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Pelé. E um raio negro apagou a Luz!

Está à beira de se cumprirem 60 anos sobre a extraordinária Taça Intercontinental entre Benfica e Santos. Os encarnados saíram do Maracanã com um resultado prometedor, mas o que Pelé fez em Lisboa foi algo que só pode ter sido produto da nossa imaginação. «É preciso dizer que o reconhecimento do futebol português nessa altura era praticamente zero», recorda António Simões, um dos homens presentes nessa aventura.

Pelé. E um raio negro apagou a Luz!

Na passada semana, os sub-20 do Benfica conseguiram aquilo que nunca a equipa principal foi capaz – ganharam a Taça Intercontinental, frente ao Peñarol, precisamente a equipa que venceu os encarnados em 1961, e no mesmo estádio onde o fez – o Centenário de Montevidéu.

E, agora, estamos praticamente a ultrapassar os 60 anos sobre a segunda derrota do Benfica nesse troféu, jogado contra o Santos nos dias 19 de Setembro (Rio de Janeiro) e 11 de Outubro (Lisboa) de 1962. Um dos maiores embates da história do futebol de todos os tempos, diz quem o viu e quem o viveu. António Simões, por exemplo: «O Santos resolveu levar o primeiro jogo para o Maracanã e foi a primeira vez que a maior parte de nós entrou num estádio com 200 mil lugares».

Em seguida, remata: «É preciso não esquecer que o reconhecimento internacional do futebol português era praticamente zero!». Bélla Guttmann, o Feiticeiro das duas Taças dos Campeões, tinha partido para a América do Sul. Assinou pelo Peñarol um contrato de dois anos. Dinheiro gordo: 560 contos de luvas; 56 contos de ordenado mensal e prémios estabelecidos à cabeça – 140 pelo campeonato uruguaio; 210 contos pela Copa Libertadores; 280 contos pela Taça Intercontinental. Continuava a ser o treinador mais bem pago do Mundo!

A final da Copa Libertadores estava aí à porta: opunha o Peñarol ao Santos. O vencedor jogaria a Taça Intercontinental contra o Benfica.

Entretanto, Fernando Riera acabara de chegar a Lisboa.

Fernando Riera: nascido em 1920, em Santiago, no Chile; já tinha passado pelo Belenenses, entre 1954 e 1957, ficando famoso em Portugal por ter sido o treinador que perdeu o campeonato a quatro minutos do final da última jornada ao consentir o empate com o Sporting (2-2) e deixando fugir o título para o Benfica; foi o homem que levou a seleção do Chile ao terceiro lugar no Campeonato do Mundo de 1962; assumiu a responsabilidade de substituir Bélla Guttmann e saiu do Benfica em 1964 com dois títulos de campeão, uma Taça de Portugal e uma final da Taça dos Campeões. 

«Lembro-me perfeitamente de tudo o que se passou», vai desfiando Simões. «No Rio de Janeiro perdemos 2-3. Os dois golos foram do nosso querido Santana e um deles nasceu de um lance meu pela esquerda e de um centro rasteiro e recuado. O ambiente foi extraordinário. Eles tinham uma equipa fabulosa. Não eram só os cinco da frente. Havia o Gilmar na Baliza, um rapaz do meio-campo, o Lima, que era muito bom, e o Zito e o Mauro. Fantásticos!».

Santos: de alguma forma é como se o clube fosse maior do que a cidade, um pequeno subúrbio portuário de São Paulo; de alguma forma é como se Pelé fosse maior do que o clube, pois o Santos será, para sempre, o clube de Pelé.

Santos: há quem diga que é profundamente injusto chamar-lhe o clube-de-um-homem-só, mesmo que este homem-só valha por uns poucos de outros mais bem acompanhados – Edson Arantes do Nascimento, por extenso: Pelé. Foi com Pelé que o Santos se tornou o clube mais bem remunerado do mundo, convidado para jogar um pouco por toda a parte a peso de ouro, transformando-se numa espécie de Harlem Globe-Trotters do futebol. Agora escutem com atenção: Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe.

Soa como um samba.

Acho que nunca fizeram um samba com Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe.

É estranho: os brasileiros fazem samba por tudo e por nada. Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe: não deu um samba, mas só o ritmo encanta. E se só o ritmo encanta, imaginem o futebol...
Formidável futebol, o do Santos. A alvura das suas camisolas brancas ganhou a fama das do Real Madrid. Apesar de tudo, o Real era o Real e o Santos era Pelé. Desculpem aqueles que o acham injusto. O Santos era Pelé e talvez, quanto muito, Pelé e Coutinho, os irmãos gémeos das tabelinhas. 

E esse jeito de circo itinerante do Santos foi a sua sentença de morte. Dificilmente um clube conseguiria granjear tanta fama por todo o Planeta com tão poucos títulos: duas vitórias na Copa Libertadores; duas vitórias na Taça Intercontinental. E nem se trata aqui de Complexo de Poulidor, o trauma do vencido sobre a meta, como viveu Poulidor o eterno segundo de Eddy Merckx. O talento dos seus jogadores era gasto nas deambulações pelo Mundo à procura de dólares e, exceto Pelé, poucos foram os que conseguiram uma carreira consistente na seleção brasileira.

Entretanto, em Lisboa

O Santos passou como um cometa pelo firmamento do futebol: em 1962 era a melhor equipa do Mundo; em 1964 já tinha desaparecido das grandes competições mundiais. Eram apenas os Campeões do Mundo dos Jogos Particulares.

No caminho do Benfica apresentava-se ainda o grande Santos: o cometa no auge do seu brilho!

Santos: Gilmar; Olavo e Dalmo; Zito, Mauro e Calvet; Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe.

O jogo da 1ª mão foi um festival de futebol de ataque e contra-ataque: ora atacava o Santos, ora atacava o Benfica; ora contra-atacava o Santos, ora contra-atacava o Benfica. 

O Benfica tinha gente nova: Rita, o guarda-redes que viera do Sporting da Covilhã; Raul, defesa que viera do Leixões.

Águas faria um ano de tem-te-não-caias: não jogou nenhum dos encontros da Taça Intercontinental. Santana regressou ao onze. E de que maneira!

Germano estava de fora, lesionado: sem Germano, o Benfica não tinha a mesma consistência.

Mais de 170.000 pessoas no Maracanã! «Impressionante! Absolutamente impressionante», vai dizendo António Simões. «Mas estivemos à altura dos acontecimentos». Contra o Benfica não era uma guerra: era um jogo de irmãos. Ganharia quem jogasse melhor. Ganhou o Santos. No Rio de Janeiro, de aflitos: ao golo de Pelé, aos 31 minutos; respondeu Santana, aos 58; aos golos de Coutinho (64m) e Pelé (86m), voltou a responder Santana (87m).

A corda esticara-se ao ponto de rebentar: em Lisboa se decidiria para que lado...

Simões: «Graças ao resultado de lá, criou-se uma tremenda expectativa em Lisboa, como podes imaginar. Foi uma corrida louca aos bilhetes. E foi um desastre. Aplicaram-nos uma derrota dos diabos. Costumo dizer que foi a noite em que o Pelé se zangou. Pela primeira vez na minha vida vi um jogador fazer tabelas com os adversários! Batia a bola contra as pernas do Humberto Fernandes e recebia-a depois para continuar o lance. Fiquei absolutamente pasmado! Ainda hoje quando me perguntam qual o melhor jogador que vi em toda a minha vida, respondo que é o Pelé. Nunca vi ninguém fazer coisas como ele fazia. Fiquei deslumbrado. O Benfica era a melhor equipa da Europa. Mas o Santos era a melhor do mundo».

Na Luz não jogou Mengálvio, lesionado; jogou Lima. Não soou a samba, mas foi mais aterrador ainda.

Agora, um pouco de Nelson Rodrigues, o cronista sem igual, dando razão a Simões: «Não sei se vocês se lembram de um Benfica x Santos, disputado em Lisboa. Seria uma partida como outra qualquer, se a presença de Pelé não a transfigurasse, dando-lhe uma dimensão gigantesca. O que o crioulo fez, não há Homero que o descreva. Ele atravessava os adversários assim como um fantasma atravessa as paredes. Lembro-me de um gol, em que ele, numa penetração fulminante, driblou cinco adversários e entrou com bola e tudo. Dizer que foi bom, foi grande, foi sensacional é pouco. Foi muito além de todos os adjectivos. Sua coxa aparecia forte, crispada, vital como a anca de um cavalo negro. A defesa do Benfica não sabia o que fazer, nem havia o que fazer. Pelé era uma força da natureza. Ele chovia, ventava, trovejava, relampejava. Seus passos eram límpidos, exactos, macios. Ou fazia ou dava gols. A multidão já nem respirava, sentindo que estava vivendo momentos de eternidade».

Pelé, Pelé e mais Pelé!

Há quem diga que Fernando Riera encarou este segundo jogo de uma forma leviana: porque terá deixado que o otimismo tomasse conta da equipa; porque terá considerado que fazer uma marcação dura a Pelé seria um crime lesa-futebol, preferindo deixar o brasileiro mais à solta, mesmo sabendo dos riscos que corria com essa atitude.

Se ambas as acusações são verdadeiras, o que, honestamente, não sei, digo aqui: pela primeira, crucifique-se o homem num madeiro de pinho verde que pouco me importará; pela segunda, louve-se e agradeça-se-lhe – Pelé fez em Lisboa uma das grandes exibições da sua carreira e saltem felizes de contentamento aqueles que tiveram o supremo privilégio de a ela assistirem. Não foi à toa que baptizaram esse Benfica-Santos como «O Maior Desafio de Sempre em Portugal!!!». Com três pontos de exclamação, que são o meu contributo para jogo tão excitante.

Sentemo-nos um pouco no conforto das poltronas, estiquemos as pernas. Uma pinga de whiskey irlandês, de malte, um Bushmills velho, num copo baixo, com uma pedra de gelo, não mais. Vamos lá, então, rever o filme dos golos: 0-1, aos 17 minutos – contra-ataque dos brasileiros, passe em diagonal de Coutinho para Pepe; Jacinto está adiantado e o extremo-esquerdo do Santos aproveita o espaço nas suas costas; Raul persegue-o, mas debalde; Pepe centra rasteiro para a entrada da grande-área, Pelé surge fulgurante, em corrida, e remata de primeira. Soberbo! 0-2, aos 27 minutos: Pelé faz tudo sozinho (leram o Nelson Rodrigues há quatro parágrafos?); finta um, dois, três adversários; à saída de Costa Pereira, coloca-lhe a bola fora do alcance (sim, está bem, talvez o Nelson tenha exagerado, mas só um pouco, muito pouco). 0-3, aos 49 minutos: Pelé outra vez; primeiro hipnotiza Cruz com uma simulação mágica, depois é a vez de Raul; em seguida corre pela direita como se fosse perseguido por um bando de assaltantes de estrada; chegado à linha de fundo, centra rasteiro para a frente da baliza onde Coutinho faz o golo fácil. 0-4, aos 64 minutos: Pelé, ele e só ele, dono da Luz, dono do Mundo; um, dois, três adversários/uma, duas, três fintas como meneios de toureiro; sempre a caminho da baliza, sempre em progressão; ângulo apertado, remate preciso, Costa Pereira impotente. Maravilhoso! 0-5, aos 77 minutos: passe de Pelé para Coutinho, rasgado, largo; Coutinho vai sozinho para a baliza, Costa Pereira sai, vai tomar conta da bola mas escorrega, larga-a, deixa-a fugir para a frente de Pepe; Pepe faz um golo facílimo. 1-5, aos 86 minutos: de longe, de muito longe, Eusébio volta a rematar à baliza de Gilmar; já o tinha feito por meia-dúzia de vezes, já acertara num dos postes; desta feita o remate é impressionante de força e colocação. Grande! 2-5, aos 89 minutos: rápido movimento do ataque do Benfica; Eusébio solta-se e faz um passe suave para a frente de Santana; em corrida, de primeira, Santana remata, em arco e com precisão. 

Nelson Rodrigues escreveu aquelas linhas sobre o Benfica-Santos em Julho de 1971. Prometia, então, fazer uma antologia das grandes jogadas de Pelé. E concluía: «Evidentemente, não será uma coluna de jornal o espaço necessário para uma antologia de Pelé. Eu teria de escrever mil páginas, no mínimo. E, como o meu espaço está terminando, repetirei pela milésima vez: - que o crioulo foi o maior jogador que apareceu assim no céu como na terra».

Assim no céu como na terra: devastado pelo Santos, era tempo de o Benfica voltar à terra. Pelé fora Pelé. Isto é: para além do que é imaginável!

No estádio, em redor do estádio, o espanto, a surpresa, a estupefação.

Gabriel Hanot: mestre do jornalismo, figura máxima do L’Équipe, pai da Taça dos Campeões Europeus, autoridade máxima na crítica do futebol. Se havia um grande jogo, fosse em que lugar fosse, do delta do Rio das Pérolas ao sopé das montanhas do Pamir, era certo que Gabriel Hanot estava presente. No dia 11 de Outubro de 1962, Gabriel Hanot estava em Lisboa. Um francês desiludido: «Custa dizê-lo, mas o Benfica perdeu porque jogou mal. E porque Costa Pereira, sem posição na baliza ou fora dela, sem segurança de mãos, também ajudou ao descalabro. Em segundo lugar, o Benfica não demonstrou ter conjunto. Não encontrou o seu estilo de jogo e que eu já vi em outras ocasiões. Julgo que José Augusto, a quem já considerei o melhor extremo-direito da Europa, não está em forma. Há dois anos era o nº 1.

Agora, pelos vistos, teve uma queda vertical. Os dois interiores, Coluna e Santana, também não cumpriram. Eusébio foi, quanto a mim, o único jogador do Benfica ao nível da classe dos jogadores do Santos. Também a revelar categoria esteve o nº 11, Simões, com os seus raides velozes a caminho da grande-área contrária, obrigando a defesa brasileira a conceder cantos em série». Simões, minha testemunha privilegiada.

E Carlos Pinhão, que tanto me ensinou, em A Bola: «Apetece dizer: com Pelé não vale... Um desafio é uma coisa, Pelé é outra. Com Pelé de um lado, não há desafio, não há despique, não há equilíbrio possível. Apetecia acrescentar: tirem Pelé e venham, então, jogar com o Benfica... Pelé é único. E chamar-lhe monstro, rei, santo, que sabemos nós desta desenfreada ânsia de o exaltar, é sempre tarefa inacabada. Pelé é Pelé. Não se caracteriza, não se retrata, não se define». Um raio negro apagara a Luz! l

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