Cavaco ‘afasta’ Rio, Marcelo e Santana

«Domínio da política externa». Esta é, para Cavaco Silva, uma das «principais funções» do Presidente da República e pré-requisito fundamental para quem lhe queira suceder no Palácio de Belém.

Cavaco ‘afasta’ Rio, Marcelo e Santana

O Presidente é exigente nas qualidades que considera essenciais para o seu sucessor. De fora, ficam os que não têm currículo internacional e conhecimentos em áreas que vão dos assuntos políticos, económicos e sociais aos culturais e ambientais. E os que não forem capazes de falar a uma só voz com o próximo Governo.

 

O perfil fica traçado no prefácio do seu Roteiros IX e deixa de fora candidatos a sucessores de Cavaco como Rui Rio, Marcelo Rebelo de Sousa e Pedro Santana Lopes. É que nenhum deles tem o currículo internacional ou a experiência de política externa necessárias para estar à altura daquele que Cavaco considera ser o papel fundamental do Presidente da República.

 

No excerto do livro já disponível no site oficial da Presidência, Cavaco puxa mesmo dos galões do seu próprio currículo para explicar a importância que essa experiência teve num mandato que ficou marcado pelo programa de assistência financeira e pela necessidade de encontrar novos mercados para a economia portuguesa.

 

Sem o dizer directamente, Cavaco Silva desenha nas entrelinhas um retrato para o seu sucessor onde encaixam bem nomes como António Vitorino, ex-Comissário Europeu, António Guterres, Alto Comissário das Nações Unidas, e Durão Barroso, ex-Presidente da Comissão Europeia e antigo ministro dos Negócios Estrangeiros.

 

«Para além do conhecimento das regras básicas e especificidades que enformam o relacionamento entre Estados e da situação portuguesa nas suas múltiplas vertentes, o Presidente da República tem de ser capaz de dominar em toda a sua complexidade as relações bilaterais com os países com quem interage», diz o Presidente, que elenca os temas que o seu sucessor deve dominar, numa longa lista que inclui «os assuntos políticos, económicos, sociais, militares, científicos, culturais e ambientais, assim como as questões de política europeia».

 

No prefácio do último dos seus Roteiros, Cavaco explica como «a globalização dos mercados» e a «intensificação da diplomacia económica», bem como as condicionantes geradas pelo programa de ajustamento financeiro, fizeram com que as capacidades do Presidente na política internacional se tornassem imprescindíveis para assumir o cargo.

 

No seu caso, Cavaco considera que o seu próprio currículo político lhe deu as ferramentas para estar à altura do papel.

 

«Antes de assumir as funções de Presidente da República, participei activamente na construção da União Monetária Europeia e debrucei-me, em profundidade, sobre a sua dinâmica, tendo proferido múltiplas conferências no País e no estrangeiro, e até mesmo publicado dois livros», sublinha o Presidente, que logo conclui ter estado à altura do desafio.

 

«Estava em condições para, nos contactos internacionais, me pronunciar sobre as questões de política europeia e a crise do euro, defendendo as orientações que mais se adequavam aos interesses nacionais», escreve.

 

Cavaco Silva considera, no entanto, que não basta ter um Presidente bem preparado para lidar com os chefes de Estado estrangeiros. É preciso que o próximo inquilino de Belém esteja bem concertado com o Governo que sair das próximas legislativas.

 

«Nas suas linhas essenciais, a voz de Portugal, em matéria de política externa, deve ser a mesma, seja ela expressa pelo Presidente da República, pelo Primeiro-Ministro ou por outros membros do Governo», defende Cavaco Silva.

margarida.davim@sol.pt