Cultura

Teresa Rita Lopes. Poesia com Pessoa(s)

Sem espaço para floreados ou grandiloquências, a poesia desta destacadíssima pessoana – Mulher de «Esquerda interior» – passa ao largo do sisudo. Como passaram também os anos da sua docência, que tomou sempre convenientes distâncias de certas formalidades que inquinam a comunicação e do academismo de «fato escovado, bem posto, bem calçado», devidamente protegido em protocolar carapaça. 

Quando, em 1987, Teresa Rita Lopes publica o seu primeiro livro de poemas, Os Dedos os Dias as Palavras, há já muito mantinha um trato íntimo com Fernando Pessoa, esse poeta absorvente que faz algumas aparições no muito povoado universo poético da escritora, tendo nele um papel a jogar, não propriamente um papel principal -  esclareça-se. Se há poemas em que Pessoa surge aprisionado num parenteses ou num retrato, a servir de mero esconderijo a uma osga, noutros converte-se numa espécie de alvo-móvel da sua impiedosa ironia. É o que acontece num poema do livro Afectos, «Bencinha meus padrinhos brasileiros», um texto importante por conter a genealogia literária que implicitamente Teresa Rita Lopes elege para si: «Bem que vocês/ podiam ter abrasileirado um pouco o nosso Fernando / Pessoa/  a quem o padrinho Drummond dedicou um soneto./ Isto é: bem que vocês lhe podiam ter tirado aquele/ fato preto/ (ria à vontade, que eu sei que vocês dizem/ «terno …) […] Talvez/ se tivesse desfeito daquela roupa toda/ com que – demasiado! – se vestia: terno, colete,/ gravata, chapéu – até polainas! […] mas basta de Pessoa!».

Mas a Pessoa cabem ainda outros papéis, nem sempre claramente definidos, nem sempre simpáticos. Da leitura da totalidade dos poemas que acolhem Pessoa, fica a sensação de que ele é uma espécie de sujeito de culpa, quer da sua tardia revelação poética, quer da intermitência com que os seus livros de poemas têm vindo a público. Pessoa é responsabilizado pelo facto de as arcas da autora, com muitos inéditos sequer passados a limpo,  terem ficado encostadas por causa da arca do poeta dos heterónimos.

Se quisermos enumerar os livros que integram a obra poética de Teresa Rita Lopes, chegam-nos os dedos das mãos. Ao livro de estreia – em cujo título boa parte da sua poesia sem dificuldade se reveria ­ – veio juntar-se, após um hiato de 7 anos, Por Assim Dizer (1994), a que se seguiram Cicatriz (1996), Afectos (2000). No ano seguinte, Jogos, Versos e Redacções (2001), A Nova Descoberta de Timor (2002), A Fímbria da Fala (2002) e, mais recentemente, depois de um silêncio de dez anos, O Sul dos Meus Sonhos, (2012).

É certo que boa parte da longa e póstuma vida editorial que Pessoa fica a dever a Teresa Rita Lopes muito terá contribuído para a descontinuidade com que vem publicando  a sua poesia, mas não explica tudo, mesmo que tenhamos em conta a sua continuada prática ensaística e a solícita colaboração em múltiplos projectos colectivos e editoriais. Pouco apressado, um tal ritmo editorial sugere, desde logo, um modo de estar na poesia e na literatura, avesso a azáfamas e àqueles «dias triunfais» que por vezes fazem da literatura mais um produto de uma cultura pobre. Os seus livros são também alheios a circuitos promocionais e aos grandes escaparates literários, passando tranquilamente ao lado do espectáculo da economia globalizadora. Prefere a «Poesia caseira / poesia feita à mão / como os gestos de minha Mãe / a fazer fofo pão filhós / e renda … às vezes».

No poema-posfácio que incluiu numa antologia poética organizada por Catherine Dumas em 2006, lançava a autora, dessa altura da vida, um olhar ao trajecto percorrido, manifestando desprezo por números e montantes, aí confidenciando ao leitor que nunca os seus gestos foram comandados pela «avidez do quanto», o da sua poesia incluído. Nela o menos é mais: «Os meus versos / assim os quero: / um cestinho de figos / para presentear os amigos».

Aqui, como em tantos lugares da sua obra poética, não se detecta qualquer enfase assente numa ideia forte da poesia e do seu papel. Pelo contrário, há sempre uma certa distância auto-irónica, um minimalismo retórico e um certo efeito de banalidade quotidiana que relega para segundo plano quaisquer grandes propósitos atribuíveis à poesia, menosprezados em favor de uma liberdade de onde parte o impulso da escrita e o próprio acto de escrever.

«Passagens do diário que não escrevo», assim nos aparece designado o livro Afectos. Servindo-se de uma arquitectura diarística, Teresa Rita Lopes, à semelhança de uma Irene Lisboa, faz do comum existir, seu, das figuras da cadeia familiar a que pertence e de outras  figuras miúdas do quotidiano, nos seus trabalhos e dias, o motivo de inúmeras reportagens íntimas, num registo realista, informe e fragmentário dos dias, fluidos e por vezes repetitivos. Esse ‘diário’ permite-nos privar com sua mãe, com o pai que não conheceu, com a Tia Carolina e as suas rendas quilométricas, com os avós de Alcoutim, com o avô materno, sempre acompanhado da sua faquinha de bolso e do tabaco de onça que enrola à mão.

A dado passo daquele poema-posfácio, surge uma questão de resposta só aparentemente difícil: «E que seria ter mil vidas / Sempre a tirania dos números! / Aliás que inutilidade escrever cem livros quando dez ou menos / chegariam para contar quem sou / quem tenho sido». Eis o que move a poesia de Teresa Rita Lopes que, desde a primeira hora, preferiu o verbo ‘contar’ ao verbo ‘cantar’ e à clássica metáfora musical que lhe anda associada. Nos seus poemas, de cunho narrativo, não há lugar para a poesia tida como exercício sisudo e solene, nem espaço para grandiloquências. De muitos dos seus poemas se poderá dizer o mesmo que Luís Miguel Nava disse da poesia de Eugénio de Andrade: «já não é a natureza que aparece como poesia, mas a poesia que nos surge como natureza».

Fruidora incondicional da Natureza, a sua poesia, surge marcada por um pecúlio de vivências que valoriza as pequenas coisas e os pequenos gestos de atenção particularizante. Como se Teresa Rita Lopes prescindisse do gesto largo, que generaliza, para escolher o gesto mais estreito, que distingue e singulariza, dignificando cada ser e, em cada um, todos os seres. Assim se entende o inventário de plantas que comparece nos seus livros, bem como um amplo bestiário onde cabem seres de ínfima categoria. Lagartixas, osgas, caracóis, seres miudamente quotidianos tradicionalmente tidos como material a-poético, fazem frequentes aparições na sua poesia. Não despiciendos são também os objectos banais que estabelecem elos afectivos com o universo familiar e alguns mesteres, já perdidos na longa história da humanidade. Tudo isto decorre, portanto, do gosto pelo mínimo, mas também de uma capacidade de atenção que nunca exclui nem os pequenos gestos nem os pequenos mundos quotidianos em que todos nos movemos, tantas vezes demasiado depressa, tantas vezes distraídos da sua infinita riqueza de formas, de cores, de sentidos. Umas «peúgas de lã carneira», um velho par de sapatos, ou até um caroço de azeitona merecem a sua estima literária. Atenta às coisas da natureza e seu mistério, Teresa Rita Lopes poetiza e dignifica tudo quanto toca, conferindo lirismo ao que à partida se reputaria menor, rasteiro ou pouco elevado. Mas não hesita em pôr a descoberto o «rosto ranhoso do mundo presente».