Viver para Contar

Jerónimo

Entrevistei várias vezes Álvaro Cunhal, e nunca consegui criar empatia com ele. As perguntas que lhe fazia batiam contra uma parede. Nunca obtive dele uma resposta convincente, interessante, franca, humana. Parecia um autómato repetindo um discurso prefabricado.

Jerónimo

Na minha adolescência, eu estava plenamente convencido de que o comunismo ia dominar o mundo. Nessa época, olhando para o globo terrestre, a mancha vermelha já era preponderante e alastrava constantemente.

Tem o nome de um chefe índio e com ele partilha um sentimento: o ódio aos yankees. A aversão aos Estados Unidos é um dos traços comuns aos comunistas no mundo inteiro – que explica, de resto, a sua posição quanto à guerra na Ucrânia: se os EUA apoiam Kiev, eles apoiam Moscovo e Putin.

Na minha adolescência, eu estava plenamente convencido de que o comunismo ia dominar o mundo. Nessa época, olhando para o globo terrestre, a mancha vermelha já era preponderante e alastrava constantemente. O país mais extenso do planeta, a URSS, o país mais populoso do planeta, a China, muitos Estados de África, da América do Sul, do Médio Oriente, da Ásia eram governados por partidos marxistas-leninistas.

O movimento parecia imparável, até porque os países que iam adotando o comunismo não voltavam para o ‘lado de cá’. O movimento verificava-se apenas num sentido: do capitalismo (mesmo muito incipiente) para o comunismo, nunca em sentido contrário.

Até na Europa havia fortíssimos partidos comunistas que ameaçavam um dia tornar-se poder. Em Espanha, em França, na Itália, em Portugal, os partidos comunistas conquistavam diariamente militantes.

E eu fazia o seguinte raciocínio elementar: sendo os ricos, na Terra, uma pequena minoria, constituindo os pobres a esmagadora maioria da população, quem resistiria ao apelo de um partido que dizia estar ao lado dos pobres contra os ricos? Quem resistiria ao discurso de um partido que se dizia portador da ideia de igualdade, que, além de parecer justa, é a suprema aspiração de muita gente?

Para a maioria da população do globo, a liberdade é um desejo lírico. Para que quer um pobre a liberdade? O pobre quer viver melhor, inveja o rico, não sonha com a liberdade mas com a igualdade. A liberdade é um anseio da classe média, um desejo de quem já tem as necessidades básicas satisfeitas e quer poder falar livremente, agir livremente, ler e ouvir o que entende, sem censura.

Mas esta ideia levou-me ao seguinte pensamento: à medida que a classe média fosse crescendo na URSS – e isso era inevitável, pois o crescimento económico ia necessariamente fazer engrossar a classe média –, a liberdade começaria a ser reivindicada. Até um momento em que o sistema implodiria.

Era uma convicção pouco fundamentada. Eu não conhecia o que se passava na URSS. Mas foi mesmo o que aconteceu. Gorbatchov correspondeu à ânsia de liberdade de uma classe média que foi crescendo no seio do comunismo e que queria respirar, mexer-se sem constrangimentos, consumir produtos do Ocidente, fazer os seus negócios, ler jornais livres, numa palavra, libertar-se de um espartilho sufocante.

Mas não sendo para mim uma surpresa, a implosão do comunismo foi inesperada pela rapidez com que se deu. Um regime que parecia ainda sólido, um império que parecia relativamente estável, ruiu fragorosamente num abrir e fechar de olhos. De repente, aquilo que na adolescência me tinha surgido como inelutável – o avanço do comunismo – transformou-se no seu contrário: na morte súbita do comunismo e no desmoronamento do império soviético.

Para mim, constituiu um alívio enorme.

O meu pai foi comunista, o meu irmão mais velho idem, mas eu nunca fui. O comunismo assustava-me. A revolução russa assustava-me. A ideia de igualdade imposta à força assustava-me. A falta de liberdade assustava-me.

Entrevistei várias vezes Álvaro Cunhal, e nunca consegui criar empatia com ele. As perguntas que lhe fazia batiam contra uma parede. Nunca obtive dele uma resposta convincente, interessante, franca, humana. Parecia um autómato repetindo um discurso prefabricado.

Não conheço pessoalmente Jerónimo de Sousa, mas sempre me pareceu uma relíquia de outra época. O representante de um tempo que passou à História. Dizem que é um cavalheiro, um homem sério, honesto, e eu acredito. Mas a forma como estava agarrado a um tempo morto fazia-me impressão.

Ele vem de uma era em que o PCP se recusou a criticar Estaline, a fazer a desestalinização. Em que se recusou a criticar a URSS, mesmo quando era já óbvio o caráter totalitário daquele regime. Que se recusou recentemente a criticar Putin e a invasão da Ucrânia, porque vê em Putin o homem que pode fazer renascer o império soviético, embora sob outra capa.

Nesse aspeto, é muito estranho como um partido que se diz ‘comunista’ pode apoiar um líder e um regime sustentados por uma clique de milionários que dividiram entre si os despojos do comunismo, onde existe uma censura feroz e uma polícia política implacável, em que as prisões estão cheias de presos políticos. Um regime autocrático, ultranacionalista e imperialista.

E assim, interrogo-me: estaria Jerónimo de Sousa confortável com este apoio a um país que tem o pior dos regimes de extrema-direita? E não terá esse eventual desconforto que ver com a sua saída? Uma coisa é odiar os EUA, como acontece com todos os comunistas – e Jerónimo não será exceção. Outra coisa, diferente, é apoiar um regime que de comunismo não tem nada e defender um monstro como Putin. Seja pela palavra ou pelo silêncio. Pela ação ou pela omissão.

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