Politica

Isabel Moreira: "Sempre cresci com medo de perder o meu pai"

Diz-se ‘lutadora pela igualdade’, é crítica acérrima da sociedade portuguesa e nunca esteve ‘tão certa’ quanto ao seu socialismo.


«Apesar de tudo, tudo, tudo/ Ainda somos os mesmos/ E vivemos/ Como os nossos pais». É assim, através da música de Elis Regina, que Isabel Moreira fala das conquistas da sua geração - equiparando-as às da anterior. «Ainda somos os mesmos»: sempre pelo progresso. Se dantes se derrubavam ditaduras, hoje derrubam-se preconceitos. Pelo menos é da vitória nessas lutas - particularmente no que respeita aos direitos LGBT - que Isabel Moreira mais se orgulha enquanto deputada.

Sempre rumo à «igualdade», a tal pela qual «tomou partido a Constituição».Vê-se muita da sua pessoa na sua pessoa, o que talvez não se espere da ‘Isabel Moreira durona’ a que nos habituou a opinião pública. E por se ver muito da sua pessoa na sua pessoa, vê-se muito coração: na maneira como fala de quem sofre por homofobia, na maneira como fala sobre quem quer morrer, na maneira como fala da sua família e dos que partiram demasiado cedo. Autoproclama-se «libertina» mas não se consegue libertar de si: apesar de Isabel ter procurado que a entrevista fosse mais política do que pessoal, há tanto de pessoal na sua política que não conseguiu fugir a isso.

E o seu pessoal - e, por consequente, político - é humanista: o que muitos não diriam da cara da lei da eutanásia em Portugal. Diz sentir «muito a urgência» em tentar ajudar «quem é de carne e osso», provando-se assim, ela própria, de carne e osso. 

Engoliu todos os adjetivos diminuidores do dicionário, fez deles munições e dispara-os de metralhadora à testa da sociedade portuguesa - «homofóbica, sexista,  e racista». Rejeita que se compare o radicalismo do Chega ao dos seus parceiros de geringonça. Ataca o PSD, notando-o omisso na defesa das minorais e atirando uma flecha a Rio, que «ou é ignorante ou candidato a comediante».

Sente-se sortuda pelo facto de o pai, Adriano Moreira, que sempre teve «medo de perder», estar quase a fazer 100 anos. Não esconde, todavia, emoção quando pensa que a «estatística» não se estendeu a outros membros da família. Por ser «feita de explosões», rompeu com o conservadorismo em que nasceu imbuída - o democrata-cristão, que partilha do humanismo de que padece. É que afinal, voltando a Regina, «ainda somos os mesmos/ e vivemos/ como os nossos pais».

Está há cerca de dez anos na Assembleia da República. O que recorda desta década?

Recordo as conquistas que em termos de igualdade foram uma caminhada muito grande. Quando entrei para a AR já estava aprovado o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Lembro-me de que no período de Pedro Passos Coelho e Paulo Portas todas as propostas no sentido de evoluirmos na igualdade foram sistematicamente chumbadas e, portanto, parecia que tínhamos conseguido uma coisa que era - e foi - absolutamente central na luta contra a discriminação. Sem uma viragem na maioria parlamentar não conseguiríamos passar daí. Houve momentos violentos nessa legislatura, nomeadamente o enorme sinal de homofobia que a AR deu ao país e ao mundo quando chumbou a coadoção [por casais homossexuais]. Esse foi um momento particularmente inesquecível naquilo que foi a brutalidade contra pessoas concretas. E, finalmente, no ultimo dia da legislatura de Passos Coelho, houve uma reversão brutal na lei da interrupção voluntária da gravidez (IVG). A alteração foi feita de forma tal que passou a ser muito difícil exercermos o direito à IVG.

Depois, fizemos uma maioria de Esquerda e aprovámos todos os passos seguintes da igualdade. Sente-se de facto uma diferença brutal entre estar-se com uma maioria à esquerda ou à direita no que toca à igualdade. Houve uma outra coisa de que nunca me esquecerei: de não alinhar com a abstenção violenta relativamente ao primeiro Orçamento do Estado de Passos Coelho e ter por absolutamente certo de que o corte do 12.º e 13.º salários eram inconstitucionais. Se não tivesse havido o movimento de ida ao Tribunal Constitucional e consequente declaração de inconstitucionalidade, hoje seria possível discutir o corte do 12.º ou do 13.º mês como uma política a recorrer. E ficou assente que isso não é possível. É um dos momentos de vertigem política mais acertados que guardo na memória.

Sente que hoje a Direita portuguesa é mais permeável ao assunto dos direitos LGBT?

A Direita portuguesa, hoje, não é uma coisa abstrata. Está, infelizmente, permeável a uma direita reacionária que chegou ao Parlamento. A partir do momento que o PSD faz um acordo com o Chega nos Açores, há qualquer coisa que passou a ser normalizável – que é a extrema-direita. O PSD no tempo de Teresa Morais era um PSD muito mais preocupado com as questões LGBT. Se hoje for ler o programa de igualdade do PSD, é um programa que em matéria de direitos das minorias diz exatamente…. nada. A Teresa Morais chegou a receber um prémio pelas campanhas anti-bullying LGBT. Não eram pessoas totalmente alienadas dessas preocupações. Hoje é uma Direita muito conservadora – ou omissa.

Mas não é suposto a presidência de Rio ser mais progressista do que a de Passos Coelho?

Rui Rio é progressista, nomeadamente na matéria da eutanásia. Disso não há dúvida nenhuma. Agora, sozinho não faz o PSD inteiro. O PSD é um partido que, com Rui Rio, foi capaz de fazer um acordo com o Chega nos Açores. É um partido que fez uma programa de governo particularmente vazio em matéria de igualdade de género e que é uma nada em termos de direitos LGBT. É com Rui Rio que o PSD tem sido bastante gelatinoso quando debate com André Ventura.

Poder-se-á dizer que se é verdade que o PSD se alinhou com a extrema-direita nos Açores, o PS alinhou-se com a extrema-esquerda no Governo.

A partir do momento em que se faz uma simetria entre o Chega, de um lado, e o BE e o PCP, do outro, perdemos o norte acerca da democracia. O BE e o PCP, na sua vivência parlamentar e partidária, nunca quebraram o compromisso com a democracia. O PCP e o BE não têm uma prática partidária racista, xenófoba, anti direitos liberdades a garantias. Pelo contrário: o BE e o PCP estão do lado certo da história no que toca à defesa de direitos liberdades e garantias e ao combate ao racismo, xenofobia, homofobia e sexismo.

O Chega, pelo contrário, já anuncia ao que vem: quer uma nova República, rasgar esta constituição, já propôs cercar um etnia durante o confinamento, acha aceitável mandar uma deputada negra para a ‘sua terra’, tem um líder condenado pelo Supremo Tribunal de Justiça por afirmações que proferiu acerca de uma família negra, defende a prisão perpétua, a pena de morte, a castração química. A simetria entre o Chega e o BE e o PCP só pode ser feita por pessoas que têm pouco apego à democracia e, sobretudo, pouca noção do que é a história da democracia em Portugal.

Há aí uma palavra-chave, que é Portugal. Contudo, pelo mundo fora, é contestável que os partidos comunistas garantam ‘direitos, liberdades e garantias’. Acha que o PCP é um partido desatado dos comunismos que causaram muitas mortes pelo mundo? 

Desde 1974 acha que em Portugal há uma pegada do Império Soviético a tentar esmagar os nossos direitos, liberdades e garantias? Isso é esquecer-se que a história de Portugal – goste-se ou não – é o que é. Assim como não há quem possa pensar na Alemanha sem ter uma visão do que foi a Direita lá, nós não nos podemos esquecer do que foi o PCP em Portugal. Goste-se ou não, o partido que mais combateu o fascismo em Portugal foi o PCP.

O PCP tem, no seu programa e na sua prática, uma fidelidade ao pacto constitucional que ninguém pode negar. E, aliás, devo dizer que não tenho de funcionar como advogada do PCP, porque sou socialista. Não tenho qualquer simpatia pelas simpatias internacionais do PCP, mas acho que não é justo estar sempre a perscrutar os alinhamentos do PCP em termos internacionais e nunca fazer qualquer questionamento acerca dos alinhamentos internacionais dos restantes partidos.

Queremos mesmo pureza ideológica internacional a ser uma espécie de polígrafo relativamente a todos os partidos?

Vamos a isso, mas garanto-lhe que nenhum se sai bem.

Acha que em Portugal admitimos mais existir um PCP pelo que facto de ter combatido o fascismo?

Claro: o PCP tem uma história específica, que não há como não reconhecer. Teve um papel na história da democracia. Em cada país terá o seu peso concreto. É o que é. O PCP é o que é na história de Portugal, assim como a democracia cristã tem um peso em países que não tem em Portugal.

Existe democracia cristã em Portugal?

A democracia cristã neste momento está bastante apagada. Acho que existe em algumas pessoas. Neste momento está a atravessar um período difícil. 

Francisco Rodrigues dos Santos é um democrata-cristão?

Se ele diz que sim, eu não contesto a auto definição dele.

Na Europa vemos os Tories a celebrar o Pride Month. Em Espanha vemos o PP a não permitir que o Vox revogue leis LGBT. Por que é que acha que em Portugal um partido como o CDS tem dificuldades a aderir à causa LGBT? 

Para mim é uma das razões do caminho para a extinção do CDS. Poder dizer-se em voz alta ‘eu sou gay’, ‘eu sou lésbica’ ou ‘eu sou transexual’ não é uma questão de capricho ou de ideologia. É uma liberdade de expressão. Não tenho que dizer ‘sou heterossexual’, porque o mundo – a norma – foi construído para mim. O mundo é todo ele facilitado para mim, para mais sendo eu branca. Alguém poder-se afirmar como lésbica ou gay e dando esse nome é de uma liberdade enorme. E sem essa liberdade de expressão nós não poderíamos ter depois as políticas correspondentes que foram feitas.

Claro que é fácil para quem não convive, não conhece, não estuda a fundo o horror que foi até há tão pouco tempo ser-se gay em Portugal – uma sensação de pecado, de crime, de exclusão, de doença, tudo junto – é fácil dizer que ‘é uma questão identitária’ e que ‘para nós são todos pessoas’. Dizer-se isso é uma crueldade. É um profundo desconhecimento da história. 

E esta posição do CDS vai prejudicá-lo politicamente?

Claro que vai prejudicar. António Costa – uma pessoa que ninguém verá como um ativista LGBT – é um primeiro-ministro que no dia do orgulho hasteia a bandeira arco-íris. É um primeiro-ministro que já marcou determinados momentos em relação aos direitos LGBT com a sua palavra, com a sua presença. E, portanto, sabe, e compreende, que é uma questão não apenas importantes para as pessoas LGBT mas que as pessoas democratas em geral já não compreendem a sociedade sem o respeito por todas e por todos.

É verdadeiramente um orgulho ter um primeiro-ministro que no dia do orgulho hasteia a bandeira arco-íris, que quando foi o ataque a Orlando, no meio de tanta discussão sobre se seria homofobia ou não – que era evidente –, não hesitou em declará-lo como tal e a expressar a sua condenação. Ter um primeiro-ministro assim é o que de facto, hoje em dia, tem de ser. Já não faz sentido ser de outra maneira. Partidos que silenciam, têm vergonha e se arrepiam com uma passadeira arco-íris são partidos mal resolvidos. Que estão de costas voltadas para a constituição – que claramente diz que não deve haver discriminação em relação à orientação sexual. 

Em 2018, uma escola no Porto [Escola Básica Francisco Torrinha] perguntou a crianças de 10 anos qual era a sua sexualidade. Não acha que, por vezes, o assunto vai longe demais?

Não conheço esse exemplo. Tem que se discutir a questão macro, que é decidir se a disciplina de cidadania é importante ou não. E estar-se a discutir, em 2022 – com os índices que há de violência doméstica e de género, do bullying que há a crianças por causa da sua orientação sexual, raça, ou etnia – se deve haver ou não uma disciplina que constrói cidadãos e cidadãs é absolutamente esdrúxulo.

E só um discurso alinhado com o pior da extrema-direita populista e reacionária brasileira e americana é que pode questionar a existência de uma disciplina que obviamente não é neutra. Porque a Constituição não é neutra: tomou partido pela igualdade – diz claramente que a igualdade está certa e a desigualdade errada. Mal seria que depois a escola não concretizasse esse quadro. Depois se há exemplos concretos na escola A, B ou C que sejam denunciados e corrigidos. Mas isso não é razão para se pôr em causa a existência obrigatória da disciplina. Não concordo com o programa curricular de História na parte dos chamados ‘Descobrimentos’, mas nunca me passaria pela cabeça lutar para que os meus filhos saíssem da disciplina.

Mas em relação ao caso concreto destas crianças de 10 anos, admite que será um abuso da sua privacidade perguntar-lhes a orientação sexual…

É um disparate! Não faz sentido nenhum perguntar a quem quer que seja a sua orientação sexual. O que se deve é explicar às crianças que é normal qualquer uma das orientações sexuais. Não se esqueça que as crianças filhas de pessoas LGBT também estão na escola. E, portanto, as crianças convivem umas com as outras não numa lógica de ‘família’ – como diz alguma Direita que quer extinguir a Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG) e criar uma ‘Comissão de Defesa da Família’, a la Estado Novo – mas numa lógica de ‘famílias’: no plural. A partir do momento que temos crianças filhas de LGBT na escola, não vamos falar de assuntos LGBT nas escolas? Vamos invisibilizar as crianças? Os pais delas vão ser invisibilizados? Os assuntos são falados – e, felizmente, na maioria dos casos, de maneira bem sucedida. 

Um dos seus momentos mais conhecido foi a fotografia da Reuters em que aparecia a pintar as unhas no debate para o Orçamento do Estado de 2019? Volvidos três anos, como olha para isso?

Já disse o que tinha a dizer sobre o assunto.

Vamos à eutanásia. O diploma pelo qual tanto lutou acabou novamente por ser vetado por Marcelo, tendo o seu processo legislativo caducado com a dissolução da AR. Se eleita, voltará a trazer a eutanásia a debate?

Claro. Só é preciso corrigir duas harmonizações que não foram revistas na redação final e que foram suficientes para Marcelo Rebelo de Sousa utilizar, vetar e fingir que havia sido alargada a amplitude do diploma.

Fingir?

Claro, não houve alargamento nenhum. A ideia de que estávamos a alargar a eutanásia a situações como tetraplegia é absurda. Foi uma manobra argumentativa do Presidente da República. No acórdão, o Tribunal Constitucional (TC) não se refere à inconstitucionalidade dessa parte do diploma, o que pede é uma maior densificação.

O Presidente alude ao perigo de estarmos a fazer uma abertura como na lei espanhola, quando é o próprio TC que recomenda a densificação nos termos da lei espanhola. O que acho é que – sim – falhou uma harmonização da redação final em dois preceitos daquilo que é as definições genéricas do preceito principal, e o Presidente aproveitou isso para criar um problema que não existe. 

Então Marcelo não quer que a eutanásia passe?

Marcelo é pessoalmente contra, e acho que fez uma coisa inteligente que foi aproveitar a má uniformização em dois preceitos na redação final para criar a ideia de que haveria um problema mais profundo no diploma – quando não há. O Presidente interrompeu um diálogo que existia entre AR-TC: o último pronunciou-se sobre a primeira versão, disse que tinha de ser aprofundada; nós fizemo-lo e o Presidente, em vez de dar a oportunidade ao TC para dizer se aprofundamos bem ou não, decidiu vetar politicamente. Para mais sabendo que a AR estava dissolvida. Resta saber se temos que começar tudo de novo ou se basta confirmar o diploma. Seja como for, jamais desistiremos das pessoas que esperam angustiadamente por esta lei – que foi, talvez, a que teve a maioria mais forte de que tenho memória.

A Isabel classifica quem é racista ou homofóbico como ‘reacionário’. Considera que quem seja contra a eutanásia também o seja? 

Não, claro que não. A eutanásia é um tema muito difícil e complexo. Independentemente de se estar a favor ou contra, qualquer pessoa de boa-fé reconhecerá que a eutanásia em Portugal foi das discussões mais abertas, profundas, participadas e honestas que houve. O que acho reacionário é dizer-se que foi feito à pressa, em cima do joelho. Não, não foi.

Quando os partidos apresentaram pela primeira vez este projeto já tinha havido um movimento quanto à eutanásia. Os processos legislativos em si, quer na legislatura anterior quer na anterior à anterior, foram participadíssimos. Por alguma razão foi assim: porque não é uma matéria fácil. Compreendo perfeitamente que as pessoas não tenham posições definitivas sobre ela. 

Ouvindo-a a falar sobre o assunto nota-se que lhe é muito pessoal. 

Tem a ver com a forma como vivo as coisas. Vivo as coisas de forma muito carnal, como se sentisse nas costa a violência que é para as pessoas, de carne e osso, não terem, já!, a lei em causa. Vivo muito o sentido da urgência – de como o tempo é muito curto e de que a concretização de direitos é essencial para, em cada lei, determinar em muitos casos o sentido de uma vida.

De facto, quando as questões têm a ver com direitos humanos e fundamentais, envolvo-me talvez demasiado – no sentido em que não crio distanciamento suficiente para não pagar tanto em termos da minha própria saúde. Não durmo bem, vivo com intensidade demasiada, não consigo desligar. Mas depois, quando as coisas são conquistadas, fico com um grau de felicidade delirante – no bom sentido. 

Vive tudo à flor da pele.

Vivo muito à flor da pele, sim. 

Suponho que concorde com isto: como se explica a alguém que dar-lhe o direito de morrer é um ato de amor?

Falando de uma maneira não jurídica, é de um enorme sentido ‘do outro’, de amor, de compaixão. As pessoas que têm a experiência de perder alguém muito próximo de uma maneira que nós sabemos que ‘foi melhor assim’– se tivesse sido de outra maneira teria sofrido muito ou teria ficado ligado a máquinas – dizem-no ‘assim’ pelo outro. Por amor. Porque nós conhecemos o outro e não queríamos que a pessoa ficasse dependente, perdesse a sua identidade, a sua noção de dignidade. Quem já passou por isso sabe isso.

Se fosse por nós, por egoísmo, queríamos que a pessoa não morresse. Queríamos que a pessoa ficasse connosco nem que fosse no nosso quarto, numa cama, a olhar para nós, em que lhe daríamos beijos só para a pessoa não se ir embora. Mas quem ama a pessoa prefere que ela morra para não perder a sua noção de dignidade e autonomia. Tem a ver com isso: tem a ver com eu não ser dona de uma visão totalitária, minha, do que seja a vida – mas permitir, em determinadas circunstâncias, que as pessoas se autodefinam e digam ‘isto para mim já não é vida’. E permitir que não haja perseguição penal para situações dessas é ter, de facto, esse sentido de altruísmo e do outro.

E a comunidade é esse acolhimento: permitir que pessoas que queiram viver até ao fim – independentemente do seu sofrimento – sejam absolutamente protegidas, mas permitir também que quem diga ‘eu não quero mais’ tenha o direito de fazer a sua escolha. Quanto mais se a pessoa está consciente e quer isso. Como é que olhamos para uma pessoa que precisa de ajuda para morrer em dignidade e dizemos ‘eu obrigo-te a viver’? Acho que não há nada mais violento que isto. Dizer: ‘Eu, Estado, obrigo-te a viver – e mais: se alguém te ajudar esse alguém vai para a prisão’. Este é um Direito Penal de uma crueldade sem nome. E, portanto, tem que se fazer uma lei muito cuidadosa – acho que fizemos, e voltaremos a ela. 

Vamos supor que a lei passava. Não acha que isso se tornaria numa espécie de gatilho para pessoas mais frágeis?

Não, porque a lei tinha todos os mecanismos de salvaguarda. Aliás, foi criticada por pessoas que são a favor da eutanásia por ser cautelosa demais. A lei tem tantos passos – que são precisos dar para que a pessoa possa exprimir o seu consentimento e ser eutanasiada – que pensou nisso. Nós temos muito essa ideia de rampa deslizante em Portugal: foi acenada quando foi a IVG e quando foi a despenalização das drogas, provando-se errada das duas vezes.

Temos vistos os conservadores a perderem constantes batalhas. Perderam no debate sobre a IVG, perderam na questão dos direitos LGBT e perderam, para já em plenário, na questão da eutanásia. E isto não acontece só em Portugal. O progresso já venceu? 

Acho que nunca foi tão importante ser de Esquerda como agora. Tínhamos mais ou menos trinta anos quando este tipo de direitos começaram a ser conquistados, e verificamos que aconteceu como aconteceu ‘com os nossos pais’, como na música da Elis Regina. Os direitos, se não forem permanentemente vigiados e defendidos, podem ser postos em causa por uma onda reacionária. É uma realidade: viu-se o que aconteceu no Brasil, nos EUA, em alguns países da Europa.

Temos que ter sempre presente que a democracia, a liberdade e a igualdade são bens absolutamente preciosos. A existência de uma extrema-direita em Portugal não me levaria a perder muito tempo a falar dela. O perigo da extrema-direita é quanto ela contamina a Direita clássica. Ou a Direita democrática cria um muro intransponível com a extrema-direita ou não me sinto sossegada. É de facto um momento importante para nos afirmarmos de Esquerda, mas como uma Esquerda responsável.

Aquilo que conseguimos em Portugal durante a pandemia foi absolutamente extraordinário, com imenso mérito dos portugueses e das portuguesas. Houve de facto uma adesão à ideia de que tínhamos de combater. As pessoas foram altamente sacrificadas mas aderiram à ideia de solidariedade. Entre outras coisas, fizemos uma lei em que libertámos pessoas detidas, e conseguimos que as pessoas percebessem que era importante que o nosso humanismo não encontrasse no muro das prisões um muro.

Acho que foi incrível tudo isto ter sido feito, e quando estamos numa altura em que entendemos que estamos melhor e temos um plano ambicioso para recuperar o país, a Esquerda à esquerda do PS falha. E se na primeira pergunta me perguntava os momentos que me marcaram, um dos momentos que mais me marcou foi este último: porque senti, por parte do BE e do PCP, uma perplexidade de não adesão ao sofrimento e à esperança das pessoas e apenas adesão à leitura partidária do momento. Indignou-me.

E, portanto, nunca tive tanto sentido de militância e certeza de que estou no lugar certo como agora: acho que António Costa merece, como nunca, o voto dos portugueses. O momento de atirar a toalha ao chão do PCP e do BE é incompreensível. Acho que foi mesmo um cálculo que espero que as pessoas leiam da maneira correta. 

Essa visão é transversal à bancada do PS?

Sim. 

Num cenário de vitória sem maioria absoluta do PS, há a possibilidade de Costa sugerir a Marcelo que convide Pedro Nuno Santos para ser primeiro-ministro porque este reunirá a geringonça?

Esse cenário não se coloca. Todos os sinais apontam para uma vitória do PS. António Costa já deixou claro que não virará as costas aos portugueses. Penso que ganhará as eleições (não sei com que maioria, mas sei que irá ganhar). O que tem de fazer é ler os resultados eleitorais. Quem determina as leituras que António Costa terá que fazer são os portugueses – António Costa olhará para a composição parlamentar que os portugueses desejaram e tirará conclusões. Não faz sentido outros cenários.

E com que partidos poderá entrar em diálogo?

Aqueles que os portugueses decidirem. Não tenho de fazer esse tipo de cálculo.

Mas os portugueses vão pôr o Chega no Parlamento. Suponho que António Costa não queira governar com o Chega.

O que entendo é que, neste momento, o PS tem um projeto para uma maioria o mais estável possível. Espero que os portugueses deem essa maioria ao PS – de preferência absoluta: digo-o sem medo. E se não for absoluta, o que resultar do Parlamento terá que ser observado.

Mas em princípio o PS não governa com PCP nem com BE, certo?

Primeiro não é ‘governar com’. Nem o PCP nem o BE alguma vez fizeram parte do Governo. Obviamente que, vencendo sem maioria, terá que falar com todos: incluindo com o BE e o PCP. Agora, há várias formas de governar. Pode-se governar à anos 90 – diploma a diploma –, pode-se governar com acordos, pode-se governar sem acordos. Tudo depende do que for o resultado das eleições.

Aquilo que acho que seria melhor para todos era a maioria mais estável possível do PS. É muito difícil ter uma maioria absoluta tendo em conta o sistema eleitoral e a quantidade de partidos que se apresentam a eleições, mas se há pessoa que tem perfil para isso, obra feita, credibilidade e um horizonte de esperança é António Costa.

Nasce numa família politicamente de Direita e pertencente à elite social. O seu pai foi ministro no Estado Novo. Como é ser de Esquerda nestes meios?

Já expliquei isso muitas vezes. É a liberdade em casa, a democracia em casa.

Nasceu de Esquerda ou fez-se de Esquerda?

Fiz-me de Esquerda.

Com que idade percebeu que o seu coração estava à esquerda?

Aí pelo 12.º ano.

E antes tinha pensamentos conservadores estruturados?

Claro que tinha.

Então rompeu.

Rompi. A minha vida foi muito de cortes, rompimentos e explosões. Mas os meus pensamentos conservadores estruturados não vinham apenas da minha família. Vinham de uma sociedade que é estruturalmente homofóbica, sexista e racista e que, obviamente, não havendo uma disciplina de cidadania, não foi contrariada mais cedo do que eu desejaria.

Quando fala em sociedade fala da sociedade portuguesa ou fala do meio social em que cresceu?

Falo em sociedade portuguesa, que é estruturalmente sexista, homofóbica e racista. 

Neste momento, o seu pai, Adriano Moreira, está a caminho dos 100 anos. Como tem sido viver esta aventura?

É uma data impressionante. Todos os dias sinto-me cheia de sorte de ter o meu pai comigo, porque desde nova sempre tive consciência que o meu pai era mais velho do que a média das idades dos pais das minhas amigas e amigos. Sempre cresci com medo de perder o meu pai. E contra todas as probabilidades estatísticas, o meu pai está muito bem e vai fazer 100 anos. Na minha família as estatísticas têm funcionado ao contrário, infelizmente. 

Vemos hoje emergir uma cultura que procura cancelar todos aqueles que estiveram do lado ‘errado’ da história, simplificando-os entre os ‘bons’ e os ‘maus’. O seu pai teve do lado do Estado Novo. Como veria se, de repente, a cultura de cancelamento tentasse cancelar a sua vasta obra?

Mas alguém foi cancelado em Portugal? Não sei o que é a cultura de cancelamento em Portugal, peço desculpa. Acho que as pessoas podem fazer pressão para que as pessoas não leiam, vejam ou ouçam pessoas que consideram ‘más’ ou que tenham características abomináveis. Entrei recentemente para o Twitter, mais para poder ler os outros do que para entrar em debate – não faço parte desse campeonato. Mas não creio que em Portugal tenhamos o problema de alguém perder o emprego, deixar de ser lido ou ter os livros boicotados.

A ideia de cancelamento é uma ideia repugnante: as ideias e as palavras combatem-se com ideias e com palavras. Não é com apagamentos, silenciamentos, perseguições – isso é um absurdo. Claro que quem se expõe publicamente tem de estar preparado para a crítica e para a violência da multidão contra si. Agora a lógica de se poder retirar alguém do mercado ou ser vítima de violência tal que a pessoa se sinta impossibilitada de continuar a trabalhar é abominável.

Aprendi com o meu professor de Filosofia que as palavras se combatem com as palavras. No que toca ao politicamente correto, eu defendo a correção política: tem a ver com o respeito ao outro através das palavras. Não uso palavras que diminuam, que esmaguem, ou multipliquem lógicas opressoras sobre o outro. Tento que mais pessoas façam isso, mas não obrigo ‘a que’ nem persigo quem não o faça, é mais numa lógica de pedagogia. A ideia de perseguição e cancelamento é obviamente abominável.

Acha que isso é algo que separa a Esquerda clássica da Esquerda pós-moderna? Em que entraria, por exemplo, o BE.

Não sei se o BE defende oficialmente a cultura de cancelamento. Sou uma libertina, por natureza jamais cancelaria quem quer fosse.

Estilo Marquês de Sade, em que não há limites para nada?

Claro que há limites para liberdade de expressão. Esse debate é muito longo, muito complexo, não quero que saia daqui a ideia errada. Na minha televisão, por exemplo, só vejo aquilo que quero: escolho não ver humoristas que usam racismo, homofobia ou sexismo como temas de humor porque não acho piada.

Mas não quer que eles deixem de existir.

Não, mas acho que não têm piada e faço apologia dos que acho que têm piada. Mas se, por exemplo, alguém violasse a minha privacidade num livro, do ponto de vista jurídico-penal, aí pode ter a certeza que tentaria uma ação para que o livro fosse retirado do mercado. Mas isso é porque seria um crime. Os limites para mim são esses. O resto não cancelo, argumento. 

Falava da Direita clássica. O partido que o seu pai liderou nos anos 80 é o mesmo CDS de hoje?

Não gosto de falar do CDS a partir do meu pai. Não gosto de pessoalizar a política – a política não é biográfica. Acho que o CDS sofreu uma erosão muito grande, e que há vários CDS. O CDS do Freitas do Amaral e do Adelino Amaro da Costa – e depois de Lucas Pires, do meu pai ou de Narana Coissoró – é um muito diferente do de Paulo Portas. E dentro do CDS de Paulo Portas houve vários CDS.

O primeiro a utilizar a expressão ‘subsidiodependente’ foi Paulo Portas – não apareceu agora a ideia de que há pessoas que vivem sem trabalhar. A ideia de ‘deputados sanguessugas’ nasce com Manuel Monteiro. Devemos ao CDS, infelizmente, o rebentar de algumas ideias antirregime, que perceberam que isso talvez trouxesse alguns votos.

O CDS aí dá um salto – perceberam que o populismo lhes deus jeito e depois decidem abandoná-lo – e nasce o ‘Portismo’ sem populismo. Este CDS tenho dificuldades em entender: parece um partido bastante perdido. Não entendo como é que o CDS pode perder tanto tempo com a ideologia de género, com as touradas, com a extinção da CIG – que teve pessoas como a Maria de Loures Pintassilgo à frente, meu deus – ou exigir referendos para leis fundamentais.

Acha que falta coração à Direita atual?

Não. Acho que o que falta à Direita é um projeto alternativo consistente. O que se tem verificado ao longo desta campanha é que a palavra mais frequente nas propostas de Rio é ‘talvez’. Salário mínimo, ‘talvez’. Pensões, ‘talvez’. Impostos, ‘talvez’. Isso dá uma aparência de homem responsável – porque ele é sempre visto como homem sério e honesto, desde já nas capas de jornais – mas a verdade é que isto não dá nenhuma perspetiva. Isto não são propostas.

Não podemos dizer: salário mínimo sim, naquele quadro talvez. Uma pessoa tem que dizer ao que vem: é normal um partido dizer se é a favor ou não. Não basta ter a fama – com certeza merecida – de pessoa honesta. Com certeza todos os líderes partidários são honestos. Não me passa pela cabeça presumir que algum líder partidário seja desonesto.

Incluindo André Ventura?

Não quero perder tempo com André Ventura. Se o PSD apresenta um projeto de Revisão Constitucional, é preciso entender quais são as linhas fundamentais. Não pode dizer que é um grande defensor da transparência e da Justiça mas depois ter uma espécie de polícia da Justiça – que está lá no seu programa eleitoral – nomeado pelo poder político. Isso é algo que me choca profundamente e que deveria chocar as pessoas. É uma lógica de rompimento com o regime de Rui Rio que vem de longe.

Fica sempre na análises dos debates a ideia de que teve ‘desempoeirado’, ‘ágil’, que é um ‘homem sério’ – mas que depois faz uma piada sobre o facto de António Costa ter dado o exemplo com o voto em mobilidade. Acho de uma gravidade. A piada, ou a graçola, ou o desconhecimento, casa muito com o Chega. Não se pode: ou é ignorante ou é um candidato a comediante.

É um exemplo fantástico que todos os líderes políticos podiam dar: e faz um tweet daqueles que depois diz que é uma piada. Então mas se é uma piada é o quê? Porque a política da piada é a política da extrema-direita. Mas não me cabe a mim dizer o que falta à Direita, quem integra os partidos de Direita é que tem de pensar. Tenho de lutar pelo meu lado.

Sendo eleita à AR e o PS formando Governo, a Isabel admite integrar algum Ministério ou secretaria de Estado?

Não, não penso nessas coisas. Sempre pensei em mim como uma parlamentar. É assim que me vejo. Não faço ideia o que o mundo me reserva. Não faço esse tipo de contas à vida. 

Gosta de ser parlamentar?

Adoro. Adoro talvez seja demais [risos]. Quando era pequenina, nas aulas de Religião e Moral, dizia-se que ‘adorar’ era só a Deus [risos]. Gosto muito de ser parlamentar: não há nada melhor que, na casa da democracia e onde estão todas as sensibilidades da sociedade representadas, poder – nem que seja um pouco – mudar a vida das pessoas para melhor. Já trabalhei noutras situações em que trabalhava para ‘o outro’.

Gosto da ideia da comunidade, de República, de trabalhar para o bem comum. Isso sempre foi a minha maior paixão e, por isso, a realização máxima é no Parlamento. Gosto mesmo e tenho muito orgulho na democracia representativa e no que esta casa – em que estamos a conversar – representa. Dói-me muito cada vez que vejo um ataque ao Parlamento e aos deputados.

Não por ser deputada, mas por achar que toda a gente que acolhe esse tipo de ataques podia, por exemplo, passar uma manhã no Museu de Aljube: para dar um bocadinho mais de valor à democracia certamente imperfeita que temos – mas que vale mesmo a pena.

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