Sociedade

O pára-arranca da discórdia da ciclovia na Almirante Reis.

Meses após a retirada da proposta de Carlos Moedas de remover a ciclovia da Avenida Almirante Reis, as opiniões dividem-se: por um lado, comerciantes, moradores e taxistas criticam e pedem mais precaução aos que por ali passam; por outro, estão aqueles que acreditam que esta foi uma obra que tornou a Avenida mais verde e segura.


por Sara Porto, com Luís Machado e Rafaela Silva

Está frio. O sol está a pôr-se e já não deve faltar muito tempo para que as luzes dos candeeiros públicos iluminem a Avenida Almirante Reis. Estamos na hora de ponta. Nos passeios, as pessoas apressam-se como quem anseia chegar a casa depois de um dia de trabalho. As esplanadas estão cheias, as estradas também. O trânsito está parado, como em todos os dias a esta mesma hora. Em 15 minutos, passam 10 ambulâncias em marcha de urgência ocupando o espaço destinado a bicicletas e trotinetes e obrigando os veículos a ceder a passagem. Sem ser isso, quem a ocupa pedala com um saco amarelo de entregas de comida ao domicílio.

Num café, três pessoas discutem o cenário: “Não pense que isto acontece só a esta hora”, afirma um dos presentes. “Desde que meteram aqui esta porcaria, que é esta confusão o dia todo. Ruído, trânsito, acidentes. Constroem mal as coisas, prometem muitas outras, não cumprem nada”, exalta em alto e bom som, acrescentando que, hoje em dia, “as pessoas são muito pouco cívicas”, tendo em conta os atropelamentos que têm acontecido por conta da “maior utilização de trotinetes e bicicletas”.

 

Promessas

A discussão sobre a ciclovia da Avenida Almirante Reis, em Lisboa, já é longa. Foi no verão de 2020, que o ainda presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina, apresentou o plano de criar uma ciclovia que acompanhasse toda a avenida. Já o atual presidente, Carlos Moedas, aquando da sua candidatura, prometia remover a mesma, tendo em conta a polémica gerada que acabou por separar moradores e comerciantes de ciclistas. “Foi por isso que ele ganhou as eleições”, acreditam uns. Porém, recentemente, a promessa ficou estagnada.

Em junho do ano passado, o presidente da Câmara de Lisboa, decidiu retirar a proposta para avançar com o projeto de alteração da ciclovia da Avenida Almirante Reis, por considerar que “o tema é demasiado relevante para jogos partidários”: “A mobilidade na cidade não pode, nem deve estar condicionada a uma única ciclovia. Foi isso que assumi desde a primeira hora. Continuo a acreditar que a solução que apresentei é a correta, mas neste caso é melhor para todos dar um passo ao lado para garantir uma prudente e uma fundamental serenidade nas discussões importantes para a cidade”, afirmou numa nota escrita enviada à Lusa pelo gabinete de comunicação.

Recorde-se que em maio de 2022, Carlos Moedas, além da proposta para que as obras na ciclovia avancem, entregou documentos de suporte à solução provisória para a Almirante Reis, apresentada no final de março, de “retirar metade da ciclovia no sentido ascendente e repor a segunda faixa para automóveis no sentido ascendente, colocando toda a ciclovia no sentido descendente”. A estimativa orçamental de construção civil e sinalização inclui esses dois cenários, um que custa 290 mil euros e outro cerca de 400 mil euros.

Nessa mesma proposta, Carlos Moedas considerava ser necessário “libertar o sentido ascendente, promover uma saída fluida do tráfego do centro para a periferia; instalar a ciclovia, bidirecional na faixa descendente, partilhada, não segregada, condicionar o acesso à baixa de tráfego excessivo e, em simultâneo, promover condições de segurança e conforto para os utilizadores e limitar toda a Avenida Almirante Reis a zona 30 (velocidade máxima de 30 quilómetros por hora)”.

Além disso, segundo o projeto de requalificação da ciclovia da Avenida Almirante Reis, a intervenção incluía ainda “alterações nos sentidos de tráfego junto ao mercado de Arroios”, o acréscimo de cerca de “60 lugares de estacionamento nesta zona” e “a eliminação do corredor ‘Bus’ da rua Carlos Mardel”.

 

Uma obra mal feita

Rosa Carvalho é gerente da Antiga Alameda Óptica que abriu portas em 1964, bem perto do café Império. A senhora não concorda com a ciclovia que atravessa um dos principais troços da capital, e garante que prejudicou o comércio local. “Nós aqui para o comércio, é só prejuízo… Não beneficiou nada”, refere. A gerente lembra ainda que, durante a campanha, Carlos Moedas marcou presença no seu estabelecimento: “A nós disse, antes das eleições, que era para retirar as ciclovias”. Atualmente, Rosa sente-se defraudada pela promessa não ter sido cumprida.

Um pouco mais abaixo, já nos Anjos, Carla Ventura, gerente de uma Ourivesaria, admite que a sua opinião sobre a ciclovia, tem-se alterado ao longo do tempo. “É diferente agora do que era de início, apesar de ainda existirem inúmeros problemas”, conta. “Assim que a construíram, achei péssimo. Era mesmo impossível. Com as alterações que foram feitas, a retirada daqueles pinos, a redução desse espaço, sinto que está melhor. Isso não significa que o caos não continue, mas pelo menos as ambulâncias (que são quem mais utiliza a ciclovia), têm margem para passar mais facilmente”, acredita, frisando que “é só para isso que tem servido a ciclovia”. “As bicicletas continuam a utilizar os passeios. Eu perco a conta dos acidentes que acontecem mesmo aqui à minha porta. As pessoas são simplesmente abalroadas”, garante. Por isso, para si, Carlos Moedas devia cumprir com a sua promessa. Tal como a ourives, um trabalhador e morador da avenida há mais de 20 anos, relata um dos acidentes que presenciou e que nem sempre têm como responsáveis os automobilistas: “Há coisa de três meses estava sinal vermelho para eles (ciclistas), foi a ultrapassar e bateu num carro”. Quanto ao fluxo de trânsito, conta que após a instalação das ciclovias (independentemente das alterações já realizadas), o trânsito piorou significativamente: “O trânsito virou uma porcaria, são congestionamentos a toda a hora”, consequência da diminuição das faixas de rodagem, ficando apenas com uma, em ambos os sentidos.

E Hermínio Batista, morador da Avenida há 52 anos, vai mais longe: “É muito prejudicial para o trânsito, tanto num lado como no outro. Numa avenida principal como esta sou completamente contra a ciclovia. Esta e todas as que causem estes transtornos”, confidencia. “Foi prometido por este atual presidente da Câmara que acabava com isto. Até ao momento nada. De promessas estou eu muito cheio e já o mundo farto. É uma pouca vergonha”, lamenta, sublinhando o ruído que não pára.

“É de manhã à noite. Eu vivo aqui há 52 anos, só sinto estas coisas desde que há ciclovia. Sou contra e gostava que o senhor Carlos Moedas percebe-se isso”, afirma Hermínio Batista.

Na rua um taxista acaba de deixar dois clientes num hotel. Marco exerce a profissão há duas décadas e, de há uns anos para cá, evita passar na Avenida Almirante Reis devido ao elevado trânsito que não existia antes das ciclovias. “É a mesma coisa que viver num T2 e ir para um T1, com a mesma mobília do T2. Andamos todos apertadinhos”, ilustra Marco. Para conseguir ir de uma ponta a outra da avenida, se antes se fazia em 15 minutos, neste momento, há dias em que os automobilistas demoram 45 minutos.

Para os trabalhadores e moradores da zona, uma possível solução passaria por retirar as ciclovias do centro da Avenida e instalá-las juntas aos passeios, sem retirar espaço à estrada.

Uma necessidade Se por um lado as vozes da oposição à ciclovia da Avenida Almirante Reis se fazem ouvir, por outro, estão aquelas que a defendem, inclusive criaram e assinaram uma petição, que durante sete semanas – de 19 de outubro a 2 de dezembro de 2022 – reuniu 3 000 assinaturas e o apoio de 50 organizações, para manter a ciclovia.

Para Kesenia Asharafullina, promotora e assinante da petição, as vantagens em manter a ciclovia são claras: melhoramento da qualidade do ar e a “facilidade de as pessoas poderem atravessar a cidade”, uma vez que a Avenida “é um troço que liga todos os bairros de Lisboa ao rio”.

“Este é o canal mais direto e com menos declive para ligar à baixa. É um eixo fundamental para promover a utilização da bicicleta na cidade de Lisboa”, acrescenta Mário Meireles, vice presidente da Federação Portuguesa de Cicloturismo e Utilizadores de Bicicleta (FPCUB).

Ao contrário dos comerciantes, Kesenia e Mário acreditam que a ciclovia veio contribuir para a segurança quer dos peões, quer dos ciclistas e automobilistas. A promotora explica que, antes da sua construção, os ciclistas ou optavam por andar no passeio, o que complicava a situação com os peões, nomeadamente os mais idosos, ou no meio da estrada, que poderia ser prejudicial uma vez que a probabilidade de embate com os veículos era maior. Os mesmos riscos corriam as pessoas de mobilidade reduzida.

“Hoje a ciclovia da Almirante Reis está melhor do que estava inicialmente, e não são os utilizadores da bicicleta a dizer isto, são as autoridades de emergência que também já o disseram. Bombeiros e Polícia evidenciaram que o desenho atual da ciclovia permitiu ganhos efetivos nos tempos de socorro. Hoje uma ambulância sai e entra mais depressa do quartel da Almirante Reis, do que saía antes da ciclovia existir. E isso pode fazer a diferença entre salvar ou não uma pessoa”, contou o ciclista. “Repare-se que com a existência da ciclovia conseguimos minimizar o risco de sinistro, conseguimos fazer com que um pai e uma mãe acompanhem os filhos nas pedaladas, conseguimos até convidar pessoas que têm medo de andar de bicicleta com carros, a fazê-lo. E isso não era possível antes da existência da ciclovia na Almirante Reis”, garante, acrescentando que aos ganhos em termos de tempo de deslocação, “podemos sempre associar os ganhos de produtividade e de atenção da pessoa que se desloca de forma ativa”.

Segundo Mário Meireles, nunca se conseguirá agradar a todos, e, perante as evidências, parece mais do que certo que a Av. Almirante Reis “não perderá a ciclovia”, sendo fundamental “garantir que se acalme o tráfego e que se garanta o cumprimento dos limites de velocidade, quer nesta Avenida, quer em toda a cidade de Lisboa”. “Importante agora é continuar a trabalhar no redesenho das restantes ruas e avenidas da cidade para unir as ciclovias, criar rede ciclável e assim conseguir contribuir para a descarbonização da cidade, melhorar o espaço público e permitir às pessoas terem qualidade de vida em Lisboa”, afirma o vice-presidente da FPCUB.

Tal como explicou, com a construção da faixa para a ciclovia, os veículos de emergência conseguem agora chegar, em média, dois minutos mais cedo a quem precisa, o que pode ser crucial numa situação de risco. Segundo o parecer publicado pelo Regimento de Sapadores de Bombeiros (RSB) “os meios de socorro, nunca ficam retidos no trânsito pois utilizam as ciclovias”.

Diogo Machado, médico anestesista e assinante, reitera ainda que este “é um projeto mítico”, uma vez que esta ciclovia foi desenhada, e posteriormente já alterada, de modo a que os veículos de emergência pudessem circular com mais facilidade.

De acordo com o mesmo parecer publicado pelo RSB, a ciclovia contribuiu de facto para os meios de socorro chegarem mais depressa, embora alertem para os “conflitos entre ciclistas, e entre ciclistas e peões”.

Quanto à mudança de Carlos Moedas, que durante a sua campanha era contra a ciclovia, e agora retira de cima da mesa o projeto, Kesenia Asharafullina e Diogo Machado estão de acordo: a atitude é de humildade. O médico acrescenta ainda que foram os dados a que o presidente da câmara teve acesso, o ouvir as pessoas e as deslocações ao local, que o fizeram perceber a importância da ciclovia da Avenida Almirante Reis.

Recorde-se que em maio de 2022 parte da ciclovia, na zona da Alameda, já tinha sido retirada, tendo sido reposta posteriormente.

 

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