Politica

PCP mudou tudo. E agora?

A disponibilidade do PCP para viablizar um governo do PS apanhou desprevenida a coligação, que tenta ser cautelosa a reagir. Nuno Melo, ao DN, teve a reação mais forte: “Um governo PS com PCP e BE seria um golpe PRECiano”.


Até agora é a voz que se destaca entre dirigentes da coligação que preferem falar em off e um quase silêncio total nas páginas do Facebook de sociais-democratas e centristas. A hipótese de um governo socialista com apoio parlamentar do PCP e do BE não estava nas contas da PàF. Há ainda quem não dê muito crédito à ideia, mas na dúvida a coligação prefere esperar para ver.

“A criatividade não tem limites”, reage ao SOL um vice-presidente do PSD, que prefere para já não falar em on no tema que diz «parecer ficção”.

“Os que ganham não iam para o governo?”, questiona, confessando-se perplexo.

“É encenação”, atira outro dirigente do PSD, que acredita que será impossível compatibilizar PS e PCP, depois de Jerónimo de Sousa “ter andado toda a campanha a dizer que o PS governa à direita”.

Entre os sociais-democratas, há quem defenda que António Costa nunca poderia tomar a decisão de se aliar à esquerda mais radical antes do Congresso do PS. Mas a verdade é que a Comissão Política desta terça-feira mandatou Costa para tentar acordos tanto à direita como à esquerda.


PS é novo PASOK?

Ainda assim, no PSD há quem veja esta aproximação ao PCP como “o PS a encurralar-se mais”. Uma opinião partilhada por vários sociais-democratas que, já durante a campanha, viram António Costa radicalizar-se.

Do outro lado da barricada, um dos principais conselheiros de António Costa vê as coisas de maneira diferente. Porfírio Silva considera, no seu blogue, que o maior risco não é o PS encostar-se à esquerda, mas precisamente ficar demasiado colado à direita, perdendo a sua identidade.

“Os partidos também morrem”, avisa Porfírio Silva, explicando que uma das coisas que leva à morte de um partido “é permitir que ele deixe de representar aqueles que prometeu representar”.

“Se o PS for dolosamente responsável pela continuação deste governo, o prognóstico é duro mas é claro: o PS vai “pasokar”. Seremos reduzidos à insignificância dos partidos que se separam dos seus eleitores e que, enredando-se em justificações mais ou menos artificiosas para tentar esconder a sua deslealdade aos que prometeram representar, são descartados como inúteis”, escreve o membro do Secretariado Nacional.


Passos espera para ver

Se o PS vai ficar como o PASOK ou entrar num processo tipo PREC, como lançou Nuno Melo, ainda ninguém sabe. Mas o tema promete aquecer os próximos dias e esvaziar a reunião de amanhã entre Passos Coelho e António Costa.

É que a reunião que o PS tinha hoje marcada com o BE foi adiada a pedido do Bloco que disse precisar de mais tempo para se preparar para o encontro.

Além disso, ficou decidido que Costa e Jerónimo vão voltar a encontrar-se nos próximos dias, pelo que amanhã Costa não terá muita margem para deixar claros os termos de um acordo com a coligação. Isto, apesar de ainda serem muitos os que preferem acreditar que o líder do PS está só a fazer bluff.

Entre os mais próximos de Passos, a palavra de ordem é “tranquilidade”. Como no póquer, a coligação vai esperar para ver.