Pedro Marquês de Sousa. Tenente-coronel e historiador

'Numa guerra a primeira vítima é a verdade'

Fez um livro sobre a Guerra Colonial para repor a verdade dos números e fala sobre o conflito atual que acredita poderá levar à queda de vários regimes. ‘Foi assim há cem anos’, diz.


A história nasceu de um artigo do jornal i a propósito da mobilização forçada na Rússia, onde Marta Reis fazia um levantamento dos portugueses que podem ser mobilizados em caso de guerra. Pedro Marquês de Sousa, tenente-coronel na reserva, autor do livro Os Números da Guerra de África, quis acrescentar alguns dados aos publicados e optámos por fazer uma entrevista que fala da guerra de África, da Ucrânia, e do estado das Forças Armadas portuguesas. «Os jovens portugueses hoje preferem ser vigilantes a soldados. Ganham mais». E não são corridos ao fim de seis anos, diz.

Passou à reserva porquê?
Porque quis, por opção, e também em virtude de uma reforma que o Ministério da Defesa fez a que chamou Reforma 20/20. Essa reforma trazia um inconveniente para nós, que era se não saíssemos naquela altura só podíamos sair com 55 anos de idade. E eu não quis deixar de aproveitar essa oportunidade.

Passou à reserva com que idade?
Há dois anos, tinha 52. Devo passar à reforma aos 57 anos.

Não acha que é muito cedo?
É muito cedo. Eu, aliás, reconheço que era uma regalia muito simpática que nós tínhamos, mas que entretanto acabou. Mas note-se que temos de descontar 36 anos para alcançar a reforma, ainda estou a descontar para a Caixa de Aposentações.

Digamos que é uma profissão muito rápida [risos]. 
Efetivamente era uma regalia, não escondo que me permitia cá fora dedicar-me a outra coisa qualquer. Estou a dar formação na área da segurança privada a vigilantes, onde se ganha pouco, mas pelo menos estou entretido. Confesso também que a minha razão de sair tem a ver com uma certa frustração que encontrei no Exército. Na missão em Timor, como capitão, estive sempre motivado. Depois apercebi-me do caminho que a instituição estava a ter, na ausência de missão. Para o mal e para o bem há um exército até ao período do serviço militar obrigatório e há outro exército depois do Serviço Militar Obrigatório. Faz lembrar um pouco os exércitos do absolutismo com os exércitos liberais, com a revolução francesa. Estes caracterizaram-se por integrar todos os cidadãos, representavam a sociedade. Os exércitos anteriores a esse modelo, do século XVII, do absolutismo, eram profissionais ou semiprofissionais, um bocadinho fechados em si próprios. Devo dizer que gostava do Serviço Militar Obrigatório, porque acho que respirava a sociedade civil. Sei muito bem, ou acho, que hoje não podemos ter o exército nos moldes que tínhamos. Como estava colocado na Escola Prática, sendo instrutor dos cursos de oficiais milicianos, também de sargentos – as escolas práticas eram os quartéis onde se formavam as pessoas que tinham já estudos e quando se apresentavam para cumprir a tropa, faziam a formação militar nas escolas, e era isso que me atraia. Era perceber que ia servir uma instituição com uma certa amplitude, que respirava a sociedade civil. Depois do fim do SMO acho que a tropa ficou um bocadinho fechada em si própria, até porque temos muito pouco pessoal...

O que o leva a escrever sobre assuntos militares? 
Devo dizer que tenho trabalhos na área propriamente de história militar, como é o caso deste último livro, Os Números da Guerra de África, mas também numa área específica que é a história da música militar. A história da música militar tem a ver com o facto de, enfim, sendo músico, saber ler música, ter percebido que em Portugal não havia grandes documentos escritos, ao contrário de Inglaterra ou de França. De maneira que fiz um trabalho académico e publiquei umas coisas. Os outros de história militar, porque sim. Resolvi deixar de ser militar de carreira tradicional, mas tenho uma grande paixão pelo o Exército, pela atividade militar, tanto que sou muito crítico, reconheço isso, nas redes sociais. Tenho a tendência para ser um pouco crítico do estado atual das coisas. Apesar de ter deixado a carreira tradicional, vivo com muita paixão o Exército. Neste caso, do livro, além de gostar de história, acho que num presente tão pobrezinho, encontrei alguma realização no estudo da História, sobretudo em trabalhar em coisas que achava que não estavam ainda bem estudadas, como foi o caso da Guerra de África. Confesso que o primeiro fator mobilizador pessoal foi o facto de perceber que era muito injusto encontrar, em relação às baixas – o livro tem outros números –, quer em fontes da internet, quer mesmo das fontes escritas, números que não correspondiam à verdade. Penso que isso se deve a um documento que o Exército editou ainda em 1987-88. O Exército, dos três ramos, é aquele que, por razões óbvias, tem mais empenhamento, mais protagonismo. Nas forças presentes na Guerra Colonial, o Exército representava 92% do pessoal no terreno, nas três frentes. A Força Aérea 5% e a Marinha 3%. Quer dizer, a esmagadora maioria serviu no Exército. Percebi que o trabalho do Exército é que tem a culpa da referência que perdura, que fala apenas em 8600 militares mortos. Esse é o primeiro trabalho que o Exército criou naquela altura. Nós, até a brincar, chamamos-lhe a Seca, Comissão para os Estudos das Campanhas da África (CECA), feito por coronéis reformados ou na reserva. E começam exatamente a editar um trabalho que visava estudar a Guerra de África, que tinha terminado há dez anos. E aí apresentam o primeiro número, um referencial dos tais oito mil e tal mortos. Para já, esse referencial só considerava o Exército. O que é certo é que depois, nas fontes que nós conhecemos e tropeçamos nelas, quando se vai à internet, lá vamos encontrar Guerra de África ou Guerra Colonial ou Guerra do Ultramar, oito mil e tal mortos. Mal! Só militares são mais de 10400, incluindo também os da Marinha, da Força Aérea e os militares nativos, que eram as pessoas naturais das respetivas colónias, que também foram incorporados no Exército. Serviram o Exército nas diferentes localidade. Os soldados nativos morreram mais em Moçambique, depois Angola e, por fim, Guiné. Curiosamente, alguns generais e o poder político tinham receio de apostar naquilo que alguns historiadores apelidaram de africanização da guerra. Mas havia quem defendesse que, em termos de eficácia militar, seria importante integrar os nativos, além de ter também uma componente política, que era a africanização da guerra ao mostrar ao mundo que os próprios nativos estavam a lutar contra os guerrilheiros, da mesma cor. Em termos puramente militares, estavam muito mais adaptado ao clima, com outras capacidades de perceber os dialetos, de seguir pistas, de viver no mato, e tinham muito mais capacidades que um europeu, no caso os portugueses. Eram homens com boa aptidão para o combate. 

Os 10 425 militares mortos de que fala inclui os soldados nativos que foram deixados para trás, depois das independências, e que foram fuzilados?
Não, estes números dizem respeito ao período em que o Exército português esteve em África. Neste livro não tenho os números pós independência. Era outro estudo e era uma abordagem a outras fontes que, como calcula, não é fácil encontrar. Este trabalho foi muito trabalhoso, mas foi baseado em fontes de documentação. E escrevo isto de forma abundante, porque, no fundo, esta é a visão portuguesa, mesmo em termos dos números. As despesas da guerra, as baixas, as estatísticas de combate, quantas minas, em média, detonavam em Moçambique, por exemplo. As emboscadas. São números dos nossos relatórios, adaptados, porque muitas vezes as coisas não batiam certo. Nós temos fontes no Arquivo Histórico Militar do Exército, temos o Arquivo da Defesa Nacional, o Arquivo da Força Aérea, e o Arquivo da Marinha. Curiosamente, o arquivo da Marinha ainda não desclassificou alguns documentos. Não sei porquê, a Marinha tem documentos desse período que não permite que os investigadores consultem. As regras arquivística permitem que os investigadores os possam consultar, mas o arquivo da Marinha não permite.

Mas conseguiu saber quantos militares da Marinha morreram? 
Sim, sim. A Marinha teve 260 mortos, a maior parte fuzileiros, por razões óbvias. Em termos de combate, só há dois ou três não fuzileiros mortos. Depois, há outros que morreram de acidentes e de doença. E a Força Aérea registou 511 mortos, incluindo pilotos, paraquedistas, naquela altura pertenciam à Força Aérea. 

Viu as notícias desta semana de que milhares de guineenses, que combateram por Portugal, querem a nacionalidade portuguesa? 
Acho que, em termos formais, e de legitimidade legal, há matéria para enquadrá-los, como aconteceu, por exemplo, aquando do regresso dos chamados de retornados, vieram muitos nativos, como sabe, funcionários administrativos do Estado.

Mas não vieram militares.
Ainda ia fazer seis anos quando se deu o 25 de Abril, mas, como sabemos, na parte do aparelho militar, lá está, houve, logo a seguir, grandes divisões internas, unidades contra unidades, as elites de oficiais muito divididas, e essa é uma questão que provavelmente, terá prejudicado os militares nativos, principalmente, da Guiné. Foram vítimas, talvez, de uma falta de organização do próprio aparelho militar, porque, assim como o regresso de pessoas que eram funcionários do Estado, administrativos, que até foram integrados aqui, mal ou bem, alguns chegaram a ser mesmo, mas enfim, tiveram as suas pensões. No caso dos militares, foi realmente uma situação caótica. E há que destacar o seguinte: a maior parte desses casos eram até militares de unidades de elite, digamos assim, concretamente dentro do Batalhão de Comandos. Por exemplo, o Batalhão de Comandos da Guiné. O que ainda é mais surpreendente, porque nessas unidades, que é suposto ter um espírito de corpo, uma coesão, conhecimento e ninguém fica para trás, é realmente uma contradição na cultura militar isso ter acontecido. De forma desapaixonada, devo dizer o seguinte: senti, ao longo da minha formação militar e até hoje, no seio da instituição militar, e no Exército em particular, que ainda não houve, digamos, a digestão completa desse processo. São os militares ou uma parte dos militares do Exército, em particular do quadro permanente, que faz o 25 de Abril, que protagoniza aqui a transição, mas também perdurou sempre, em particular nalgumas unidades especiais, uma certa reserva de consciência da forma como a guerra acabou. Como militares operacionais, sobretudo pessoas que não eram quadros superiores, compreende-se que nunca tivessem tido a visão de como as coisas aconteceram, em particular na Guiné. Não é por acaso que é na Guiné que nasceu o Movimento dos Capitães. Sabemos isso, à volta de Spínola, porque era onde a guerra era mais difícil, porque era uma guerra que militarmente estava perdida. E a seguir seria Moçambique. É curioso que, depois no pós 25 de Abril, talvez no seio das unidades de tropas comandos – menos um bocadinho nos paraquedistas – essas pessoas porque tiveram uma preparação militar diferente do militar normal – que acabava a tropa ia à sua vida e queria era vir embora, e não tinha sequer um espírito de unidade e uma cultura de pertencer a um determinado grupo ou unidade – sinto é que na consciência de alguns grupos, de pessoas ligadas a essas tropas, hoje já aposentados, o processo ainda não encerrou para eles. Não fechou. 

Mas estão revoltados com quê?
Porque os vários governos democráticos nunca quiseram tocar muito nesses nesses temas, e fazer essas recuperações. Os poderes ocuparam-se de outras coisas e nunca quiseram ir remexer naquilo que foi a guerra. Parece que tocar nisso envolve alguns fantasmas, que os poderes políticos nunca quiseram tocar. Veja que a Liga de Combatentes, durante muito tempo, foi vista um bocadinho como se fosse uma coisa do antigo regime. Estava ali a reserva de uma consciência e é pena, noutros países evoluídos, como na Inglaterra, as pessoas compreendem muito bem que um militar foi cumprir um dever, independentemente das questões políticas. A nação tem de manter com eles uma relação justa, pois eles foram cumprir um dever. Alguns em tropas especiais, com um protagonismo diferente, com uma forma de estar na guerra diferente, tendo também cometido excessos. É claro que no âmbito das tropas normais, certamente que houve menos episódios desse género, porque o tipo de missão que lhes era dada, a própria preparação dos militares, desde logo, o psicológico, era diferente. No caso das tropas especiais, é onde reside, digamos, uma certa reserva que os poderes políticos nunca quiseram também recuperar, desenvolver. Têm receio que isso cheire a saudosismo.

O que lhe pergunto é, como militar, como vê esses militares guineenses, que eram portugueses quando nasceram e deixaram de o ser em 75, não conseguirem a naturalização portuguesa?
Penso que também pode haver aí questões que não são assim tão simples como possam parecer. Não sei se desse universo alguns não terão acreditado que em 75, 76, 77, que o novo poder independentista, do novo país independente, no caso da Guiné, que é o mais dramático, os pudesse acolher. Então aí podem ter tomado a opção, naquela altura, de recusar a nacionalidade portuguesa.

Fala-se que muitos fugiram para o Senegal e para a Guiné Conacri e nem sequer ficaram na Guiné-Bissau. Outros foram fuzilados. 
Haverá aqui várias situações. Alguns foram literalmente enganados, acreditaram numa integração e que seriam integrados nas forças armadas que criadas depois. Outros foram traídos, literalmente. Agora não é impossível comprovar que um determinado homem, que tenha hoje 70 anos, foi militar do Exército ou da Marinha. Essa condição, para mim, confere-lhes claramente o direito a ter o estatuto de português e de ter, no mínimo, a pensão que o Governo atribuiu aos antigos combatentes. 

Parece que está um pouco enrolado no seu discurso. O senhor tenente-coronel também está com receios de falar desses problemas.
O que eu enrolei, talvez um bocadinho, é o seguinte: os poderes democráticos a seguir ao 25 de Abril não quiseram remexer muito nisso, porque isso cheirava um bocadinho ao Estado Novo.

Mas já passaram mais de 40 anos. 
Percebia-se isso em 75, 76 e 77. Aliás, foi de tal forma que algumas das unidades especiais até deixaram de incorporar pessoal, como quem diz não vamos dar muita força a este tipo de unidade, que este tipo de unidade pode fazer a contrarrevolução ou participar em algo parecido, naqueles movimentos de Spínola. É preciso falar claramente que Spínola tinha um alegado plano para invadir Portugal em finais de 75. Talvez por causa disso, não havia muito interesse em ter essas unidades muito guarnecidas. 

Assistimos neste momento à guerra na Ucrânia, onde 300 mil voluntários estão a ser incorporados, alguns à força. Durante a Guerra Colonial houve mobilização à força, se excluirmos os militares do SMO?
Não, porque quem ia era quem estava na idade de fazer o serviço militar. O normal foi trabalhar em cada ano com o pessoal que naquele ano iria cumprir o serviço obrigatório. A lei previa aos 18 anos dar o nome para a tropa, depois ir à inspeção, mais ou menos com 19 anos, aos 20 ou 21 ser incorporado. A Guerra de África foi feita neste âmbito, ao contrário, por exemplo, da I Grande Guerra, porque quando foi preciso mobilizar para a França, foram buscar as chamadas reservas, homens que já tinham cumprido a tropa em 1913, 1914. No Ultramar não houve isso. Em regra, os soldados que, de acordo com a lei de serviço militar obrigatório, naquela época, lhes competia ir à tropa, eram incorporados aqui e mobilizados. A lei falava que o Serviço Militar Obrigatório era, em princípio, dois anos. Mas se o militar fosse mobilizado para fora do território metropolitano, podia cumprir mais dois anos. Muitos homens cumpriram quatro anos.

Mas fora do SMO não foram buscar ninguém?
Há aqui uma história que envolve oficiais milicianos que até já tinham uma certa idade. Julgo que foi por volta de 1969-70, quando faltaram capitães para o posto de oficial comandante de companhia, que era a unidade de base, com cerca de 150 homens. Como havia falta de capitães do quadro permanente, foi preciso ter capitães milicianos, capitães não de carreira. E então a crise de 69 e 70 foi de tal forma – porque havia muitos poucos jovens a concorrer à Academia Militar, os candidatos eram muito menos do que as vagas– a Academia Militar chegou a abrir na ordem das 300-400 vagas, incluindo a Força Aérea, naquela altura também era formada na Escola do Exército, na Academia Militar e os candidatos eram menos do que as vagas. Portanto, foi um problema que, aliás, está na génese do 25 de Abril como sabemos. Nesse período deu-se a incorporação de homens que já tinham 30 anos, que, salvo erro, tinham cumprido o serviço militar, em 62 e 63. Estamos a falar só de oficiais. Foram para Mafra fazer uma formação para saírem de lá capitães, para irem para o Ultramar como capitães milicianos. É um caso residual, em termos de quantidade, mas no máximo andou pelos 50-60.

Temos assistido, na Rússia, a manifestações contra a mobilização e, sabe-se, esses manifestantes são os primeiros a serem enviados para a linha da frente. Em Portugal, todos aqueles que eram desertores e voltavam para Portugal, de Paris ou de outro sítio, eram os primeiros a serem enviados para a Guiné.
Sim, havia uma especial vocação para as pessoas ditas merecedoras de castigos serem enviadas para a Guiné. Mesmo aqui na metrópole, um soldado num quartel que fizesse qualquer coisa de mais grave era enviado, como castigo, para a Guiné. Era muito comum isso acontecer, segundo os documentos que vi no Arquivo da Defesa Nacional, elaborado em 1975 – que já podia ter uma intenção, que era de recuperar, perdoar e promover o regresso dos desertores que estavam em Paris, na Bélgica, etc. Acho que o nosso número de desertores é mais do que os 8000, mas será à volta de 9000. 

Mas os que voltavam do exterior eram logo enviados para a Guiné.
O número de desertores, em face do universo envolvido, não é muito significativo. Há outra coisa, porque desertor, formalmente, era aquele que já estava incorporado, já tinha sido fardado. O que acontece, e aí sim, teve expressão, era o indivíduo que antes de ir à inspeção ou então entre o período da inspeção e o momento em que se apresentava nas fileiras, fugia para França. E, aí sim, esses números são expressivos (ver pág. 33). Há dados que mostram como a emigração aumentou muito nessa altura, sobretudo homens. Por exemplo, em 1963, os recenseados eram 85 mil – todos os indivíduos que tinham nascido em Portugal, com 18 anos, desses, não se apresentaram à inspeção 13 mil e tal. Aqui estamos na ordem dos 15% de faltosos. Em 1972 o número subiu para 20%. Portanto, já recenseados foram 92.000 faltosos.

Vamos imaginar que a NATO entra no conflito militar da Ucrânia. Haverá algum cenário em que Portugal possa recorrer a reservistas? 
Do universo de cerca de 28 000 militares existentes, muitos não estão aptos para serem mobilizados. Não podemos ter unidades só com sargentos, por exemplo. Neste momento, o Exército tem mais sargentos do que praças. Nos três ramos temos: oficiais, 5500, que representam 20%; sargentos são 13 500, 47%. Na classe de sargentos temos malta da minha idade ou mais velhos que estão nas secretarias, e esses não poderiam ser mobilizados. Longe disso. Depois há o pessoal que está na reserva ativa, passaram à reserva mas estão na efetividade de serviço: há oficiais e sargentos que estão a desempenhar funções nos bombeiros, na Cruz Vermelha, na Liga dos Combatentes, outros no arquivo geral do Exército, nos museus, ou no arquivo histórico. Estão na reserva mas a desempenhar funções administrativas. Essa gente não é mobilizável.

Quem o oiça até parece que não participamos nos exercícios da NATO, etc.
Estou a responder ao artigo da Marta Reis que escreveu no i, com dados que lhe foram fornecidos e que pesquisou, que Portugal tem 28 mil pessoas que podem ser mobilizadas, e isso não é verdade. Desses cerca de 28 mil, quase metade são sargentos, 20% são oficiais e praças são só 30 e poucos por cento, isto a nível global, incluindo a Força Aérea e a Marinha. Mas vamos imaginar uma eventual mobilização no conflito da Ucrânia: por exemplo, os sargentos e praças da Força Aérea, que têm especialidade de mecânicos, de informática, administrativos, que estão em Alfragide no Estado Maior da força Aérea, não são mobilizáveis. O que se mobiliza são unidades. Por exemplo, o Exército, com alguma dificuldade, seria capaz de mobilizar um batalhão. Contas redondas, são 500 homens. Um batalhão tem quatro companhias, que significa 30 e tal oficiais, 70 ou 100 sargentos, e mais de 300 soldados. E aí é que reside o busílis. Quando o i falou em 20 e tal mil, isso é um número. Não significa que essas pessoas possam ser mobilizadas.

Estou um pouco à deriva. Quando o exército de Putin chama homens com 60 anos e diabéticos para a frente de combate, e até podemos admitir que foi um erro, está a dizer que Portugal não tem sequer 20 mil homens para uma guerra? 
Mas Putin tem praças para incorporar e tem essa gente para enquadrar. Por exemplo, na Rússia há de haver tipos como eu, que agora já estão em casa com 50 e tal anos, estão na reserva descansadinhos e agora são chamados. Mas são chamados para enquadrar praças. Aqui não. 

Então acha que as nossas Forças Armadas são uma mentira.
Não, não é isso.

Se me está a dizer que não há tropas... que são mais os chefes do que os índios.
Sim, são mais os chefes do que os índios. 

Portanto a nossa tropa é um logro.
Calma! É um pequeno poder e um país pobre, com o investimento ou falta dele que tem tido... é o que é. A culpa não é dos chefes militares, é um processo muito antigo.

Não estou a dizer que é um problema dos militares... 
É um problema muito complexo, que passa, por exemplo, pela falta de praças no Exército e também na Marinha, apesar de ser diferente e ser mais atrativa, mas nem assim atrai miúdos. Para a Marinha, por exemplo, antigamente havia imensos voluntários com 16 e 17 anos. A Marinha tinha depois uma figura que os compensava, alguns, que era ficar com eles no quadro permanente. Só a Marinha é que tinha isso. Agora é um esquema diferente, apesar de poder haver alguns que possam passar ao quadro permanente. 

Mas não é atrativo ir para a Força Aérea?
Para oficial e sargento, é. Para praça não é. É preciso dizer isto. Porquê? Porque um praça só pode estar lá seis anos. Para o Exército também pode estar lá seis anos, mas vamos ver quanto ele ganha: 600 e poucos euros. Nem tem, como cá fora qualquer profissão tem, subsídio de refeição. Só tem aqueles 600 e tal euros. 

Na Marinha também?
Se fizer uma saída para o mar tem mais qualquer coisita. Mas olhe que muitos têm abandonado, ganham menos que o ordenado mínimo. Estou a dar formação a miúdos para vigilantes que me disseram que tinham sido voluntários para o Exército mas que desistiram, durante a recruta. Experimentaram e depois saíram. Iam estar longe de casa, para ganhar os tais seiscentos e poucos euros, sujeitos à disciplina militar, com exigências, pois não há horários, e o fim de semana é ser for possível. Perante isto, dizem-me. ‘Prefiro ser vigilante’. O vigilante tem um ordenado base de 816 euros, mais subsídio de refeição e pode estar ao pé de casa.

Digamos que a profissão de vigilante é mais atrativa do que a de militar. 
Não acho isso, mas compreendo que muitos jovens, da geração de hoje, façam essa opção.

Preferem ir para vigilantes do que para o Exército. 
O soldado tem uma exigência da instrução, tem um conjunto de privações, logo durante o período de formação de base – que tem uma instrução militar dura, vai andar na lama, vai andar a correr, vai andar com botas. Vai ter bolhas nos pés. Vai dormir ao campo. É militar. E o ordenado que tem está abaixo de um vigilante da segurança privada. E já nem vou comparar com um guarda da GNR que ganha muito mais. Por isso é que há pouco falava: acabou-se o serviço militar obrigatório e nunca mais houve um novo paradigma, o que faz falta. Um praça do Exército devia poder ser como um agente ou guarda da PSP e da GNR, que podem ficar toda a vida sem serem promovidos. Que fazem a vida toda como soldado, guarda ou agente. As Forças Armadas, não sei porquê, não conseguiram ainda fazer isto. Muitos oficiais falam nisso, de termos praças no quadro permanente, mas isso custa dinheiro. É claro que, eu também sou cidadão contribuinte, percebo que os governos invistam mais na segurança interna – haja mais dinheiro para a GNR ou para a Polícia, para garantir a nossa segurança do dia-a-dia, do que para militares que só têm missões no exterior, que ainda por o cidadão comum nem vê. 

Há missões nos incêndios, nos salvamentos...
A Marinha e a Força Aérea têm o salvamento. Portugal é um pequeno poder de um país com dificuldades. Tem prioridades na Educação, na Saúde. Claramente que a Defesa não tem sido a prioridade. Logo, se fosse necessário mobilizar, era muito curto. Por exemplo, é mais fácil mobilizar uma parelha de caças – é o aparelho, o piloto e o mecânico. Nós temos F-16, que estão em missões internacionais. Mobilizar, no âmbito da NATO, cinco ou seis caças F-16, parece-me possível. Mobilizar uma fragata da Marinha também se consegue. E o Exército? O Exército trabalha com diferentes escalões. Uma coisa é uma companhia que tem cento e tal homens, outra é um batalhão que tem várias companhias – números redondas, 500 homens – mas mais complicado é juntar uma brigada, que junta vários batalhões. Neste momento, claramente, o Exército não consegue mobilizar uma brigada. Estou a destacar o escalão brigada porque já é uma unidade que tem não só infantaria, artilharia como engenharia. Tem meios de combate e de apoio de combate. Alguma autonomia logística, esse escalão brigada, que era o nosso compromisso com a NATO em 1976, tendo sido criada em Santa Margarida uma brigada, neste momento, o Exército não consegue mobilizar uma brigada. E um batalhão de infantaria? Consegue? Com dificuldade consegue. Mas é preciso ir buscar praças aos paraquedistas aos comandos...

Digamos que a tropa portuguesa está muito parecida com a do Raul Solnado (risos).
Não acho que seja assim. Repare, nós hoje temos, por exemplo, ao nível da formação de sargentos e de oficiais e dos poucos praças, um nível de instrução de formação como nunca tivemos. Temos hoje armamento e equipamento razoável. Agora, ao nível das forças terrestres temos de ter praças e não as temos. 

É a tal história que temos mais chefes do que índios.
Sim, no Exército, juntos, há mais oficiais e sargentos do que praças. Estamos com a pirâmide invertida. É verdade que temos cerca de 28 mil homens fardados, mas isso não corresponde a mobilização. 

Como vê a atuação dos militares na televisão em relação à guerra da Ucrânia? Havendo posições tão díspares...
Tenho tido aí a agradável surpresa, na maior parte dos casos, de ver pessoas bem preparadas. Um deles é o coronel Mendes Dias, que é doutorado, foi meu colega professor na Academia Militar.

Que é literalmente o oposto de outros. 
Sim. Em termos da qualidade dos comentários e da capacidade de comunicação, tenho tido uma surpresa agradável. Também devo dizer que fiquei surpreendido com a visão de alguns que, tendo servido nas estruturas da NATO, têm esse sentido crítico. São culturas diferentes, vivências diferentes. Repare, isto vale o que vale, o Mendes Dias é filho de retornados, o Carlos Branco tem um irmão da minha idade, que era do meu curso de Direito, mas foi criado em Almada, juventude em Almada. É diferente, tem outras vivências. Mas a questão de ter sentido crítico... conhece as posições do velho coronel Matos Gomes, de quem sou amigo, é um intelectual, foi dos Comandos, grande combatente, instrutor com fama de ser duro na Academia Militar, era um grande combatente. Ele também tem uma visão muito especial sobre a guerra. Gosto de falar em ter sentido crítico, porque numa guerra a primeira vítima é verdade. E podemos olhar para esta guerra e todas elas e observar as causas próximas. Mas também podemos ir buscar causas mais remotas. E aí é mais complexo. Se quisermos só analisar as coisas de uma forma simples, dizemos que há uma invasão de um país soberano. Mas os militares, só por serem militares, não devem ter ausência de sentido crítico. Eles estão reformados e podem dizer o que pensam, apesar de terem servido na NATO. É preciso sentido crítico. O major-general Carlos Branco tem carreira internacional. Se quisermos ver o que está em causa de uma forma mais abrangente, constatamos que a NATO nos últimos anos alargou-se e ficou em condições de ter sistemas de armas – mal comparado, parece a crise de Cuba, de 1962 – mais próximas da Rússia. Os EUA não gostaram que os soviéticos tivessem a possibilidade de terem plataformas de lançamento de mísseis às portas da Florida. Portanto, se formos ver este conflito mais para trás, temos aqui coisas complexas. Foi a NATO que se alargou e conseguiu trazer para ela os territórios da antiga influência soviética, por sua livre vontade, é certo. Por razões óbvias, porque eles não gostarem nada do regime soviético, mas em termos militares é preciso não esquecer isto. E Putin já vinha avisando há muito tempo que não estava a gostar.

Isto pode levar ao fim do regime de Putin?
É uma possibilidade.

Porquê?
Vou dar o exemplo português. Temos dois momentos no século XX em que, precisamente por causa de mobilização militar, de empenhamento militar em contexto de guerra, foram os próprios militares a acabar com os regimes que os mandaram para a guerra. A I Guerra Mundial fez nascer nas elites militares aquilo que vem a ser depois a ditadura militar e portanto os militares acabaram com a I República, instalando depois a ditadura militar. Nos anos 60, a guerra de África é a guerra que leva ao fim do regime do Estado Novo. Os militares, por causa da guerra e das dificuldades, na Guiné em particular, acabam com o regime. Eu não me admiro – estamos a falar de uma potência e não de um pequeno poder – que o isolamento a que a Rússia está a ser remetida não crie nas suas elites – às vezes é um processo longo, não é de um dia para o outro, como foi cá – uma revolta das próprias elites militares, que são sempre quem tem o poder. Não acredito que ele caia de outra maneira. Agora, se os intelectuais, as elites políticas, como aqui aconteceu, forem desgastando e influenciando as elites militares, pode acontecer que o regime de Putin caia por causa desta guerra. É um clássico, aliás, os regimes caírem por causa das guerras. Cá em Portugal, esses dois momentos são evidentes e existiram por causa da mobilização forçada. Para França correu mal, os homens obrigados a irem... a deixarem aqui o seu trabalho. Olhe, mal comparado, se quiser, a mobilização para França lembra a da Rússia agora... tinha de ser a GNR, quase à paulada, a fazer corredores para eles embarcarem.

Isto na I Guerra Mundial...
Na I Guerra Mundial, para França, para África não. Curiosamente, a mobilização durante a I Guerra Mundial que foi feita para o Sul de Angola e para o Norte de Moçambique, não foi controversa. Isto em 1914. Logo aí a mobilização que fizemos de tropa para o Sul de Angola, perante eventual ameaça da colónia alemã que fazia fronteira, e para o Norte de Moçambique, perante a ameaça dos alemães na Tanzânia, que era colónia alemã... foi um desastre em termos de organização militar, mas em termos de consciência interna, não dividiu as pessoas no essencial. Já a mobilização para a Flandres, cuidado. Não só porque exigiu mais homens, foram 50 e tal mil, foram buscar às tais reservas, homens que já tinham cumprido a tropa em 1912, 1913, que já eram casados, com filhos, nos seus trabalhos, de repente são chamados à tropa para uma guerra de alta intensidade que não tinha nada a ver com a guerra de África. É precisamente a mobilização forçada, e daquele modo, para França, para as trincheiras, que leva a germinar nas elites militares a instauração da ditadura militar... que foi o que Gomes da Costa instaurou a 28 de maio de 1926 – ele era o oficial mais conceituado na Flandres. Era um general que comandou uma divisão na batalha de La Lys. Não é por acaso que é ele que, passados uns anos, vem aqui... a batalha de La Lys, que foi um desaire para nós, ele sentiu aquilo como militar orgulhoso que era, sentiu aquela derrota. Atenção que nós estamos do lado dos vitoriosos sobre os alemães, mas o caso da experiência portuguesa foi traumatizante. Muitos casos de indisciplina nas trincheiras... portanto, não tem nada a ver com o caso de África. Na I Guerra, atenção. É no seio do Corpo Expedicionário Português (CEP), que vai para França, que nasce o embrião daquilo que viria depois a ser a ditadura militar, como uma certa revanche ao Afonso Costa e aos políticos da I República que os mandaram para a guerra sem as devidas condições. Usados como carne para canhão. Na Europa de hoje, de século XXI, apesar de tudo, parece que a história se repete. Nunca pensei, e ainda por cima sou da Artilharia, assistir a um conflito com lançamentos de mísseis. Uma guerra de alta intensidade, com o poder de fogo a que estamos a assistir. Confesso que, apesar de ser militar profissional e ter participado numa missão de paz em Timor, achava que os conflitos eram agora de baixa intensidade, de usar o aparelho militar para, paralelamente à diplomacia, resolver as coisas, às vezes usando um bocadinho mais de força mas nunca mísseis. Jamais.

Mas também não usaram mísseis na Síria?
Sim... de repente. No Afeganistão... mas essas guerras não entravam nas nossas casas todos os dias. Essas guerras a gente não as sentiu. Esta aqui vamos sentir na economia de muitas maneiras, ainda falta saber até onde. A guerra da Síria a gente não sentiu nada... do Afeganistão, também não. Esta aqui, a coisa vai-se complicar. Se calhar era bom, no caso da Rússia, que o regime acabasse por causa desta guerra. O pior é que o desgaste da economia, da sociedade, etc., vai poder fazer desacreditar as democracias europeias. A história repete-se, há cem anos foi igual. As pessoas podem começar a pensar: ‘Eh pá, eu quero mão firme, quero outra coisa, quer ordem’. Falo, na eventualidade, de assistirmos ao fim da democracia tal como a conhecemos, para ter, outra vez, regimes de natureza autoritária com sistemas de policiamento da sociedade, de fiscalização das pessoas.

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