos... Estive muito ligado a essa área e foi por isso que fui fazer o curso aos Estados Unidos. E muito ligado à área de instrução.

Como vai fazer o curso aos Estados Unidos?

Na altura, esse curso era da responsabilidades da direção da arma de artilharia, que estava a tentar essa situação e depois dava conta ao Exército da necessidade. E esse curso saía, digamos assim, às ordens de serviço. E as pessoas ofereciam-se e faziam uma série de testes e era selecionado o indivíduo que era para ir naquele caso. Naquele ano, julgo, foi 91. Fui eu selecionado e fui fazer o curso que durava cerca de dois meses a dois meses e meio. 

E esse curso consistia em quê? 

Numa primeira fase era topografia, exatamente aquela que era a minha área e tinha uma segunda parte de radares, pois ainda não havia radares na artilharia de campanha à altura. E onde se dava também no quadro da artilharia, muita da doutrina do ex-Pacto de Varsóvia e da doutrina soviética.

Nesse curso foi distinguido. 

No final, havia pessoas pertencentes ao Exército dos Estados Unidos, pessoas pertencentes a outros exércitos estrangeiros, no qual se incluía o português. Nesse curso fui o primeiro classificado de todos eles, quer nos americanos, quer dos outros. Penso que a minha nota final foi de 98,72% e com indicação possível de voltar, é claro que nunca mais lá voltei. 

Sai desse curso e volta à escola Prática de Artilharia. Onde forma a primeira companhia...

No total, devo ter formado mais de 3800 pessoas. Mas um dos marcos que ficou – à altura já comandava a  segunda bateria de instrução do Grupo de Instrução da Escola Prática de Artilharia – foi a formação do primeiro pelotão feminino incorporado na artilharia portuguesa. Esse pelotão foi incorporado no dia 17 de agosto de 1992 e foi na bateria que eu comandava e, portanto, é um marco de natureza histórica, digamos assim.

Mas as mulheres também foram disparar canhões.

Não, fizeram uma recruta geral igual aos homens, mas depois eram destinadas apenas a duas especialidades: escriturárias e socorristas.  

Mas porquê?

Porque os psicotécnicos assim o ditavam na altura. 

Mas hoje já há mulheres na Artilharia?

Penso que em 2016 já havia entre dez a 14% de mulheres. E na Artilharia há mulheres desde comandante de bateria, até observadoras avançadas, a praças serem apontadoras de obuses, estarem nos canhões, etc, etc. Isso está generalizado. Não há qualquer tipo de dificuldade para as senhoras.

Mas no ano em que lançou o primeiro curso as mulheres só podiam ir para a secretaria ou serem socorristas.

No arranque eram só praças. Foi a primeira vez que foram incorporados senhoras na artilharia portuguesa, que depois de fazerem a recruta, exatamente igual aos homens, depois foram destinados a socorristas e escriturárias. 

Outro marco da sua carreira foi a ida para a Bósnia.

Estávamos em 1994 e havia uma força estrangeira, a United Nations Protection Force e havia lugar para observador militar. Tinha aquele espírito aventureiro, queria conhecer-me um bocadinho melhor para me encher de conteúdo. Uma coisa é ver sangue na televisão, outra coisa é ver sangue ao vivo. Ofereci-me em fevereiro de 94 para essa missão de um ano, portanto. Os observadores militares tinham de ter posto mínimo capitão. E havia outra cadeia que era a dos batalhões que estavam no terreno. Nessa altura não tínhamos nenhuma força portuguesa na Bósnia. O primeiro batalhão que vai para a Bósnia portuguesa é em 96, depois de firmado os acordos de Dayton. 

Esteve lá de 94 a 95. 

Em setembro estava de serviço, de oficial de dia e até já esquecido que me tinha oferecido, quando telefona o comandante da unidade a dizer-me que na sexta a seguir embarcaria para a Bósnia. Porque uma série de pessoas tinha desistido, outras não podiam ir e avancei eu. Fui muito bem e não estou arrependido de ter ido. E aí na Bósnia é outro marco da minha carreira, porque vivi situações que só ali podia viver, fazer troca de prisioneiros, que não era a nossa missão primordial, mas fizemos, também recolhemos mortos, os cuidados que temos de ter na observação militar, o saber, identificar o material de guerra usado. O facto de ter estado preso na Bósnia...

Esteve preso como?

Durante 24 horas, depois fui declarado persona non grata porque a fação que dominava o sítio onde eu estava no setor militar – vou-lhe chamar corno noroeste da Bósnia Herzegovina – assim o entendeu, pois eu como oficial de artilharia relatava muito quando faziam tiro, onde estavam, que material usavam, etc. Por causa desses relatórios alegaram que eu era espião. E fui preso juntamente com um tenente coronel russo.

Naquelas equipas não havia postos, só no comando. As pessoas eram nomeadas pela competência. Era capitão e comandava majores e tenentes coronéis. Fui interrogado durante duas horas e meia pelas forças da Bósnia oeste, que era uma autointitulada República que nunca foi reconhecida por ninguém.

Como é que eles o foram prender? 

Estava a fazer uma patrulha com o tenente coronel russo, íamos de carro, com os sistemas de segurança que permitiam averiguar  a identidade das tropas no terreno. É um sistema que permite a autenticação de segurança. O tenente coronel russo,Aleksander Kuznetsov,  é que ía a conduzir, quando a determinada altura um carro cruza-se à frente do nosso e outro faz o mesmo mas a trás, sob ameaça de armas, etc. 

Carros militares?

Um carro militar e outro civil. Digamos que o equivalente ao que nós podemos chamar de secretas. E engavetaram-nos, fomos feitos presos, numa cela em que só cabia praticamente o tenente coronel com os seus dois metros de altura e mais de 100 quilos, mas estivemos ali 24 horas. É claro que roubaram-nos tudo, o carro, a antena, material de transmissões, o aparelho de autentificação de segurança, as cartas topográficas, etc.

Ainda aleguei imunidade diplomática, mas eles disseram-me uma série de impropérios e ameaçaram-me que ou respondia bem ou levava na boca, lembro-me de terem dito isto. Claro que todas as pessoas ficaram preocupadas, era o indivíduo com mais tempo na zona. Devo dizer que fui o único observador militar que nunca mudei de zona. Normalmente, o que acontece? A missão é de um ano, os primeiros seis meses são feitos numa zona com muita atividade, depois roda, até porque se deixa de ser imparcial, e roda-se para outras zonas mais light e vice-versa.

No meu caso, fui o único dos 700 e tal que não rodou, por questões operacionais. Fui chamado para ser interrogado, onde estive duas horas e meia a ser interrogado – está publicado num livro de há dois anos, sobre os observadores militares – e o russo foi interrogado cinco minutos. E a razão foi porque eu pertencia à NATO e ele não. Vivi muitas situações difíceis. 

Mas foi libertado como?

Passadas 24 horas é claro que  os comandantes de setor, mesmo o comandante da observação avançada em Zagreb,  lá terão feitas as suas diligências e o que é importante é que 24 horas depois nos libertaram, mas só eu sou declarado persona non grata. Isto é, teve que ir o comandante buscar-me porque eles não conseguiam garantir a minha segurança, porque aquele setor estava dividido por uma linha de confrontação ao centro.

Entre?

Por esta República da Bósnia Oeste, na altura chamado Quinto Corpo Muçulmano. Essa era uma linha de confrontação interna e depois à volta do setor, as fronteiras posteriores ainda eram, digamos assim, a República Sérvia da Krajina, de um lado, aliás, norte e oeste, no leste e no sul eram os sérvios da Bósnia e a norte e um bocadinho do nordeste os croatas. Portanto, foi o setor onde estive. Está a ver a complexidade que aquilo era e é. 

É considerado persona non grata, mas mantém-se no mesmo sítio.

Sou retirado para a parte sul. Eu estava na área de responsabilidade da autointitulada República da Bósnia Oeste e passei para a área de responsabilidade do Quinto Corpo Muçulmano, para uma área muçulmana onde, aliás, tinha estado primeiro. Porque esse Quinto Corpo Muçulmano foi derrotado a norte e digamos que foi pressionado por estas forças da Bósnia Oeste, particularmente três brigadas, até quase meio do setor mediático, e ali estabeleceu-se a linha de contacto.

Eu tinha estado a trabalhar primeiro com o Quinto Corpo Muçulmano que dominava a bolsa de Bihac toda, depois por efeitos de guerra,  o inimigo começou com o recuo do corpo muçulmano da zona norte do setor até metade e estabeleceu-se na zona norte. Depois fui preso e fui de novo para sul por questões de segurança.

Estou um pouco perdido e acredito que quem nos vá ler ainda esteja mais. Pode explicar melhor como era a guerra no terreno?

Na altura era assim. A Bósnia-Herzegovina tinha um sem número de forças diferentes. Porque repare bem, como é que começou aquela situação. A antiga Jugoslávia do marechal Tito, agregava uma série de coisas, mas liderava a Jugoslávia com mão de ferro. Com a morte de Tito começou a desagregação jugoslava. E houve determinadas áreas, por exemplo a Eslovénia, a Croácia, que se declararam na altura independentes e começaram a ser reconhecidos pela comunidade internacional. Quando isso se deu, o que diz o Presidente sérvio, Milosevic. ‘Eu também quero ser independente’, mas para ser independente tem que ter algum terreno na Croácia, porque mais de 600 000 sérvios estão na Croácia.

E a partir daqui, digamos, que as potências se foram alinhando, e o que acontece é que a Bósnia Herzegovina era uma das regiões que pertencia à Jugoslávia. E o que é que estava na Bósnia Herzegovina? Estavam sérvios, croatas, muçulmanos. Quem governaria a Bósnia Herzegovina? Tudo isso levou forças de diferentes quadrantes a lutar por um território. Era uma guerra interna. Cada um com o seu território, com fronteiras internas, com o controlo de check points, as suas entidades administrativas ou políticas a exigirem autorizações, etc.

Onde estavam então as tropas internacionais, em que estava inserido? 

O que é que fazia a Missão de Paz da ONU? Para entrar numa força de manutenção de paz no âmbito do capítulo sexto da Carta das Nações Unidas, as partes em conflito têm que estar todas de acordo, manifestaram um acordo em determinada altura. Esta missão entra no final de 92 e tem uma série de coisas para fazer cumprir, nomeadamente tratar de uma zona desmilitarizada. ‘Tu está ali, eu estou aqui. Nos 60 quilómetros entre nós dois não pode haver armas de artilharia, não pode haver unidades militares’. Havia, digamos, o esquadrinhar da carta a dizer esta é a tua área de responsabilidade. E isto estava tudo no mandato de paz.

Em tese, a força só cumpre a sua missão se consegue fazer o que o mandato de paz todo diz. E por isso é que muitas vezes essas missões se tornam eternas, porque é impossível. Esta solução de observação militar monitorizava o cumprimento do mandato, isto é, a zona desmilitarizada. As unidades de artilharia, os carros de combate, etc. têm que estar armazenadas. Há uma lista desse material. Vocês os militares têm que ver onde estão. Permitir, digamos assim, um determinado tipo de troca entre nós, observadores militares, facilitar a vida aos batalhões da ONU que lá estavam e informar sobre a situação militar e formar uma missão secundária sobre o cumprimento ou não das Convenções de Genebra. Os observadores militares tinham que dizer assim não há ataques de nenhum lado, mas havia.

Como observador militar relatava, quer no rádio como depois no relatório diário, que tinha havido tiro de morteiro daquela zona para aquela zona, em violação clara dos acordos. E não posso confundir o impacto de um morteiro com uma granada de mão e é por isso que são todos oficiais, praticamente no posto de capitão, porque os soldados tinham essa dificuldade. Quando nós colocávamos nos relatórios, que era confirmado por um observador militar, era informação fidedigna, da qual o representante especial da ONU para a área, na altura era o senhor Akashia, tinha conhecimento. A nossa missão era fazer esses relatórios fidedignos.

Então foi preso por esses relatórios?

Porque estava a relatar coisas que prejudicavam a fação que me prendeu.  Eu dizia que tipo de material de artilharia estava a fazer tiro, via mais ou menos a elevação com que estava e onde é que aquilo ia cair. E o que acontece às vezes? Essas forças por interceção rádio e por interceção satélite têm conhecimento dos nossos relatórios. Ouvem o que dizemos e relatamos.

Como sabia o que eles disparavam? Estava muito próximo do teatro de guerra?

Sim, claro. Estávamos mesmo na linha da frente. Quando relatava punha exatamente a localização onde estava. Lembro-me na altura, à noite,  de subir uma grua dessas da construção civil – não havia snipers na minha zona, o que era uma vantagem – e passei a noite toda a relatar fogo, de umas peças de 76 milímetros, de origem soviético, a fazer tiro toda a noite e os obuses da artilharia soviética da Bósnia Oeste e eu relatava aquilo ao vivo. 

Então era o Alves dos Santos da guerra?

Era mais ou menos isso [risos].

Mas fazia diretos porquê?

Fazia o rádio diretamente porque assim o quartel general sabia, por exemplo, às três da manhã o que estava a acontecer. Não deixava ficar para o final do dia, quando escrevesse o relatório, porque isso depois deixava de ser oportuno. Porque aquilo era uma clara violação do que estava escrito.

Como é que sabia que tipo de armamento estava a ser usado? 

Além do som, via. Porque nas minhas patrulhas, muito do que relatava era de posições que já estavam localizadas, até por mim, e via até às unidades deslocarem-se. É claro que quem não fosse de artilharia, embora nós tivéssemos formação de identificação de material, tinha mais dificuldade, mas outras vezes não. Porque no tiro também é fácil de ver que tipo de material é, pode não ser o M930 ou o M938 ou o D33, mas sabemos que é artilharia ou morteiro. Sabemos que é carro de combate ou não, porque os tiros são completamente diferentes.

A trajetória é completamente diferente e o som no impacto é completamente diferente. Se ouvir uma granada de morteiro cair faz ‘poc’. Se ouvir a artilharia cair faz ‘bruumm’. E isto ganha-se muito com a experiência também. Se for ao local, vê claramente a diferença do impacto de morteiro, do impacto da artilharia e do impacto de um míssil. Por isso é que quando vou à televisão, é relativamente fácil dizer o que está nas imagens. Se procurar estilhaços até lá vê marcas. 

Mas sai da Bósnia com um louvor. 

Saí da Bósnia com um louvor. Eu e mais 12 camaradas que estávamos no setor de Bihac, num universo de mais de 700 observadores. Vivi momentos muito difíceis nesses tempos e depois. Aprendi a conhecer-me muito melhor. Uma pessoa perde um braço e nós levamo-la com braço ao hospital... Coisas dessa tipologia, ir descer senhoras de cordas que tinham sido violadas e depois enforcadas, fui eu que as desci da corda. Se não fosse eu era outro.

Assistiu a grande atrocidades. Viu pessoas degoladas?

Degoladas não vi, mas vi mortos no terreno que tinham sido empalados. Tive que desempalar um. É um pau colocado pelo ânus acima. Eu, felizmente, por questões fisiológicas, isto não é uma questão de coragem, é uma questão de fisiologia, resistia ao ver essas coisas. Lembro-me de uma vez, de um míssil grad ser lançado – que vimos hoje serem usados na guerra da Ucrânia, eles lançam foguetes múltiplos muito rápidos, 40 foguetes em 20 segundos, são os chamados órgãos de Estaline, os BM-21 – e ter caído perto da zona de onde eu estava, no quartel-general, e fui ver.

Vi uma senhora que perdeu o braço, como sabe quando se perde esses membros os vasos laqueiam, e fui eu que  agarrei no braço, e aí foi um stresse, a senhora já não recuperou o braço. Não havia meios, não havia sangue nos hospitais, não havia nada. Tal e qual como me lembro de ver metade de uma casa, por exemplo, destruída, metade de um prédio de três andares, e uma senhora que depois vi que era a mãe, estava a pedir ajuda por causa do filho.

E lá fui eu, levava uma intérprete atrás, subi essa metade do prédio com os riscos que se imaginam, porque aquilo poderia cair tudo, e aproximei-me muito devagar, e vi que lá estava o bebé, tentei ver se respirava, tinha algum receio de me debruçar, mas agarrei no bebé e, espantoso, ele estava a dormir, ficou a dormir, passei-o à mãe. Foi um milagre autêntico. Assisti a este tipo de coisas e isso tanto nos fragiliza como nos enriquece, mas sobretudo dá-nos exigência.

Depois de ter vivido essas experiências foi a algum psiquiatra?

Não, mas não dormia bem. Estive uma ou duas semanas de férias e regressei ao meu trabalho normal na Escola Prática de Artilharia em Vendas Novas. A minha mulher é que diz que eu dormia muito sobressaltado. Lembro-me de uma vez ter ouvido ou sonhado com um barulho qualquer e mandar-me da cama para baixo, por exemplo. Ainda hoje, de vez em quando, dou uns esticões com a perna, mas já deve ser da idade. A minha senhora diz que praticamente durante seis a oito meses foi sempre assim. 

Depois de ter assistido a tantas atrocidades é natural...

Já disse isto várias vezes, nós somos muito mais do que uma besta, mas também somos uma besta. E queremos fazer de nós aquilo que não somos, é o nosso primeiro erro capital. Isso não existe, é utopia. Já como dizia Maquiavel, nós temos que lidar com aquilo que é e não com aquilo que gostaríamos que fosse. E, às vezes, este mundo das nuvens da Heidi faz-nos cometer erros. Mas julgo que a coisa principal que me deu experiência na Bósnia é a verdadeira dimensão de um problema. Isto é, para nós é tudo um problema. Batemos com o retrovisor do carro, é um problema.

O senhor não chega a casa à hora de jantar, é um problema. Não tem água durante 15 minutos, telefona para o piquete de água. Serão esses os verdadeiros problemas das sociedades? Foi isto que a Bósnia me trouxe. Foi isto que a Bósnia me ensinou, e se fosse hoje tornava a ir com gosto, porque julgo ter-me feito particularmente aí. Não um militar melhor, não um oficial melhor, mas sobretudo uma melhor pessoa. E é por isso que a Bósnia é um marco na minha vida militar.

Mais tarde teve uma experiência em Moçambique, a terra onde nasceu.

Sim, aí já era tenente coronel, no ano de 2007/2008, onde fui dirigir um projeto de Cooperação Técnico Militar. Era um projeto que estava em Nampula, Moçambique, onde ficava a Academia Militar Moçambicana. Estava colocado na Academia Militar aqui e, portanto, fui dirigir esse projeto, que era um projeto conjunto com os outros ramos, tinha a assessoria do pessoal da Força Aérea e da Marinha. E regressei um ano à minha terra. Lembro-me que quando cheguei a Lourenço Marques parecia que nunca de lá tinha saído. A humidade, o calor, o cheiro da terra, o cheiro. Fui para Nampula e para a Academia Militar Marechal Samora Machel...

Mas continua a dizer Lourenço Marques por alguma questão de saudosismo?

Porque é a minha terra, a minha terra é Lourenço Marques.

Não é Maputo?

Nós gostamos de regressar à nossa terra, mesmo quando morrer, a minha terra é Lourenço Marques. É assim que a vejo, sem qualquer tipo de rancor, racismo, ou dessas coisas.

Mas não é uma identificação com o Estado Novo?

Nada disso, até porque o Estado Novo é de 1933, altura em que é concebido, ao contrário do que se pensa, não por Salazar mas pelo general Almeida, num livro que se chama o Estado Novo, 1932. Poucas pessoas sabem isso, mas ele está reeditado por editoras portuguesas.

Quando pisou Maputo o que sentiu? Ficou chocado?

Passei as primeiras 24 horas em Lourenço Marques, atual Maputo, que só se sabia que era Lourenço Marques porque as poucas tampas dos esgotos existentes dizem L. Marques. Mas fui logo ter à minha antiga casa. É talvez o único bairro que mantém nomes portugueses. A Rua de Silves, fica perto do antigo pavilhão que se chamava Malhangalene, e hoje é Estrela Vermelha. Mas não houve nenhum choque. Devo dizer que fui muito bem tratado.

Mas não havia o receio de vos ver como o regresso dos ‘pulas’?

Não, de todo, até tive experiências em contrário. Lembro-me de sair, já em Nampula, das instalações da cooperação militar, passar a praceta e ir à Academia Militar, que está no antigo quartel general de Kaúlza de Arriaga, e pelo meio encontrar duas ou três pessoas que me viram fardado e até tiravam o chapéu, aquele chapéu normal que se usa no desporto e às vezes nas obras, e de me chamarem comandante e perguntarem: ‘Comandante, porque português não volta outra vez’. E a minha resposta diplomática, era de que os ‘portugueses estão cá’. ‘Não, não, como dantes’.

Estou a falar da geração mais antiga, não estou a falar da mais moderna, como é óbvio. Tive experiências deste tipo. Devo dizer que me dei muito bem com os oficiais moçambicanos, ainda hoje me dou, sempre me trataram muito bem, com profundo respeito e consideração, tal e qual como eu a eles. Fiz conferências para mais de 800 pessoas, julgo também ter cumprido a missão. Propuseram mandar para cá uma proposta para eu continuar mais seis meses, mas eu pedi para não o fazerem.

Estive muito tempo longe de casa e estava a penalizar muito o aspeto familiar e, também, vamos lá ver, os cemitérios estão cheios de pessoas insubstituíveis – é aquela ideia que nós temos muito egocêntrica, de sermos todos, em determinada altura, insubstituíveis, o que é uma verdadeira parvoíce e a falta de humildade chega a roçar a vaidade, que é um dos sete pecados mortais. Por qualquer razão. 

O que fazia lá.

Organizava, era o consultor, o assessor, do comandante da Academia Militar Moçambicana, na organização, na administração, no conceber planos curriculares da Academia Militar de Moçambique. 

Sai da tropa, fez muitos livros, e dedica-se a uma empresa ligada à segurança.

Desempenhava também atividades docentes em instituições de ensino superior, em parceria com a Academia Militar ou fora disso, mas saí da vida militar e mantive essa atividade docente no Instituo Politécnico Privado em Aveiro, onde dou licenciaturas e mestrados, e sou consultor militar de uma empresa de segurança e defesa.

Essa empresa de segurança e defesa faz o quê?

É uma empresa facilitadora, que trata de adquirir e manter equipamento militar. Vai aos concursos públicos, quer aqui quer no estrangeiro. Esta empresa, a casa mãe, é francesa, digamos assim. Este braço é o braço português. Para além disso, como sabe, sou comentador nos órgãos de comunicação social, já o fazia, enfim, com uma certa frequência. Mas, hoje em dia, dada a circunstância, faço isso com mais frequência. Acresce dizer que tive um AVC em 2019, junto do dia do Combatente, 9 de abril, fui hospitalizado no Garcia de Orta, em Almada, mas recuperei e pronto. É a figura que se vê, sempre defeituoso e como figura defeituosa [risos]. 

A maioria dos portugueses conhece-o através da televisão, onde ganhou algum destaque. Como se prepara para ir à televisão?

Recolho informação, leio...

Recolhe informação no Google ou tem informação própria?

Tenho uma outra fonte própria. 

De cá ou de fora?

De cá e de fora.

Mas trabalha para serviços secretos?

Nada disso [risos]. O trabalho que faço é para análise da comunicação em geral, mas depois coloco a minha experiência pessoal, os meus conhecimentos técnicos...

É por isso que lhe perguntava há pouco como é que detetava o tipo de material militar usado pelas diferentes forças na Bósnia. Ao ver na televisão a guerra na Ucrânia como consegue distinguir os diferentes tipos de armamento?

Dando o conhecimento técnico, também adquirido nos cursos da tropa, e procurando falar o mais simples possível, tento passar informação de uma forma simples à maioria da população em geral que me está a ver. E também uma componente que é óbvia, e que nós nos esquecemos, porque todos nós temos a ideia que necessitamos de manipular os povos.

Por isso temos que tratar estas questões também do ponto de vista sociológico, antropológico e ter a ideia do que falamos. Vou dar-lhe um exemplo. Os mísseis antissistema radar, AGM88. Veiculou-se que foram utilizados, e eu próprio disse, são lançados de aviões, aeronaves, basicamente tornados britânicos F-16 e F-18 em determinada configuração.

Estamos a falar do ataque à Crimeia.

Em primeira análise, não tendo nem ucranianos nem russos, os países de Leste, aeronaves desta tipologia, quem lança? Será um piloto inglês? Um piloto americano? Um piloto português? Muito me custava aceitar isto, pela circunstância em geral. E levantei essa possibilidade mais tarde avançada por outros. Mas tive a preocupação de ir procurar o que de facto se passa. Para não haver dúvidas, nesta altura, o MiG 29 Fulcrum foi readaptado pelas forças ucranianas e consegue lançar os AGM88. Isto para não levantar mais tipos de suspeições.

É este tipo de preocupações, esse tipo de saber que muitas vezes importa vincular. E ter a ideia que um lado diz que às vezes não acontece nada, o outro lado diz que acontece tudo, e verdadeiramente têm os dois razão, porque vai acontecendo qualquer coisa e se a população não sabe, nem um juízo de valor com um mínimo de informação consegue fazer. 

Mas então vou fazer-lhe uma provocação, e já vi que apesar de ser militar, vai fugir. É que ao assistir na CNN aos seus comentários e aos dos majores generais Carlos Branco e Agostinho Costa fico com a sensação que estou a assistir a um Benfica-Sporting ou a um confronto entre extremos opostos? Como é possível haver opiniões tão díspares

Não vou fugir à questão, ao contrário do que pensa. Díspares quer dizer o quê? Diferenciados? Um nota-se que é vermelho, outro nota-se que é branco?

Exatamente. Ao ouvir o major general Agostinho Costa e o major general Carlos Branco, vejo que fazem, na maioria das vezes, uma leitura totalmente oposta à que faz. Parece que eles são pró russos e que o coronel é pró Ucrânia.

Às vezes, as fontes que são utilizadas também têm interesse em passar determinada mensagem e usam as pessoas que têm acesso aos órgãos de comunicação social. Eu tenho essa consciência e recuso-me a fazer isso. Só passo se for o meu entendimento. 

Digamos que os outros têm informação dos russos e o coronel dos americanos?

Não, eu tenho informações díspares. Ainda mais, não compro branco ou preto, a minha preocupação é informar o povo.

Na próxima edição leia a segunda parte desta entrevista, onde o coronel Mendes Dias fala do olhar que o divide em relação aos majores generais e não só.

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