Políticos chocados com a Justiça

António Campos fala numa ‘derrota monumental para a democracia’. Guilherme Silva diz que este processo é ‘desastroso para a credibilidade da Justiça’.

Os principais atores da política nacional reagiram com silêncio ou preocupação à decisão instrutória do juiz Ivo Rosa. Mas o sentimento geral nos ‘bastidores’, de Belém a S. Bento, é a de que as consequências deste processo Marquês para a Justiça portuguesa podem ser devastadoras e obrigam a uma profunda reflexão.

«Isto é uma bomba atómica». Foi desta forma que o histórico do PS António Campos reagiu, em declarações ao Nascer do SOL,  poucos minutos depois da leitura da decisão de Ivo Rosa.

Crítico da atuação do Ministério Público neste processo desde o início, Campos nunca se demarcou de Sócrates, ao contrário de muitos socialistas, e considera que estamos perante «uma derrota monumental para a democracia e para a Justiça, porque nunca mais ninguém acredita na Justiça e sem justiça não há democracia».

Guilherme Silva, ex-vice-presidente da Assembleia da República, começa por alertar que «há muito tempo que a nossa estrutura processual penal com esta figura da instrução está perfeitamente inadequada e permite situações como esta». O antigo deputado do PSD lamenta a demora na reforma da Justiça e alerta que os portugueses não compreendem situações como esta. «Tudo isto é desastroso. É desastroso para a credibilidade da Justiça em Portugal e desastroso para a credibilidade dos políticos, porque revela que os responsáveis pelas reformas têm aqui uma omissão gravíssima. Infelizmente, aquilo a que estamos a assistir é um rombo na República e uma página negra da nossa vida pública».

António Capucho, outro histórico do PSD, também viu nesta decisão «uma profunda machadada na já baixa credibilidade da Justiça em Portugal». O antigo líder parlamentar do PSD desabafou, na sua página do facebook, que «tais decisões» só favorecem o populismo, porque o Chega «vai explorar demagogicamente e em seu favor este enorme escândalo».

 

‘O povo está indignado’

Não foi preciso muito tempo para que os partidos políticos reagissem à decisão a que o país assistiu em direto pelas televisões. Francisco Rodrigues dos Santos, presidente do CDS, considera que, «o povo não entende esta decisão e está indignado com razão», porque «os valores éticos e morais de um governante não prescrevem».

Rodrigues dos Santos afirmou que o sistema judicial mostrou que está doente. «Das duas uma: ou a acusação não é infundada e nesse caso não se admite que a culpa morra solteira, ou é infundada e as proporções que o caso tomou são inaceitáveis», disse o líder dos centristas, garantindo que o CDS «vai empenhar-se em tornar o sistema judicial rápido, previsível, forte com os fortes, em que as regras sejam respeitadas e onde a culpa não morra solteira».

A Iniciativa Liberal defendeu, em comunicado, que «a democracia ficou hoje mais frágil» depois da decisão em relação ao processo da Operação Marquês. O  partido liderado por João Cotrim Figueiredo considera que a justiça falhou se Sócrates «é culpado», mas também falhou no caso de ser inocente.  

 

‘Uma das maiores vergonhas’

André Ventura também foi dos primeiros a reagir para classificar este caso como uma vergonha nacional. «A Justiça passou hoje por uma das suas maiores vergonhas. É inacreditável a forma leve como se apagaram comportamentos e se ignoraram circuitos financeiros de milhões, criando um sentimento se enorme impunidade. O que sinto é revolta e frustração», disse ao Nascer do SOL.

Rui Rio preferiu não tomar uma posição imediata. O_PSD só o fará depois de reunir de uma reunião da Comissão Permanente para analisar este caso que acontecerá no próximo sábado.

À esquerda, Catarina Martins defendeu que este processo mostra que é preciso avançar com a  criação de um novo crime de enriquecimento ilícito.