‘Desenho como respiro’

Desenha em cadernos de bolso desde sempre. Seja num aeroporto, numa esplanada ou numa comissão parlamentar. Sérgio Sousa Pinto lançou o livro Fui Tão Feliz com a Minha Thompson. ‘Isto é quase um diário’, diz o deputado.

O gosto pelo desenho vem-lhe desde os tempos de infância. Tendo mesmo levado uma professora do Jardim Infantil Pestalozzi a aconselhar os pais de Sérgio Sousa Pinto a consultarem uma metodóloga, porque o rapaz tinha muito jeito. «Acabei por ir parar ao ateliê da Cecília Menano», conta ao Nascer do SOL. Desse tempo, guarda os ‘bonecos’ que fez durante o PREC, onde os mísseis estavam sempre no papel, além de tanques com cravos. Se não seguiu Arquitetura, optando pelas humanísticas, a política entrou na sua vida bem cedo, tendo chegado a líder da Juventude Socialista, acabando depois por entrar na Assembleia da República aos 27 anos e já com muitos cadernos de bolso pretos e pequenos cheios de desenhos. Mas a vida acabaria por o levar ao Parlamento Europeu, onde fez dois mandatos, e com tempo livre fez dois cursos, um no Institut Sain-Luc e outro na École des Arts Visuels de La Cambre. «Na minha admissão a La Cambre fiz uns desenhos. Estive uma semana a desenhar num ateliê, fizeram-me duas entrevistas sobre cultura artística e cultura geral onde tive 98%», diz ao Nascer do SOL. E foi durante a sua estadia em Bruxelas que desenhou a maior parte dos ‘bonecos’ que entram no livro. «Foi uma altura em que passava muito tempo sozinho e muito tempo em viagens». 

Os cursos que fez em Bruxelas – frequentou também a SNBA e a ESBAL, em Portugal – ajudaram-no a aperfeiçoar o desenho, e o resultado foi mostrado ao público esta semana com o lançamento do livro Fui Tão Feliz com a Minha Thompson. «Este livro nasce da obstinação e do entusiasmo do Alexandre Vasconcelos e Sá e José Araújo, da Avenida da liberdade, Editores. É difícil dizer não a estes dois, e à Avenida da Liberdade, uma editora que não quer ser redundante em relação ao que existe, e que tem como linha editorial publicar o que lhe apetece», escreve na introdução do livro.   

Por um livro de desenhos ser caro, Sérgio Sousa Pinto optou por dar os direitos de autor à editora. «Um livro de desenhos é um livro caríssimo e achei o projeto deles uma aventura, muito aventuroso. E cedi logo os direitos de autor». Sousa Pinto entregou dezenas de livros de bolso com os seus desenhos a João Catarino, que fez a escolha final. «Tenho um enorme respeito e admiração pelo João Catarino, gosto muito do que ele faz», disse ainda. «Isto é quase como um diário, só que em vez de ser escrito é registado graficamente. O desenho é mais íntimo do que a escrita», confessou.

Qual o desenho de que gosta mais no livro? Se é que consegue escolher…
Geralmente gosto dos desenhos em que pinto com pincel, tinta da china, sem lápis. Quase todos. Não faço primeiro um esboço a lápis e depois pinto. Desenho diretamente com tinta da China e depois o resultado é satisfatório, são esses que gosto mais. A maior parte dos desenhos são pintados diretamente no papel com tinta da china.

Oferece muitos desenhos?
Sim, quando me pedem. Querem um desenho, estou na Comissão, faço um e ofereço.

Durante a Comissão? Não tem medo de ser filmado?
Não. Consigo ouvir e desenhar. Desenho como respiro. Há quem faça rabiscos, há quem faça bolinhas nos cadernos, eu faço desenhos. É uma disciplina tão antiga que consigo quase desde os meus primeiros anos de vida. Acho graça ir à casa dos meus amigos e encontrar os meus desenhos nas paredes deles. Mas na Assembleia da República também as secretárias ou as senhoras da limpeza ficam com os desenhos que faço enquanto estou nas comissões parlamentares. Às vezes deixo-os em cima da secretária e depois as senhoras dizem-me que ficaram com eles.

Há uma célebre comparação futebolística entre o Messi e o Ronaldo. Do Messi diz-se que tem um talento que é inato, o Ronaldo trabalhou aquilo que sabe, o que é. Trabalhou e apostou apesar de lhe terem reconhecido talento para o desenho?
Sim, mas não desenho porque me disseram em novo que tinha talento. Desenho porque gosto. O que é preciso transmitir às pessoas é o gosto pelo desenho. A Paula Rego dizia que, a data altura, sentia que tinha que aprender a desenhar. Acho maravilhoso a Paula Rego ter dito isso porque a Paula Rego desenhava esplendorosamente. E reconhece que a dada altura tinha que aperfeiçoar os seus desenhos figurativos. E fê-lo. Desenhava maravilhosamente. Não acredito no talento sem trabalho. O que é específico nas atividades criativas é que nós trabalhamos sem sentirmos que estamos a trabalhar porque tudo é um prazer. A maior parte das pessoas tem trabalhos que não são para elas um prazer. A maior parte das pessoas nem sequer tem carreiras. A maior parte das pessoas o que tem são empregos. A dimensão criativa é essencial para podermos ser felizes. Haverá alguma forma de expressão mais simples e mais barata do que uma caneta e um papel?

Dá uma ideia de ser homem um zangado com a política. Então não faz uma coisa de que goste? Sente-se infeliz na política?
Não me sinto infeliz na política. Aconteceu-me aquilo para que estava fadado.

Sempre gostou de barulho para desenhar. 
A desenhar não me chateia nada o barulho, mas a escrever chateia-me. Mas desenhar não me chateia nada. É como se tivesse uma parte do cérebro que é completamente indiferente.