Sociedade

Elvis Secco: "Prender o Cabeça Branca foi uma caçada de dois anos"

Chamaram-lhe Cabeça Branca por ter ficado com o cabelo branco muito cedo. Quando o negócio do contrabando do café acabou, Luiz Carlos da Rocha ficou nas mãos com uma empresa detentora de uma logística gigantesca mas sem utilidade. Decidiu então trocar o café pela cocaína – dedicando-se ao narcotráfico. Tornou-se o equivalente brasileiro de Pablo Escobar e um dos homens mais ricos do mundo, embora poucos o conhecessem. A história dá corpo ao mais recente livro do jornalista brasileiro Allan de Abreu: Cabeça Branca: A Caçada ao Maior Narcotraficante do Brasil, baseado na cinematográfica Operação Spectrum da Polícia Federal brasileira conduzida por Elvis Secco.

Por Felícia Cabrita e João Amaral Santos

Como conseguiu prender o maior narcotraficante da América Latina, e um dos maiores do mundo, que estava há três décadas fugido da Justiça, sem tão-pouco lhe conhecer o rosto? Gosta de causas impossíveis?
É mais empolgante (risos). De facto, quando, no início de 2016, começamos a Operação Spectrum, que em latim quer dizer fantasma, partimos do zero. Para nós, ele era mesmo um fantasma. Supúnhamos que Luiz Carlos da Rocha, mais conhecido por Cabeça Branca por desde muito novo ter ficado com o cabelo branco, devia ter feito plásticas e pintado o cabelo e nós só tínhamos uma foto dele dos anos 1990.

Como é que ele se eclipsou à Justiça?
Ele deu um tiro num agente da Polícia Federal Brasileira e a partir daí desapareceu. Depois, surgiu em 2006, pontualmente, num outro processo que envolvia um traficante português [José Manuel Viegas da Silva Duarte], mas o vosso conterrâneo foi preso e, como não havia provas que ligassem Cabeça Branca a esse caso, sumiu de vez. Nos nossos arquivos, não constava nada e não tinha nada em seu nome: bens, carros, nada. Era como se tivesse sumido. Estava a ser caçado há mais de trinta anos e tornara-se numa lenda. Parti do princípio que também teria mudado de nome e que estaria a usar documentos falsos.

No livro do jornalista Allan de Abreu,  ‘Cabeça Branca:_A Caçada ao Maior Narcotraficante do Brasil’, o autor refere que o Cabeça Branca foi conseguindo escapar à Justiça porque pagava luvas a polícias, juízes e políticos. Como é trabalhar nessas circunstâncias, sabendo que dentro da sua própria casa podia haver gente que passava informação?
Por isso, para que as informações não circulassem, a investigação ficou restrita a uma pequena equipa de oito agentes em quem eu tinha total confiança. E sempre que necessitávamos de apoio de outras polícias, pedíamos as diligências sem nunca mencionar o nome dele.

Qual foi, então, a sua estratégia?
Na primeira fase, caí em cima da família dele e comecei a investigar o seu património. Os filhos viviam em condomínios de luxo, tinham carros topo de gama. Fizemos análises da sua vida laboral e os bens que eles tinham eram incompatíveis com a sua capacidade financeira. Coloquei agentes a seguirem-nos em viagens internacionais, sobretudo para a Europa, para verificar se eles se encontravam com o pai. Mas eram apenas viagens turísticas de luxo. O Cabeça Branca era uma pessoa muito discreta, sem vida social. A ostentação é uma pista muito boa, mas não me estava levando a ele.

Como saiu do impasse?
Em junho desse ano, foram presos três sujeitos com uma tonelada de cocaína. Um deles, Alexsandro de Carvalho, era filho de um antigo braço-direito de Cabeça Branca, que tinha sido assassinado por grupos rivais em 2005. Aí, acendeu uma luz vermelha. Nas redes sociais percebemos que ele era amigo dos irmãos de Cabeça Branca e passámos a tê-lo sob vigilância 24 horas por dia. Fizemos também o levantamento de quem o visitava na cadeia e descobrimos uma peça que se revelaria fundamental neste puzzle: tratava-se do contabilista de Cabeça Branca, Wilson Roncaratti. De início até pensámos que fosse seu motorista, porque passava a vida na estrada. Coloquei sete homens atrás dele, que se iam revezando nas vigilâncias, para analisar as suas movimentações. Então verificámos que ele fazia uma média de quinze viagens por mês, quatro a cinco mil quilómetros, seguindo sempre a mesma rota. Saía de São Paulo direto ao Paraná e daí para o Paraguai. Aí, pensei: ‘Opá, vamos apostar nisso’.

O Paraguai é um entreposto da cocaína que vem da Bolívia e do Peru…
Sim, mas ele não estava ligado ao transporte de droga. Cabeça Branca é que conseguira um verdadeiro império do outro lado da fronteira, onde chegou a viver quando desapareceu. Tinha fazendas, empresas de café, de veterinária e até de beleza. Eram os dois filhos mais velhos que geriam os negócios. Mas no Paraguai tinham tudo legalizado. As empresas tinham empregados, pagavam impostos e davam muito lucro.

Era a forma de branquearem o dinheiro sujo?
Exatamente. Roncaratti, que era o contabilista da associação criminosa, também levava malas com dólares dos lucros da cocaína para os filhos branquearem. Eles eram muito sofisticados nisso. Por exemplo, eles pediam a um banco um empréstimo para comprar cabeças de gado, depois pagavam esse financiamento com dinheiro vivo. Portanto o sistema de lavagem de dinheiro, o retorno do dinheiro sujo ao sistema financeiro, virou um ciclo. Por isso, ele injetava o fluxo do dinheiro do tráfico num sistema que já estava funcionando. Misturava dinheiro ilícito com dinheiro lícito e, se não tivesse havido uma investigação prévia ao esquema de lavagem de dinheiro, não se conseguiria demonstrar que aquelas empresas eram património ilícito. Porquê? Porque eles conseguiriam, através de contabilistas e advogados, provar que aquelas empresas eram autossuficientes, até davam lucro, não eram de fachada.

Voltando ao Roncaratti. É ele quem o leva até ao Cabeça Branca?
Sim, mas tínhamos ainda de sofrer muito (risos). Em fevereiro de 2017, Roncaratti entra num bairro de luxo em São Paulo e estaciona numa moradia de dois pisos. Era uma zona rodeada de câmaras de vigilância e de motoqueiros armados que faziam a segurança da rua. Tornava-se impossível montar ali vigilância a tempo inteiro sem dar nas vistas. Ainda pedi dinheiro à Polícia Federal em Brasília para alugar uma casa na mesma rua, mas a verba não chegou. Para passarmos desapercebidos, tínhamos de usar carros topo de gama como os seus moradores. Utilizámos 15 carros que tínhamos apreendido noutras operações e só lá passávamos duas vezes por dia, para não chamar a atenção.

Era a casa dele?
Era uma das suas casas. E isso foi um grande passo para a investigação. Aí, os agentes montaram vigilâncias dias a fio, recolhendo todas as matrículas de carros que entravam na garagem da casa ou estacionavam à porta.

Através das matrículas chegaram aos donos?
Sim, mas foi muito trabalhoso. No crime organizado os veículos estão sempre em nome de testas-de-ferro. Gente sem antecedentes criminais para não levantar suspeita. Então, pedimos para que fosse colocado um alerta no SINIVEM, que é um sistema que regista uma matrícula quando um determinado veículo passa por uma câmara colocada nos postos da polícia rodoviária e que dá, imediatamente, um sinal. Como já conhecíamos a rotas de muitos deles, e por que posto iriam passar a seguir, acionávamos a polícia rodoviária para abordar o condutor de forma tranquila, como se fosse uma operação de rotina.

O interesse era tirar uma foto da carta de condução do condutor?
Era o nosso grande objetivo. Tínhamos de ter um rosto para poder identificar esta gente. E através do celular, esses policiais, de forma discreta, faziam fotos aos documentos dessas pessoas e enviavam-nas na hora. E só assim soubemos quem eram. Ficamos com um imenso portefólio de fotos. Começamos por retirar as mulheres ao grupo. E procurávamos os homens que poderiam ter a idade de Cabeça Branca. Foi perto de dois anos para o prender. Houve momentos de desespero.

Não os colocou sob escuta?
O problema das escutas era idêntico ao dos veículos. Também os celulares deles estavam em nome do testa-de-ferro. Além disso, falavam em circuito fechado, usavam dezenas de celulares, cada um para o seu interlocutor. Descobrir o número do Roncaratti, que foi o primeiro que conseguimos, levou meses. Um dia, durante as vigilâncias, percebemos que ele ia sair de avião de São Paulo para Mato Grosso. Pedi à Polícia Federal de lá para que, mal ele saísse do avião e fizesse o primeiro telefonema, registarem a hora e o minuto. Depois, através da antena do local, pediu-se que remetessem a listagem de todos os telefonemas efetuados à mesma hora. Mas milhares de outras pessoas tinham usado os telefones naquele mesmo instante, no mesmo local. Tínhamos de reduzir o número de telefones até chegar ao dele. Então, os meus homens continuaram a segui-lo e a registar as horas e os locais de onde fazia telefonemas. É como se tivéssemos montando uma quebra-cabeças de dez mil peças: as peças são pequenas e o quebra-cabeças é grande. Só a partir daí pedi autorização judicial para começar a fazer as interceções telefónicas. O juiz e o promotor de justiça foram peças vitais para o sucesso da operação, de extrema confiança. Foi o mesmo juiz que mandou prender Lula na Operação Lava Jato. A partir daí, surgiram novos números. Um dia, Roncaratti foi intercetado a falar com alguém que ele tratava por ‘Bichão’. Pela conversa em código achamos que havia ali algo estranho. Nós nunca tínhamos ouvido a voz de Cabeça Branca e estávamos curiosos. Imaginar que seria ele dava alguma adrenalina. Era uma caçada. Através do celular do tal ‘Bichão’, chegou-se aos camionistas que tratavam da logística do transporte da cocaína até aos portos de onde seguiam para a Europa. Esses camiões estavam registados em nome deles, só que valiam milhões de reais e eles não tinham capacidade financeira para os comprar. Isso reforçou as nossas suspeitas de que trabalhavam para o ‘Cabeça Branca’ e passámos a segui-los. Era fundamental saber onde eles carregavam a cocaína e qual era o destino dela. Quase no final, durante 45 dias, foi a terceira fase da operação chamada Operação Controlada, fizemos o acompanhamento de seis carregamentos com mais de 4 toneladas de cocaína sem fazer uma única apreensão. Cada camião levava 700 quilos de droga. Durante as vigilâncias, descobrimos três armazéns onde a droga ficava antes de seguir para o porto. Um deles servia de entreposto para a máfia sérvia.

Tudo isso para não alertar o Cabeça Branca?
Lembrem-se que ainda não o tínhamos visto. Já tínhamos falhado no passado e não íamos deitar tudo a perder com precipitações. E eu tinha um sonho profissional quando comecei esta operação. A captura dessa lenda, que era o Cabeça Branca, era o fundamental. Mas, paralelamente, eu tinha um objetivo: demonstrar que em tráfico de droga podíamos fazer o mesmo do que no processo Lava Jato: não transformar a operação num megaprocesso. Dividi-la por fases: com menos investigados, menos presos e mostrar que o esquema de lavagem de dinheiro para os corruptos é o mesmo usado pelos traficantes. Sou formado em economia, conheço as leis do mercado. Uma organização criminosa é como uma empresa, tem como objetivo o lucro. Não adiantava fazer uma apreensão de droga sem chegar ao topo da pirâmide. O objetivo era localizar o centro financeiro de Cabeça Branca para o poder descapitalizar e acabar com a sua uma organização criminosa.

No fundo, aplicou a estratégia usada para os crimes de ‘colarinho branco’?
Exatamente. Porque até então nunca havia sido feita no Brasil uma operação que pudesse ligar o núcleo financeiro responsável pela lavagem de dinheiro ao traficante. E eu consegui. Chegámos a identificar e prender o ‘super-doleiro’ Alberto Youssef e Carlos Alberto, conhecido por Ceará, que tinha iniciado a carreira como seu funcionário, que tinham sido agarrados durante a Operação Lava Jato por serem os responsáveis por entregas de malas de dinheiro para políticos corruptos. E na quarta fase desta investigação, a que demos o nome de Operação Dominó, verificámos que esses ‘doleiros’ eram os mesmos responsáveis pela lavagem de dinheiro do tráfico do Cabeça Branca.

Voltemos à casa de São Paulo. Como descobre que era a dele?
Primeiro, através das matrículas, identificámos o carro de uma irmã dele. Aí tivemos a certeza que ele era o dono da casa ou também a frequentava. Mas repito: ainda não o tínhamos visto. Permanecia um mistério para nós. Só que um dia um dos meus agentes, ao analisar o trajeto de um desses veículos no SINIVEM que frequentava a casa, identifica que uma outra matrícula de um condutor de uma pick-up Toyota Hilux também fazia a rota do Roncaratti e dos camionistas. Aí, foi uma corrida. Mais uma vez, pediu-se à polícia rodoviária para o intercetar e fazer a foto da sua carta de condução. Quando a fotografia dele chegou, começámos a analisar. Chamava-se Vítor Luiz Moraes, era um empresário oriundo de Minas Gerais. Tinha cabelo e barba preta. O Cabeça Branca, de seu nome Luiz Carlos da Rocha, era de Londrina, Mato Grosso, tinha o cabelo completamente branco e aparentava ser bem mais velho do que este. Comparando a foto com a antiga de Cabeça Branca achámos que havia semelhanças. Mas tínhamos dúvidas, não festejámos, ainda estávamos desconfiados. Então fiz um laudo e pedi que fossem feitas perícias para ver se se tratava da mesma pessoa. Passados 15 dias, o Instituto Nacional Criminalista confirmava que, apesar de ele ter feito plásticas, até removeu um sinal, havia 90 por cento de compatibilidade entre os homens das duas fotos. Aí sim, festejámos. Para nós, passado ano e meio de investigação, ‘Cabeça Branca’ deixava de ser um fantasma e a investigação ganhou um norte.

Tinha também, através dos telemóveis, as localizações celulares que permitia saber onde se encontravam…
Sim. Através dos telefonemas entre eles, percebemos que Cabeça Branca umas vezes estava em São Paulo, e a antena celular correspondia àquela zona do bairro de luxo em São Paulo. Mas também passava muito tempo numa cidade de Mato Grosso chamada Sorriso. Imaginámos que teria aí fazendas, mas não tínhamos o endereço. Então passámos para a fase da captura. E colocámos vários cenários.

Qual foi o primeiro?
Nós não tínhamos ainda registo de Cabeça Branca ao vivo. Um dia, um dos filhos dele falou com Roncaratti e marcaram um encontro num shopping em São Paulo. Falaram por código, mas conseguimos perceber onde seria. Enviámos as matrículas dos carros para o shopping para sermos avisados quando eles lá estivessem. Recebemos o aviso e enviei os meus homens para o local. Eles já lá não estavam. Mas os meus agentes começaram a analisar o sistema de videovigilância e avisam-me que tinham conseguido imagens do Cabeça Branca descendo de uma pick-up com duas mulheres e uma criança. Era a sua quarta esposa, o filho mais novo, ainda criança e a ‘babá’. Via-se depois ele descendo o elevador, caminhando no shopping com o filho, entrando numa loja e comprando bucha.

Faz a descrição desse momento como se fosse um guião para um filme. Foi muito importante para si confirmar que ele não era mais um fantasma?
Aquilo foi de uma empolgação muito grande. Porque agora se via o fantasma caminhando, falando com os filhos. Ele estava trilhando o caminho para a sua prisão! Senti que caminhávamos para o final.

Qual foi o segundo plano?
Traçámos tudo para detê-lo na casa de São Paulo. Ele tinha viajado para Mato Grosso, para Sorriso onde tinha uma casa e fazendas e, através das interceções dele e dos motoristas, percebeu-se que eles também iam para Mato Grosso fazer um carregamento de cocaína para trazer para São Paulo. Eu tinha mandado seis agentes meus para lá e dois ficaram em São Paulo para poderem coordenar os outros colegas que iam estar no terreno. Estava tudo pronto para lhes dar um flagra no regresso. Eu já tinha os mandados de detenções, de buscas e de apreensão, e 150 agentes da polícia federal mobilizados. Mas para além dos meus homens ninguém mais sabia o que se estava a preparar. Os outros policiais estavam apenas prontos para uma operação de grande complexidade. Só que, de repente, fez-se um imenso silêncio: os telefones não falavam mais nada. Como estávamos numa grande expectativa e, numa região próxima da fazenda dele tinha havido a prisão de um avião transportando uma grande quantidade de cocaína, pusemos a hipótese de que ele estivesse com medo e se preparasse para fugir.

Quer dizer que, quase dois anos depois de ter começado a investigação, estava com os nervos em frangalhos?
Confesso que sim, estava num nervoso muito grande, mas não podia passar isso para os meus homens. Havia uma grande tensão porque muitos colegas tinham falhado a sua captura, eu tinha movimentado muitos recursos, muitos polícias e, entre a equipe, havia a noção de que, se a operação falhasse, podia ser o fim das nossas carreiras. E seria uma humilhação. Mas, 15 dias depois, os telefones começaram a dar sinal de vida. O Cabeça Branca tinha decidido ficar mais uns dias por ali porque tinha de renovar a carta de condução. Mas como estava na fazenda, que fica num ermo, não tinha rede e, como ele estava em silêncio, os motoristas e Roncaratti ficaram também em silêncio. Quando voltaram a falar, não perdi mais tempo e tomei a decisão de o deter no Mato Grosso. 

Mas ainda não tinha a morada exata dele?
Não, e começa nova caçada. Eu só tinha mandado seis dos meus homens para lá. Requisitei mais dois. Nas escutas percebemos que, para além de Cabeça Branca ir renovar a carta de condução na segunda-feira, e isto foi numa quinta-feira, o filho dele tinha adoecido e fora a um hospital da zona. Sabíamos apenas que a sua mulher se chamava Fernanda e o garoto Vítor. Então, esta pequena equipa desdobrou-se: enquanto uns apuraram todos os locais da zona onde ele pudesse ir tratar da documentação, os outros percorreram todos os hospitais e postos de socorro para descobrir onde o menino tinha sido visto, e descobrir o endereço.

Estava montado novo cerco…
Então a equipa, que se fez passar por elementos do Lava Jato, porque nós não queríamos deixar algum rasto que alertasse Cabeça Branca, lá conseguiu, num hospital, identificar uma mãe e uma criança com aquele nome que tinha deixado um endereço em Sorriso.

Ganharam novo fôlego?
Claro. Então, nessa madrugada de sexta-feira, eu solicitei ao juiz um novo mandado de busca e apreensão. Ao final do dia, a ordem judicial saiu. Localizámos a residência, mas não havia lá ninguém. Montámos vigilância. Até que, no sábado de madrugada, às 3h30, os meus homens me avisam da chegada à casa de uma pick-up. Mas os vidros fumados não permitiam que se avistasse ninguém. A ordem que eu dei era que só se fazia a abordagem a partir do momento em que se fizesse a identificação visual de ‘Cabeça Branca. Só no outro dia, ao meio-dia e meia, é que os meus homens me avisam de que a pick-up estava a sair de casa. Parou numa padaria da cidade, a mulher e o menino ficaram na viatura e ele foi naturalmente comprar pão. Foi desta forma prosaica que se apanhou a lenda. Ele nem reagiu, brincou até com os meus agentes. Eles lhe perguntavam se ele era o Luiz Carlos da Rocha e ele respondeu rindo que era o Vítor Luiz Moraes.

Qual foi a sua reação quando finalmente se encontra com ele cara a cara?
Não defraudou as minhas expectativas. Antes pelo contrário. Era uma pessoa calma, educada, nunca se alterou durante o interrogatório. Havia nele um misto de desolação, por ter sido capturado, mas também estava impressionado. Perguntou para mim: «Doutor, conte-me, como me descobriu?». Porque, segundo ele, já se preparava para a fase de aposentadoria e nunca esperou ser detido. Era um homem muito inteligente. Há várias técnicas de investigatório. Comecei tentando ganhar a confiança dele. Mostrei para ele que tinha conhecimento total da investigação e, como eu já tinha feito outras operações usando a técnica da descapitalização patrimonial, houve um certo momento que ele diz o seguinte: «Você busca o dinheiro, não é doutor? Mas olha, eu vou falar, você não vai conseguir alcançar o meu património no Paraguai». E isso, de facto, foi outro desafio. Hoje posso dizer que já identificámos um património de mais de 300 milhões de dólares no Paraguai, boa parte já está arrestada, mas a operação ainda continua. A Spectrum ainda não acabou, segue outras fases.

Como é que ele conseguiu esconder o património?
Nas buscas à sua residência encontrámos escrituras em nome de outras pessoas, os ditos testas-de-ferro. Só no Brasil identificámos dezasseis fazendas, várias aeronaves, empreiteiras, muita coisa. Para já não falar no que ele tinha no Paraguai. Ele foi dos homens mais ricos do mundo, só não apareceu na Forbes porque tinha o património escondido. Uma das coisas que me chamaram a atenção foi a contabilidade dele: fazia inveja às melhores empresas. Foi assim que identificámos que ele movimentava 5 toneladas de cocaína por mês, o que dava 60 toneladas por ano. Um lucro de 80 milhões de dólares. E ele me disse que nesta altura já estava a desacelerar o negócio e a pensar na velhice. Se ele já estava a desacelerar, imagine-se o lucro que não teria tido há dez anos!

Ele falou?
Assumiu algumas coisas, mas recusou dar os nomes dos seus fornecedores e dos compradores.

Por uma questão de honra, ou por medo de que o matassem na prisão?
Temos uma mistura de uma certa ‘honra criminosa’, porque ele era conhecido aqui como o embaixador do tráfico, e porque nunca se envolveu em guerras: dava-se com todas as outras organizações rivais no Brasil, como o Primeiro Comando da Capital ou o Comando Vermelho, e era conhecido por um homem «no fim do bigode», ou seja, um homem de palavra. O facto de ele não ter feito uma delação premiada não era tanto pela segurança pessoal dele, mas pela da família. Ele disse que prefere morrer na cadeia a colocar a família em risco. E como era um grande líder, o maior traficante da América do Sul e um dos maiores do mundo, ele só tinha conexões com grandes traficantes internacionais do mesmo nível. Um homem condenado a mais de cem anos de cadeia não ganha muito em fazer uma delação premiada.

Penso que a captura do Cabeça Branca foi decisiva para a sua carreira. Em 2019, foi nomeado coordenador-geral do departamento de Repressão a Drogas e Fações Criminosas da Polícia Federal Brasileira, e a partir daí ficou conhecido, no Brasil e a nível internacional, por ser o craque de vários desmantelamentos de droga de âmbito internacional. Recentemente, o senhor esteve no centro dos media portugueses por liderar a investigação da apreensão de cerca de 500 quilos de cocaína num jato português. Acha que essa droga pertence a uma grande organização criminosa?
É muito cedo para falar nisso, até porque estamos ainda fazendo, com a colaboração dos nossos congéneres portugueses, a análise financeira das pessoas envolvidas. Mas neste momento, já vos posso adiantar que não há uma única prova que ligue João Loureiro à cocaína.

Quem persegue este tipo de crime costuma ser alvo de ameaças. É o seu caso?
Não adianta ameaçarem-me, porque a aplicação da minha doutrina – a descapitalização patrimonial e a investigação direcionadas à lavagem dinheiro no combate ao tráfico de droga – fez escola. Se eu sair, isto vai continuar.

Tem segurança?
(risos) Tenho uma equipa boa, entre os meus homens, que garante essa segurança.

Consegue ter uma vida normal?
Sim. Levo uma vida discreta. Sigo o lema do Cabeça Branca.