Cultura

Paul Celan. Quando a poesia exige o fim da música

O projecto de traduzir todos os poemas de Celan é de uma ambição desmesurada, um feito a que poucos se atreveram, e por bons motivos. Tratando-se de uma obra empenhada em revirar a língua alemã com um furor vingativo, os poemas estão investidos de um grau de invenção idiomática e de uma radicalidade expressiva que coloca as maiores dificuldades à sua interpretação, a ponto de ser recorrente os tradutores assumirem que foram obrigados a desistir das suas versões de vários poemas. Maria Teresa Dias Furtado não poderia almejar muito mais do que um resultado honroso, mas a verdade é que o calhamaço publicado pela Assírio & Alvim provoca em nós um abalo de todo o tamanho.

Paul Celan. Quando a poesia exige o fim da música

O mundo precisa de corda, e não faltam por aí esses canários imbecis que lha dão. Mas eis que um poeta arrasta os leitores até aquela árida região onde a inspiração parece capaz de lavar o mundo das suas mentiras, um poeta que nos escreve com “a mão nocturnamente forte: para que uma boca disso tenha sede, mais tarde”. Desenha um caule e no cimo vai-se renovando uma rosa que devora os detritos, que esplende e morre fixando aquele ponto a “norte do futuro”, que faz dos mapas instrumentos demasiado imprecisos pois, a cada hesitação, as distâncias baralham-se interiormente. É para esse ponto que ruma quem deseja resgatar as canções para as quais falta ainda uma voz, esse timbre que só pode ser encontrado para lá do que é humano, na linha com que se cose o limite da própria experiência. O esforço de Celan foi o de encontrar essa voz, guiando-se pela noção de que a própria dor é uma sílaba e que na linguagem estão contidos os aspectos essenciais do pensamento e da sensação de se estar vivo neste mundo. Através da sua arte de forjar os mais veementes contrastes, de criar alusões que persistem como fantasmas, nas suas imagens cabem distâncias enormes e através da estrutura musical os seus versos rejeitam firmemente o registo da reportagem universal em que quase toda a literatura decaiu. Celan rechaçou da forma mais drástica as categorias do realismo que se limita a imitar e reproduzir, denunciando a banalidade das formas de mimetismo em que nos vemos enredados, incapazes de contestar as ficções que nos impedem de formar um conhecimento pessoal e uma experiência única mesmo dos acontecimentos centrais da nossa vida. Há um momento no esforço de se restituir alguma verdade que não tenha ficado soterrada entre as ruínas e a desolação, em que o poeta supera a perspectiva do caos, e aí, depara-se com “um fim que já não se pode espelhar, um vazio a que nenhuma mimésis pode dar voz”, como assinala Joaquim Manuel Magalhães. “Essa máxima e extrema consciência produziu um recuo para o interior da alma, um fechamento para os rituais íntimos, um reencontro com os restos de humanidade a que, fragilmente, nos podemos ainda agarrar com a trágica consciência de talvez nos despedirmos.” Do outro lado, espera-nos um silêncio estranho, “uma quietação alucinante nos restos espalhados, na geografia quebrada que subsiste”. Ora, a poesia de Paul Celan é a que mais longe foi na radicalização da função verbal como forma de nos libertar da infâmia de um século em que os homens puderam enfim levar a cabo as suas mais profundas e odiosas aspirações. Mais do que um testemunho, ele forçou-se a atravessar a mudez, a superar as “grades da fala”, a dominar a língua alemã e envergonhá-la de todo o seu talento para dispor da morte a seu bel prazer.

Paul Antschel – depois Ancel, e, por fim, Celan, um anagrama adoptado em 1947, quando os seus primeiros poemas apareceram numa revista romena – nasceu em Czernowitz, em 1920, no seio de uma família judia de língua alemã. Até à queda do império dos Habsburgos, em 1918, a cidade fora a capital da província de Bucóvina, mas à altura integrava o território da Roménia. Antes de Celan fazer 20 anos, viria a ser anexada pela União Soviética. Aquela cidade onde cresceu alimentava-se de todas as civilizações do cadinho austro-romeno-judaico-russo-ruteno, estando no centro de uma região cujas fronteiras eram apagadas e redesenhadas como se houvessem sido traçadas a lápis, e esse ambiente em que se cruzavam influências tão diversas fez de Czernowitz um importante e efervescente centro literário, onde as pessoas e os livros não se estranhavam. Após frequentar uma escola primária hebraica, Celan estudou nos liceus romenos, onde teve aulas de italiano, latim e grego, e onde viu encorajado o seu interesse pelos clássicos da literatura alemã. A 9 de novembro de 1938, a data hoje conhecida como a Noite dos Cristais, estava a caminho de França, onde se preparava para iniciar o curso de medicina, em Tours. O comboio onde seguia passou por Berlim quando decorriam as cenas de violência contra os judeus, e, mais tarde, viria a escrever que quando deu pelo fumo que subia aos céus se deu conta de que este “já pertencia ao amanhã”. No ano seguinte, Celan regressaria à sua cidade-natal, trocando o curso de medicina pelo estudo de línguas românicas. A 6 de julho de 1941, as tropas nazis invadiram a região, e fizeram arder em chamas a Grande Sinagoga da cidade, tendo morto 700 judeus nos três dias que se seguiram, e três mil até ao final de agosto. Em outubro, foi criado um gueto onde alguns judeus puderam permanecer enquanto outros eram deportados. No verão do ano seguinte chegou a vez dos pais de Celan serem enviados para um campo de concentração em Transnistria, onde, pouco depois, o pai viria a sucumbir de tifo e a mãe foi morta com um tiro no pescoço. Celan havia já escrito os primeiros poemas antes da Guerra, mas datam da altura em que recebeu a notícia da morte violenta da mãe, no inverno de 1943, os primeiros versos que soam a esse horror que o faz bater a essa porta depois de obrigar a língua alemã a envergar o traje do seu silêncio, conduzindo a casa sílaba a sílaba, para indagar: “Porta de orvalho, quem te tirou dos gonzos?/ A minha suave mãe já não pode voltar.” Se antes havia uma vertente hínica no canto alemão, uma música tão esperançosa e vital, se Goethe emprestou ao homem um sentido de admiração profunda por si mesmo, se Rilke trouxe de volta um profundo e exaltante sentimento religioso, Celan impôs que, de ora em diante, não se pudesse encarar a História sem ser através de um olho consumido por lágrimas: “A lágrima, meia,/ a lente mais nítida, móvel,/ vai buscar as imagens.”

Por uns tempos, Celan conseguiu evitar a detenção antes de ser também ele enviado para um campo de trabalhos forçados no sul da Moldávia, onde ele e outros passavam os dias a escavar, participando na construção de estradas. Em fevereiro de 1944 esse campo foi dissolvido, e o poeta regressou à Bucóvina, que foi novamente ocupada pelas forças soviéticas e anexada à Ucrânia. Após o fim da Guerra, viveu por uns tempos em Bucareste onde arranjou trabalho numa editora como leitor e tradutor de textos russos para o romeno. Viria a conseguir deixar a Roménia e entrou ilegalmente em Viena, onde não passou mais do que uns meses antes de assentar finalmente em Paris, retomando os estudos.

Ainda que tenha sempre escrito na língua dos seus pais, a sua lealdade não era propriamente à língua alemã, mas à linguagem, entendendo, de resto, que é apenas na expressão poética que se alcança a “inelutável unicidade da língua”. “Só uma coisa permaneceu ao nosso alcance, próxima e até mesmo segura entre tantas perdas: a linguagem”, escreveu certa vez. Ao mesmo tempo que acreditava que não podia realmente chegar à verdade se abdicasse da sua língua-mãe, tendo afirmado que um poeta ao escrever numa língua estrangeira já está a mentir, entendia que a alemã já não podia ir ao encontro da poesia como tantos esperavam que acontecesse. Celan entendia que esta língua ficara suja à conta da propaganda nazi, do discurso de ódio, dos eufemismos… Tornara-se mais sóbria, mais factual, estava cheia de suspeitas e tinha até passado a desconfiar da beleza. Mesmo quando tentava ser verdadeira e ir ao encontro da realidade, esta simplesmente não estava ali, não se deixava chamar, e tinha agora de ser buscada e conquistada de novo. Para que os poetas de língua alemã pudessem voltar a escrever, teriam primeiro de confrontar este idioma com a sua falta de respostas, ir até ao fundo do silêncio mais lancinante, mergulhando “na infindável treva de um discurso assassino”. Celan empenhou-se em lavar a linguagem, decompondo-a, estilhaçando-a, levando-a muitas vezes de volta às raízes, servindo-se de  aglutinações, neologismos, criando uma estranheza radical na expressão e tom, como se lhe rasgasse a pele e procurasse nas entranhas algo que parecesse alheio ao pesadelo que fora possível induzir através dela. E nessa busca, além do fascínio por dicionários, especialmente os etimológicos, virou-se para campos como o da botânica, ornitologia, geologia e mineralogia, tentando reparar e reaver a língua alemã depois de Auschwitz. Num dos seus poucos textos em prosa, diz-nos que sempre exerceram maior fascínio sobre “as palavras singelas”, acreditando que, “se chamasse as coisas pelo seu nome, conseguiria abalar os seus alicerces”. Diz-nos que foi necessário um intenso luto antes que pudesse dominar a razão, “ser restituído às palavras, e, por conseguinte, às coisas, às criaturas e aos acontecimentos, o seu verdadeiro sentido”. Para não ser engolido pelo enredo de falsidade, Celan buscou regressar a uma ingenuidade incondicional. “Eu via esta ingenuidade como uma visão, original e purificada, da escória de séculos de velhas mentiras sobre este mundo.” Além dos aspectos linguísticos que sobressaem na sua poesia, na fase mais tardia esta incorpora elementos da gíria, expressões de outras línguas, sons inarticulados, e reveste-se de toda a carga de hesitação, dos hiatos e incertezas, pondera, avança, recua, risca, “exsuda/ resina, não quer/ cicatrizar”, e vai tentando inscrever a forma como as sombras impedem a voz de cobrir uma distância que não há. Às tantas, Celan parecia estar mais empenhado em que os seus poemas fossem lugares de absoluta suspensão para que o inesperado e o imprevisível ali se acolhessem. O tom da invectiva foi-se tornando cada vez mais proeminente, e embora se tenha provado que nada nos seus poemas foi deixado ao acaso (“Nada foi ganho aos dados.”), a riqueza e o poder das suas alusões, muitas delas bastante crípticas, alimentou a sanha daqueles que pretendem montar em volta de qualquer obra mais significativa um regime arqueológico e trazer à tona todos os seus segredos. E se os comentários que acompanham a edição definitiva em alemão da poesia de Celan ocupam centenas de páginas, o que é realmente decisivo nesta poesia furta-se às conjecturas ou sínteses escolares, exigindo que o sentido dos poemas se depreenda de forma intuitiva, obrigando o leitor a um percurso interior, a ler uma e outra vez os mesmos versos (“rumo aos claros, poderosos/ germes do mar/ em uníssono”), afinando a percepção para que possa superar o que primeiro surge no seu aspecto paradoxal, mas que, depois, em vez de ceder, em vez de ser dissolvido nas análises dos especialistas, acaba por impor uma frequência que se dirige à alma. “Tudo é diferente do que pensas, do que penso,/ todavia drapeja uma bandeira,/ os pequenos segredos ainda estão guardados,/ todavia deitam sombras, disso/ vives tu, vivo eu, vivemos nós.” Por esta razão é que Celan ficava tão consternado sempre que a crítica descrevia a sua poesia como hermética, incitando os leitores a deixarem de forçar os seus livros a umas quantas ideias centrais, incitando-os a continuarem a ler até que se produzisse esse encontro irrepetível. Via os poemas como dádivas que são confiadas àqueles que lhes entregam toda a sua atenção, e serviu-se da definição do filósofo francês do século XVII Nicolas Malebranche para nos lembrar que “a atenção é a prece natural da alma”. É esta densidade, esta vertigem que se cria sempre que nos permitimos afundar nas coisas, que mais se liga a uma sensibilidade religiosa, sendo certo que tanto a poesia como a oração se serve de palavras e frases, do embalo íntimo, repetitivo, cantante, dessa incitação de si mesmo e que permite alcançar uma percepção mais aguda. Assim, não se trata tanto de encurralar o sentido de um poema até este se render e permitir toda a ordem de paráfrases, mas o importante é alcançar essa ordem de tal modo delicada que o próprio sentido discorre entre todas as coisas. Nos seus poemas, Celan busca esse estado de vigília através de palavras que parecem na verdade estar elas mesmas à escuta, e não sem um certo temor, palavras que parecem recear algo mais fundo do que elas conseguem reter, algo que está para além das palavras.

Tendo isto em conta, a tarefa de traduzir de forma integral a obra poética de Celan, mais do que temerária, é uma ambição que raia a insânia, sendo que, em todo o mundo, muito poucos tradutores sequer se propuseram a isso, havendo tantos exemplos de traduções de poemas que são abandonadas uma vez que aquele “desesperado diálogo” que Celan cultivou consegue levar ao exaspero mesmo o mais empenhado dos tradutores. O luto através do qual Celan procurou revolver e indispor a língua alemã, à qual chegou a referir-se como “a língua dos carrascos”, dificilmente poderia aceitar que aquela paisagem de túmulos fosse transladada para um outro horizonte linguístico, sendo que o investimento nessa refundação idiomática só poderia ser operado em condições igualmente aviltantes para os falantes da língua de chegada. E se António Guerreiro apontou já alguns exemplos de inequívocos erros de natureza filológica e que demonstram que Maria Teresa Dias Furtado terá passado ao lado de alguns dos pontos que foram já longamente debatidos pela crítica, sendo certo que nenhuma tradução conseguirá abranger a multiplicidade de sentidos num autor tão ambíguo como Celan, cabe ao tradutor escolher uma interpretação, criar o seu próprio enredo, disparando para “o fundo do qual se tece a espuma para a eternidade”. E se a notícia de que uma edição integral da obra poética de Celan nos deveria sempre levar a sentir as maiores reservas em relação a esse empreendimento, depois de ler as versões que agora nos são propostas torna-se difícil não se ser tomado de um certo deslumbramento que nos força a defender o evidente empenho com que a tradutora, podendo embora ter prescindido de levar a cabo todas as perícias necessárias para render versões absolutamente fiáveis, consegue dar-nos a ler poemas na nossa língua que reproduzem o ritmo e o espantoso enlevo musical que se reconhece a esta obra no original. Em vez de se focar de forma obstinada no significado ou mesmo na textura dos poemas, o que certamente haveria de garantir o fracasso deste trabalho, Maria Teresa Dias Furtado parece ter-se dedicado mais a ser leal àquela cadência de um poeta que fez tudo o que estava ao seu alcance para regressar a casa: “Aproxima-te da tua casa,/ aparelha o teu desbotado sonho,/ faz os cascos falar/ para a neve que sopras/ do cume da minha alma”. Lidos em voz alta, estes poemas desencadeiam uma impressão fortíssima, trazem-nos aquela disposição de uma fala que sangra dos lábios, um rumor de tudo o que se evitou para alcançar essa palavra “sobrevoada por estrelas,/ sobre a qual se verteu o mar”. “A palavra de ir-ao-fundo”…“Uma palavra à semelhança do silêncio,/ rodeada de arbustos de reflexivo e cuidado verde”. Não se vira estas páginas sem se ficar preso em tantos espinhos, sem se sentir entre os lábios aquele fôlego magoado de quem vem do encontro com a flor que serve de coração ao escuro. Estes são poemas que nos cerram os olhos, que fazem com que tudo o que vimos se despeça e seja ouvido como mar que produz esse sentido onde o mundo mais nos acontece. Traz-se este livro para casa como aquele hóspede de que fala um dos poemas: “Muito antes do anoitecer/ entra em tua casa aquele que saudou o escuro./ Muito antes do amanhecer/ ele acorda/ e, antes de sair, atiça um sono,/ um sono perpassado pelo som de passos:/ ouve-lo medir as distâncias/ e para lá lanças a tua alma.”

A experiência de se ler poesia como quem vai urdindo uma prece capaz de escutar a vida inteira é o que se recupera ao ler este livro. Por uma vez, um calhamaço destes que a Assírio & Alvim nos obriga a suportar de modo a que outros possam compor as suas estantes, por uma vez o seu peso parece justificar o mau jeito de ter de se abrir o livro apoiando-se na mesa, debruçando-se nos versos para ler “o arroz que ensinava ás florestas o caminho”. É um livro de horas, de passos muito contados, cercando a última “rosa lá na terra”, que “também quer ser alimentada hoje à noite”. Sente-se que sobre cada um destes versos pesou um juízo exigente, afinando a voz. Lemos tantos destes poemas como salmos onde a treva penetrou e tornou Deus a maior distância conhecida para aqueles que em tempos esperaram algum tipo de revelação. Há aqui elementos prodigiosamente blasfemos, um desejo de nos libertar “do Amém que nos atordoa”, e tantas vezes a sensação de que a palavra adquire uma tonalidade de tal modo rara que se afunda em nós como um cadáver na terra. E mesmo nos momentos mais desconfortantes, poderia falar deste poeta como essa presença que ele faz gravitar no poema “Aqui”: “Atirou-me o seu copo à testa/ e veio,/ passado um ano,/ beijar a cicatriz./ Proclamou a maldição e a bênção/ e desde então nada voltou a proclamar.” O poema abre com um verso longo e que se sente como um dedo na pele: “Aqui – quer dizer aqui, onde a flor de cerejeira pretende ser mais negra do que ali.”

Celan viria a pôr fim à vida desaparecendo de noite nas águas do Sena, no mês de Abril de 1970, sendo que, no entender de Claudio Magris, ele havia resumido em si um século da poesia europeia, essa que nasce da ruptura entre o indivíduo e a realidade, que se vê forçada a reconhecer a impossibilidade de resgatar o antigo sonho de uma harmonia em comum e que pudesse restituir-nos ao mundo, acabando por se degradar na representação do seu próprio martírio. Tendo vivido a sua dilaceração e o extermínio como um mal absoluto, é provavelmente o último poeta órfico, alguém que nunca pôde renegar a sua profunda sensibilidade religiosa, e que teve de lidar com a experiência de se ter visto abandonado por Deus juntamente com aqueles que mais amava. Assim, a negação e a blasfémia foram os meios ao seu alcance para ser fiel a essa experiência sem deixar de manter esse íntimo diálogo com Deus que é característico da tradição judaica.

Há um imperativo que surge cedo nesta poesia: “conta o que foi amargo e te manteve desperto”. Nos versos de Celan, “a cicatriz do tempo/ abre-se”, “sobe a temperatura no mundo/ e os mortos/ desabrocham e florescem”. Esse aroma que persiste no tempo é o verdadeiro enigma da poesia, essa espécie de cristal que segura um reflexo mesmo quando aquele que se pôs diante dele se ausentou. Esta é a vertigem própria daqueles que aprendem a esperar uns pelos outros, muitas vezes para lá do tempo que lhes é dado viver, para lá dos dias que nos foi possível aguentar. Entre as grades, restam amarrados pequenos sinais, e é possível recuar ou adiantar-se, colher os frutos “de um bosque distante, enegrecido pelo sonho” e que “sopra até nós o que foi exalado”. Ali, “o que se perdeu circula, grande como os esquemas do futuro”. O poeta reconhece como “certas palavras, não chegando ao coração de ninguém, guardam”.

“A poesia de Celan é uma poesia órfica extrema”, lembra Magris, “um canto que desce ao fundo da noite e ao reino dos mortos, que mergulha num murmúrio indistinto da vida e infringe todas as formas, linguísticas ou sociais, para descobrir a palavra mágica e secreta capaz de abrir a prisão da História. Na mais alta trajectória da poesia moderna, o poeta quer ser um redentor, assumir sobre os seus ombros o mal da existência e redescobrir os verdadeiros nomes das coisas, apagados pela linguagem falsa da comunicação. Na rede inextricável de mediações que envolvem o indivíduo, o poeta é uma criatura anómala, que se recusa a fazer toca nas pregas da rede e se debate para a rasgar e atingir assim o fundo do ser, escondido pela rede.”

Não têm sido poucos os críticos que entendem que a sintaxe fracturada da fase tardia da obra de Celan reflecte a progressiva desestabilização do seu estado mental. A obstrução da linguagem, o registo agonizante de quem, a partir de certo ponto, quis separar “rigorosamente a poesia da música”, sinaliza um desejo de carregar nas sombras e acusar o mundo, mas também exprime a sensação de se estar a ser consumido pela sua consciência, “empurrado no corredor da loucura”, à medida que uma tendência paranoica se vai apoderando dele. De outro modo a maníaca e injuriosa acusação de plágio que moveu contra Celan a viúva do poeta Yvan Goll não o poderia ter magoado tão profundamente, nem as controvérsias em que se envolveu com colegas e críticos o teriam fragilizado ao ponto de o deixar desesperado não fosse pelo receio quanto ao recrudescer do anti-semitismo. O certo é que uma denúncia tão veemente contra a sua época não poderia deixar de cobrar um preço, e mesmo se atribuía à poesia a capacidade de o manter ligado aos homens (“Escrevo para permanecer humano”), o suicídio foi uma forma de se libertar da forma “como se abre o mundo para nós, atravessando-nos ao meio”. Estar vigilante é também ser mais susceptível e ver “o veneno florir” em qualquer palavra e figura. Celan levou o mais longe que pode a sua “estrela rastejante”, mas nos últimos anos foi repetidas vezes internado devido a distúrbios psiquiátricos, chegando a passar meses nas clínicas. A um amigo que o visitou nesses dias, disse: “Já não são precisos muros, nem é necessário o arame farpado dos campos de concentração. Agora a reclusão é química.” Os estilhaços de mundos tinham atravessado a linguagem, e naquele seu “íngreme sentimento/ escavado”, Celan ouvia, “ligados ao fio do coração, os/ diálogos dos vermes”.

Afogou-se no Sena, talvez quando chegou aquela hora em que tudo resiste apenas como uma imagem reflectida de algo que já não se encontra diante dela: “Ilegibilidade deste/ mundo Tudo duplicado.// Os relógios fortes/ dão razão à hora da fractura,/ roucamente.// Tu, entalado no mais fundo de ti mesmo,/ sais de ti/ para sempre” (neste caso ficamos melhor servidos com a tradução de João Barrento e Y.K. Centeno). Seja como for, a morte fixa ainda um último reflexo nessa hora em que as lâminas reluzem: “quem, ao morrer, não se demorou diante dos espelhos?” Há um desejo de se resgatar o seu reflexo entre as coisas deste mundo quando se suspeita que tudo ao redor é uma trama com vista a fazê-lo apagar-se. O mundo é tantas vezes essa trama que, com cada uma das suas ilusões, apenas parece querer adiar todos as promessas. “Vocês moem nos moinhos da morte a branca farinha da promessa,/ e apresentam-na aos nossos irmãos e irmãs”. Assim, não é no espelho que um homem deve contemplar-se, mas no papel, onde a linguagem dá os nós e solta os ecos que vão evoluindo e estabelecendo uma simetria profunda com a intimidade de quem tem a paciência de transcrever e dominar os signos através dos quais expressa a sua estranheza. O poeta é aquele que cria o seu espelho a partir de cacos, vê o que virá ao colocar a “boca no espelho oculto”, e nos aconselha: “estendei uns aos outros o escuro”.

Mas este pacto carrega um risco, esta forma de atenção aos detalhes, de decifração, torna um homem propenso a perturbações, a sentir a cronologia dissolver-se, a dar por si numa rua acossado pelos rostos de loucos, de criminosos por vezes, rostos nem conhecidos nem inteiramente estranhos. Reduzido ao desamparo absoluto, um homem acaba a travar dispersamente os seus combates, em busca dos seus companheiros. “Que mais?/ Meios e quartos/ aliados/ dos vencidos. Riquezas da/ língua/ perdido-amargurada.” No fim, restam as palavras que, sobre o deserto cinza-negro, ainda poderão erguer um pensamento da altura de uma árvore, capaz de alcançar o timbre da luz, diz-nos Celan. E reforça: “Ainda há/ canções por cantar para além/ dos homens.”

 

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