Crónica de uma impotência

O PSD caiu ingenuamente na armadilha das esquerdas. Envergonhado, complexado, com medo das críticas, o PSD entregou ao Chega a maioria das bandeiras da direita. E caiu no erro de dizer que não fará acordos com André Ventura.

É extraordinário o que está a acontecer em Portugal.                   

Um Governo caiu – e o partido que historicamente alternava com ele no poder praticamente não subiu nas sondagens.          

Um primeiro-ministro demitiu-se – e o homem que se apresentava como seu rival direto não cresceu.

O país está cheio de problemas – caos na saúde (gastando o SNS muito mais dinheiro do que gastava antes), muitos alunos sem aulas, professores e polícias em guerra, ministros sob suspeita, crise na habitação, jovens a emigrar, produtividade sempre a cair – e mesmo assim o PS aguenta-se.

António Costa esteve oito anos no Governo sem fazer nenhuma reforma – para além da criação de casas de banho mistas para rapazes e raparigas e da tentativa de tirar as cinco quinas e a esfera armilar do símbolo do Estado –, e apesar disso muitos portugueses continuam a acreditar na sua capacidade.

Ao fim de todo este tempo o Partido Socialista ainda pôde dizer, sem provocar uma gargalhada geral, que só o PS poderá fazer melhor do que o PS.

Há que reconhecer a verdade: o PSD falhou rotundamente na missão de se apresentar como alternativa.            
   Apesar de todos os problemas que existem, as pessoas não acreditam que o PSD conseguirá fazer melhor do que o PS e que Luís Montenegro consiga fazer mais do que António Costa.

Manuela Ferreira Leite dizia há dias que o culpado pela falta de força do PSD é… o PS – pois tem valorizado o Chega, elegendo-o como interlocutor principal, e subalternizado o PSD.

Mas se o PSD se deixa menorizar pelo PS, de quem será a culpa?

Do PS ou dele próprio?

É natural que o PS o ataque: os partidos lutam entre si, vencendo no final os mais fortes.

Se o PSD se deixa vencer pelo PS, é porque é mais fraco.

Enfim, não foi um argumento feliz, para dizer o mínimo.

Foi uma pungente confissão de impotência.

E de facto, olhando à volta, o que vemos?

Vemos o PSD estagnado e o Chega a subir.

A culpa é do Chega?

É do PS?

Ou é do PSD, que se deixou enfraquecer e encurralar?

O problema do PSD é que caiu ingenuamente na armadilha das esquerdas.

Deixou-se condicionar por elas.

Por falta de coragem, não foi capaz de lutar pelas suas ideias.

Com medo de ser chamado ‘misógino’, não combateu a ideologia de género.

Com medo de ser chamado ‘xenófobo’, não discutiu a imigração (que é um dos temas do momento em toda a Europa).

Com medo de ser chamado ‘fascista’, fugiu como o diabo da cruz de condenar os sucessivos ataques à nossa história.

Com medo de ser considerado ‘autoritário’, absteve-se de defender a autoridade e prestou pouca atenção aos problemas da polícia.

O PSD perdeu por falta de comparência todas as batalhas.

Até deixou cair (aí para o PS) a causa do ambiente (que empunhava com orgulho nos tempos de Cavaco Silva, com Carlos Pimenta, Macário Correia e outros).

Como alternativa ao PS, o que tem o PSD para dizer?
Que vai fazer melhor?     
Mas isso dizem todos!     
O problema não é ‘fazer melhor’ – é ‘fazer diferente’.
E aí o PSD não consegue apresentar nada.

Para muita gente, o PSD é hoje ‘mais do mesmo’.

A única ideia que teve foi fazer uma coligação com o CDS e o PPM.

Que potenciará alguns votos, é verdade, não só por efeito do método de Hondt mas porque poderá atrair algumas pessoas que doutra forma votariam no Chega.

Mas não criou uma onda de entusiasmo – longe disso.

E a reedição de uma fórmula com muitos anos tem um risco: mostra um partido a olhar para o passado.

Em vez de surpreender, de revelar um novo élan, o PSD parece ter envelhecido e perdido a inventividade, precisando de ir ao baú buscar uma ideia antiga – como disse de forma cruel mas certeira Pedro Nuno Santos.

O PSD tornou-se um deserto de ideias… e de figuras.                    
    Neste momento, o CDS tem muito mais caras conhecidas: além de Nuno Melo, tem Paulo Portas, Manuel Monteiro, Lobo Xavier, Cecília Meireles, Mota Soares, Paulo Núncio, Assunção Cristas, Telmo Correia, Galriça Neto, Diogo Feio, João Almeida, Anacoreta Correia, Sílvio Cervan, Nuno Magalhães, Hélder Amaral…

Envergonhado, complexado, com medo da esquerda, o PSD entregou ao Chega a maioria das bandeiras da direita e ficou sem nada para se diferenciar.

E além disso caiu no erro de dizer que não fará acordos com o Chega.

Se tivesse lá alguém que soubesse fazer contas, veria que sem o Chega nunca conseguirá ser Governo.

Mesmo ganhando as eleições, Luís Montenegro não terá condições para governar.

Alguns apostam nesse cenário – antevendo um regresso de Passos Coelho à política e a formação de uma frente de direita com André Ventura.

Já disse e repito que não acredito em regressos.

Nem no futebol, nem na TV, nem na política.

Eriksson e Jesus regressaram ao Benfica e falharam; Cristina Ferreira regressou à TVI  e falhou; os regressos de Mário Soares e Freitas do Amaral saldaram-se por rotundos fiascos.

Além disso, por coerência, o Presidente da República não poderia aceitar um primeiro-ministro que não foi a eleições (como não aceitou Mário Centeno).

Mas a previsão do que se passará depois de 10 de março ficará para outro artigo.

Para já, deixo um palpite: a AD ganhará as eleições por pouca margem e o Governo ficará mesmo dependente do Chega.

Os passos seguintes deixo-os para depois.

jose.a.saraiva@nascerdosol.pt