Opiniao

A palavra deve ser usada q.b.

Há pessoas que nasceram para ensinar e Marcelo é uma delas. Na aula da Telescola conseguiu ser seguido por 344 mil ‘alunos’ de todas as idades que se deliciaram com uma lição magistral...

Há largos anos trabalhei com um colega que frequentemente me dizia: «Um homem é escravo da sua palavra e dono dos seus silêncios!». Carlos Freire, foi sobretudo um amigo nos 5 anos que trabalhámos juntos e fazia jus a esta frase, porque, falando pouco, acertava como poucos. Falecido precocemente em 2007, com apenas 48 anos, guardo dele as melhores recordações e dou por mim muitas vezes a relembrar as suas frases, sempre orientadoras e acutilantes.
Ao ouvir Marcelo dar a aula na Telescola, recordei o Carlos. Há pessoas que verdadeiramente nasceram para ensinar e Marcelo é uma das excecionalmente vocacionadas que manuseando a palavra com arte consegue ser ouvido numa aula do princípio ao fim, qualquer que seja a sua audiência. Neste caso, para jovens, conseguiu ser seguido por 344 mil ‘alunos’ de todas as idades que se deliciaram com a lição magistral.

No final, ao sair, ainda teve tempo para um recado crucial, pertinente e oportuno: ousar referir que as recentes manifestações de radicalismos, além de nada contribuírem para a sociedade sobretudo em termos de pandemia quando as preocupações são claramente outras, demonstraram a ignorância e imbecilidade de quem vandalizou uma estátua, sem ao menos conhecer a História, como foi o caso do Padre António Vieira.

Uma palavra certa num momento certo veio refrear novos atos porventura pensados e quiçá ensaiados, mas sobretudo obrigar algumas organizações políticas de uma esquerda radical e populista a perceber que tendo estes atos gerado uma reprovação generalizada na sociedade, as repercussões nas próximas eleições seriam óbvias. Tal como diz o ditado ‘quem semeia ventos colhe tempestades’ pelo que qualquer reclamação deve ter um objetivo legítimo ou se vira contra quem as comete.

Em tempos de pandemia, vamos para um Orçamento Suplementar, absolutamente necessário, com João Leão a iniciar-se nestas lides ministeriais, demonstrando contenção na palavra numa pessoa preparada e conhecedora dos dossiers. No entanto, todos os cenários que se perspetivam são preocupantes e perante uma despesa estrutural, Leão insiste que não vai aumentar impostos. Se assim for, mesmo com os muitos milhões a virem da Europa, os investimentos nos próximos anos terão de se cercear e as cativações ir-se-ão multiplicar.

As projeções económicas proliferam. Opto por referir as mais recentes, do Banco de Portugal: (i) quebra do PIB - 9,5%; (ii) taxa de desemprego – 10,1%; (iii) consumo privado em queda – 8,9%; (iii) a formação bruta de capital fixo a cair – 11,1%; (iv) exportações a cair – 25,3%; (v) importações também a cair como reflexo da queda da economia – 22,4%. Vamos a ver como se irá comportar a dívida pública a quem a OCDE augura um rácio de 135,9%, sem contar com uma segunda vaga da covid-19.

Aqui não vão chegar as palavras. Teremos de atuar preventivamente, as informações devem ser tempestivas e fidedignas para tomar medidas corretivas, caso as circunstâncias o exijam – e creio irão exigir, dada a debilidade estrutural das finanças públicas nacionais, leia-se dívida pública. A economia não aguenta hesitações, as empresas de rating estão à espreita e qualquer deslize na gestão das finanças é garante de forte desequilíbrio no futuro pelo impacto gravoso das taxas de juro.

Curiosamente referia entre amigos, com base na experiência do dia-a-dia, que a recuperação da economia iria ser bem mais lenta do que o Governo estaria a imaginar. Bem podem Costa e Marcelo dar o exemplo do desconfinar, porque na verdade o povo, de repente, começou a pensar que pode haver amanhã. Até ao início da pandemia, era gastar que o amanhã logo se via. As taxas de poupança eram baixíssimas, o consumo elevado baseado em crédito obtido com facilidade. Agora? Com estas taxas de desemprego e layoff, sentido na pele por uns e percecionados por todos, as pessoas fazem contas e as taxas de poupança subiram por aí acima.

Se a isto somarmos o turismo que vai demorar uns anos a recuperar, a economia europeia a sofrer como rezam as previsões negativas da OCDE, sobretudo na Espanha, Reino Unido e Alemanha que são países de elite nas nossas exportações, não admira que a palavra certeira de Marcelo a falar na crise que se avizinha nos remeta para a maior das preocupações.