Cultura

Goethe. Vagueando pela memória dos deuses

O gigante da literatura europeia e figura assimiladora de toda a cultura ocidental, não tinha ainda entre nós um estudo de fôlego, mas desta vez a espera valeu a pena


A prosa, e em particular a que se lança nos braços da ficção, é uma vítima frequente de ambições paralisantes e que, muitas vezes, perdem o autor num labirinto de espelhos e equívocos sem saída. Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832) tinha, de acordo com Thomas Mann, um método curioso de superar esses grandes desafios que acabam as mais das vezes percorridos por pilecas com pouco fôlego, e que, delirando de fome e sede, acabam entre cozinhados de areia enfiados no bolso de alguma miragem. A táctica do génio de Weimar passava por uma sucessão de arremedos: era a do “crescimento involuntário”, um processo de trabalho “evolutivo e progressivo”, “sem ambições, tranquilo e natural, quase vegetal, a partir de começos insignificantes, até alcançarem um nível de significação universal”.


Há uns versos que expressam bem esta ociosa obstinação: “Absorvo os meus limites com uma estratégia d’infinito:/ recuso o limiar, vou além do livro, continuo a escrever pelo sobrado e pelas paredes acima até ao Céu”. De resto, e como refere João Barrento no esplêndido volume de ensaios que lhe dedica, Goethe, “como os deuses, cultivava olimpicamente a contradição. Por isso, na contradição ainda viva que a anima, a imagem que dele retemos será uma daquelas que andam sempre associadas à memória dos deuses”.


“Goethe – o Eterno Amador” é um desses raríssimos exemplos de um livro de ensaios que se dão a ler com muito mais proveito e prazer do que quase tudo o que anda por aí esbaforido e de muletas no pântano da ficção. Um livro cativante, que se lê com entusiasmo e mesmo a sofreguidão de quem não esquece as horas perdidas a roer os ossos dessas “longas, intermináveis e eruditas, enfadonhas e soporíferas leituras a que o dever e as implacáveis exigências da cultura nos obrigam” (Eduardo Prado Coelho). Acontece simplesmente que João Barrento, quando se põe diante do teclado (ainda que escreva à mão), é gémeo de um pianista, não atira a linha sem visar algum solfejo, a desenvoltura da sua prosa sabe onde respirar, e revela o mesmo grau de cultura quanto de intuição em relação a cada embalo, sem nunca esquecer que, para o leitor rasgar a boca numa frase, o isco tem de valer a pena.


Não se acha um parágrafo enfadonho nestas páginas. Andamos pelo puro gosto de seguir uma frase que não dá mais que os passos necessários, tão confiante no seu destino, num elegante testemunho que nunca passa por um intruso entre os objectos e a intimidade de um grande clássico da literatura europeia. Assim, a sua principal virtude respeita à própria coerência. Não se espere aquela exaustividade característica dos biógrafos obsessivos, preocupados em coser o máximo de minudências num bordado que acaba tosco por isso mesmo. Esta é a obra de um fino leitor crítico, que procede a um cruzamento das pistas relevantes sobre o percurso de vida de Goethe, analisando a sua obra no contexto histórico e literário do tempo em que viveu, e dialogando com os ecos que esta foi produzindo.


Se o entrançado de referências, uma confluência harmoniosa de sagazes intuições e interpretações lúcidas, é a energia que move este estudo, o próprio autor se descompromete quanto a leituras finais, procurando estancar o fluxo que as anima: “Não se darão aqui ao leitor chaves que, assim como assim, nunca serviriam em todas as portas, nem se procurarão centros que sempre se deslocam e nos fogem. Um comentário não pode querer substituir-se ao texto que acompanha, e por isso também não valerá a pena ensaiar qualquer síntese da fábula ou paráfrase do enredo. No entanto, algumas veredas se abrirão, acessos necessários a clareiras para o leitor português, que até hoje praticamente não dispõe de informação sobre esta obra-chave [no caso “Os Anos de Aprendizagem de Wilhelm Meister”] da tradição romanesca alemã e europeia.”


Ao traçar o perfil de uma figura que mais do que ninguém se mostrou consciente da grandeza e do universalismo do seu génio, ao ponto de raiar a megalomania – “Nunca conheci homem mais presunçoso do que eu próprio, e o ser eu a dizê-lo mostra que é verdade o que digo. Nunca pensei que alguma coisa tivesse de ser alcançada, sempre pensei que já a tinha. Se me tivessem posto uma coroa na cabeça, eu teria pensado que não havia coisa mais natural...”, escreveu num auto-retrato –, João Barrento reconhece que “é quase impossível falar hoje de Goethe sem que entre nós e ele se interponha esse véu transfigurador da sua estatura mítica”, e, no entanto, o fascínio só serve para afinar mais as faculdades do crítico, adiantando este que “não virá mal ao poeta se o apearmos por momentos do pedestal aonde o puseram, nem a nós pelo facto de nos deixarmos arrastar pelo mito”.


Ao desembaraçar-se o próprio autor das grandes ambições totalizantes – e tendo claro, como Goethe, que “o autor de um livro que fôssemos capazes de avaliar teria que aprender connosco” –  oferece-se a folga para atravessar a sombra do outro sem se deixar esmagar. Assim, ao abrir um capítulo, lembra-nos que “todas as verdades são apenas meias verdades, quando confrontadas com as contradições da existência. Não há sentença de pretensões universais que nos valha, face à diversidade da vida e à complexidade dos afectos humanos”. E tem depois momentos sumptuosos em que a sua leitura não apenas acompanha mas, saltando dos ombros do gigante, a seu lado cresce uns metros dignos de nos ensombrarem por si mesmos: [a propósito da quinta Elegia Romana, bom exemplo da união entre poesia e erotismo] “É preciso ir aprendendo a sentir-lhe o ritmo coleante e surpreendente, a descobrir-lhe pouco a pouco os recantos mais belos, ao virar de uma esquina do verso. Como os dedos que escandem os hexâmetros numas costas nuas de mulher e, certa a medida métrica, continuam, perdidos, deambulando à procura do verso seguinte no corpo abandonado a si próprio e à mão que o escreve: ancestral sabedoria de dedos, ritmos de ancas – e tempo, muito tempo para percorrer de olhos, mãos e ouvidos esses longos versos elegíacos. Que o mesmo é dizer no sentido original do termo: versos unidos a pares, em dísticos. versos eróticos por excelência, expressão de um Eros maduro e capaz de fruir, sem pressas, gota a gota, vírgula a vírgula, todo um corpo/texto.”


Esta é, portanto, uma obra que faríamos bem em tomar como modelar, desde logo por saber imbricar o seu grau de exigência dentro das melhores expectativas e do horizonte dos seus eventuais leitores, que assim se vêem altamente recompensados por uma obra (esta sim) “essencial, que vem preencher uma lacuna na produção crítica literária portuguesa”.


Assim, se de retratos do mito há muito estávamos bem servidos – como este de um poema de Ángel Crespo – “Quando Goethe punha a mão/ direita – com a pena –/ sobre uma página, os deuses/ olhavam-no, receando/ que, ao escrever, acaso/ lhes roubasse a língua,/ na qual cada coisa tem um nome/ proibido aos mortais.// E quando se punha/ de pé, com a cabeça/ inclinada, as deusas/ costumavam despojar-se das túnicas/ e dos compridos brincos/ para que ele as cantasse por seus nomes.” –, o que nos faltava era um retrato do homem em toda a sua dimensão, uma formidável síntese como esta: “A renúncia e a ascese serão – e esta é outra genial contradição num homem e num poeta marcadamente vitalista e hedonista, incorrigível gourmet e, ‘pelos padrões actuais, virtualmente um alcoólico’ (Thomas Mann) – outro dos fios condutores da sua Obra. Renúncia e fuga são parte do mesmo jogo de um actor soberano que age contra (quase) todos e contra o seu tempo, seja ele racionalista ou romântico, mas nunca contra si próprio. Do cenário pintado das ruínas que se seguem a renúncias e fugas (...) ergue-se sempre, para continuar, a silhueta incólume de si próprio, proteico Narciso que ‘não crê em nada’ (Charlotte von Schiller), vampiro literário, monstro de indiferença e egoísmo, com aquela detestável tendência para tirar dividendos poéticos de todas as relações amorosas e humanas, preparando a posteridade a cada momento e em cada insignificante papel.”