Cultura

Hans Magnus Enzensberger. Morreu o intelectual que deixou um osso em cada túmulo

Um vigilante e um desmistificador, detendo-se em questões tanto da arte e da literatura, como da história, da sociologia e da política, este enormíssimo ensaísta e poeta alemão morreu na passada sexta-feira, aos 93 anos.

Hans Magnus Enzensberger. Morreu o intelectual que deixou um osso em cada túmulo

Fosse nos ensaios, de uma lucidez ferocíssima e de uma clareza ímpar, fosse pelo coração rangente que batia nos seus versos, Hans Magnus Enzensberger demonstrou uma fulgurante inteligência crítica, deixando-nos uma obra tão múltipla quanto vasta e afirmando-se como uma das grandes consciências do nosso tempo. Com uma escrita ao mesmo tempo directa e selvagem, intensamente curiosa, afirmou-se como um desses intelectuais que se interessam por tudo, a ponto de ter sido caracterizado como um príncipe renascentista. Provocador nato, um ironista esplendoroso, a sua prosa cheia de verve e estilo consegue ser elegante e até sumptuosa, embalando-nos numa erudição e num saber enciclopédico sem se tornar demasiado rude ou espinhosa.

Enquanto ensaísta, Enzensberger foi um dos raros intelectuais públicos que não se deixou manietar na defesa de certas causas, nunca mostrando o menor interesse em representar posições fixas e desdenhando o poder. Foi fiel apenas a um sentido de absoluta honestidade, analisando os temas com grande profundidade, abrangendo temas candentes, desde a manipulação industrial das consciências e reflexões sobre a Europa, sobre política e ecologia, conflitos militares, dilemas tecnológicos, e, naturalmente, a literatura, mas também a complexidade das altas matemáticas, a astrofísica, e personagens históricas, a memória do passado… Cultivou, por isso, com exemplar desenvoltura, todos os géneros, também o romance e o teatro ou a ópera, e foi um extraordinário poeta, pelo desembaraço e pelo seu sentido de urgência, pelo magnífico sentido de humor e pelo dom para a verrina, articulando ecos da grande tradição literária, emergindo à frente de uma imensa cena dramática como um sucessor de Brecht, com um comparável arsenal dialéctico e aquele fulgor de uma mente tão arguta a nível histórico como político, mas com um instinto rítmico ainda mais apurado. Compunha peças num tom confrontativo, recorrendo a um nível de elaboração e processos ainda mais arriscados, num regime deliberado, manifestando um nível de percepção e agudez crítica sem par.

No fundo, Enzensberger chegava à poesia pelo fim, num processo de consciência que não deixava nada ao acaso, sabendo flectir cada músculo, dominar cada intenção da linguagem. Cerebral sem ser fria, tocando muitas vezes as notas mais pungentes, a sua poesia demonstra como a inteligência e a premeditação acabam por constituir o caminho mais difícil e o mais certo para a mais elevada e exigente inspiração. “Quem é que não engole o próprio fogo? Quem/ não costuma andar descalço em cima das aparas das unhas?/ Quem não tem no contrato uma cláusula sórdida?/ Quem quer ser libertado e por quem? e de quê?/ Quem é que não pára de se empanzinar com a mais/ elevada consideração? (…) Quem não se põe na história a torto e a direito?/ Quem não se arrepende da sua vida? E por que não?/ e por que não?”

Ao invés daquela poesia alcandorada e que chega tantas vezes a ser obscenamente inócua, a que não toca nenhum ombro, não agarra ninguém pelo pescoço, Enzensberger não parecia muito comovido com o registo suave e ingénuo de tanto verso que por aí se vê comovido consigo mesmo. Não tinha grande paciência para as canções alheadas de tudo, para “a espuma doirada da cantilena”, os vocábulos artificialmente aromatizados. Estava antes do lado de um rearmamento poético, preferindo “asfódelos,/ papoila e metafísica, mesmo urina/ e cancro do útero”, preferia as cenas do ódio “ao louro embalsamado das antologias”, e “ir com o seu tempo! Não/ apenas simular cobardia!”

Como tantas vezes foi vincado pela crítica, não parecia haver fim para os temas e modulações formais dos seus poemas, usualmente ríspidos no tom. Enzensberger não tinha também grande paciência para aquelas análises desabridas que não tocam nada de concreto, e que se espojam em largos comentários que ajudam a tornar as coisas ainda mais abstractas e indiscerníveis, apenas para dar a sensação de que se tem uma perspectiva abrangente. Para Enzensberger cabia hoje aos intelectuais não recear o confronto directo com o que temos mesmo à nossa frente.

“Tem-se falado demasiado, e com excessiva rapidez, do belo e do verdadeiro, do humanismo e da imagem que a nossa época tem do homem: em resumo, das grandes visões panorâmicas e das vastas perspectivas. A mim parecem-me menos anódinas as realidades que se encontram bem em frente dos nossos olhos, mas talvez seja por essa razão que não gostamos de encará-las. Como parece excessivamente fácil apontar para elas, considera-se de mau gosto tomá-las como objecto de estudo. E, no entanto, só em contacto com elas se apuram os métodos de observação que chegam ao fundo das coisas e que podemos depois aplicar a uma observação do conjunto. Acontece que os detalhes, que são a única coisa que nos permite ter uma visão crítica deste conjunto, não se relacionam entre si, nem se ordenam segundo um sistema estabelecido. É por isso que sustenho que a posição crítica não se pode dividir. Não deve mover-se por um desejo de vitória ou de agressão. A crítica, no sentido em que tratamos de aplicá-la nos nossos textos, não quer desembaraçar-se do seu objecto nem eliminá-lo, antes submetê-lo a exame. O que se propõe são reformas, não uma revolução. O que sempre desejei foi empenhar-me a favor da ‘astúcia’ histórica da consciência.”

Enzensberger era exímio na forma como lidava com noções bastante complexas e expunha delicadas nuances num estilo que, sendo sempre bastante sofisticado, era primeiramente de uma limpidez e exactidão espantosas. Também os seus versos, que deixavam claro o quanto haviam sido burilados, tinham a força de quem zomba e não abdica de uma posição crítica, elegendo de forma fastidiosa as suas armas, sendo também estes sempre matéria para a contestação e a polémica.

Tido como o mais inovador e estimulante divulgador e mediador crítico da sua geração, além dos mais de 70 títulos que publicou, foi ainda um prolífico tradutor e poliglota, e, como antologiador, foi o primeiro a mostrar, em 1960, alguns poemas de Fernando Pessoa aos leitores alemães. Foi ainda responsável por uma importante colecção literária chamada A Outra Biblioteca e editor de duas revistas bem diferentes uma da outra – Kursbuch (um título ambíguo que tanto podia ser entendido como horário ou guia de caminhos-de-ferro), fundada em 1965, e que se manteve ao longo de uma década, e a Transatlantik, que surgiu em 1980 e duraria apenas três anos.

Nascido em 1929 em Kaufbeuren, uma pequena cidade nos Alpes suábios da Baviera, Enzensberger cresceu em Nuremberga, cuja atmosfera, durante os anos 30 e início dos anos 40, como se pode ler numa nota biográfica assinada por Reinhold Grimm (um dos responsáveis por uma antologia dos ensaios de Enzensberger publicada nos EUA), “era uma mistura estranha e muitas vezes sufocante de isolamento provinciano e sonolência vez por outra sacudida por lembranças vagas de um passado magnífico, e o barulho ensurdecedor e a efusividade explosiva dos comícios do partido de Hitler com o seu incitamento a um belicismo sangrento”.

Enzensberger viveu o idílio delirante e o pandemónio desse período, bem como os ataques aéreos devastadores que logo começaram a varrer a cidade. Nos últimos meses da guerra, foi convocado na fase final e desesperada do recrutamento, o “Volkssturm”, em que os nazis até os velhos que tinham dificuldade em aguentar-se direitos e os adolescentes mal alimentados chamavam para a frente. Depois da Guerra, Enzensberger safava-se com o contrabando de produtos que vinham de fora, isto antes de terminar o liceu e ter tentado a sua sorte no teatro. Nos anos que se seguiram, viria a frequentar várias universidades alemãs, bem como a Sorbonne, onde estudou literatura, línguas e filosofia, acabando por se formar em Erlangen, perto de Nuremberga. Com uma dissertação sobre o poeta romântico Clemens Brentano, recebeu o doutoramento summa cum laude aos 26 anos.

Uma década mais tarde, em 1964, na sessão em que pela primeira vez falou publicamente como poeta residente da Universidade de Frankfurt foi apresentado por Theodor W. Adorno, que não lhe poupou elogios, dizendo que a esperança que pudesse restar à tradição crítica no país não podia contar com outro nome além do seu e de mais umas poucas tentativas dispersas. À altura, Enzensberger só tinha publicados os seus primeiros dois volumes de ensaios, mas os três livros de poemas permitiam já considerá-lo um dos mais destacados autores do pós-Guerra. Integrou o Grupo 47, do qual fizeram parte outros vultos como Paul Celan e Günter Grass, e poderia facilmente ter pontificado no mundo académico, mas assim que terminou os estudos preferiu sempre a via insubordinada, mantendo-se fiel àquela noção que nos diz que os grandes críticos sempre foram mentes obstinadas e incómodas, que buscavam mais os efeitos duradouros do que os benefícios imediatos, figuras que, acima de tudo, defendiam a sua independência, ficando a dever a sua influência única e exclusivamente ao trabalho que desempenhavam e à capacidade de irradiação das suas ideias, e não a uma instituição ou aos interesses de uma qualquer indústria.

De resto, Enzensberger entendia que, na época que nos calhou viver, “são as mercadorias que dizem a verdade”, e que, nas últimas décadas, “um instinto de imitação desenfreado espalhou-se por todo o mundo e ninguém examinou ainda a fundo as suas implicações”. Reconhecia que, no seu sentido arcaico, o crítico já não desempenha um papel com qualquer importância social, pois ainda que “este fóssil vivente fosse o máximo expoente do talento, discernimento e integridade, antes que abrisse a boca teria já perdido algo, ou seja, a autoridade, esta característica fundamental que distinguia o crítico da velha guarda”. E, no entanto, mesmo que à luz dos padrões predominantes na nossa sociedade, muitas das nossas ocupações predilectas surjam como anacrónicas, isso não nos obriga a abdicar delas, “e até vale a pena que nos questionemos seriamente se não seria preferível o suicídio a respeitarmos de forma absoluta e a todo o custo a nossa actual forma de vida”.

Embora reconhecesse que, nos nossos dias, a literatura voltou a ser o que era no princípio – um assunto minoritário –, a sua longa vida passou por segurar o compromisso a favor de uma série de causas perdidas, vincando que, mesmo se a maioria dos homens prefere abdicar da sua capacidade de exame e lucidez, são as imagens que se formam no espírito de um indivíduo e que este se esforça por defender face ao assédio quotidiano, que alcançam maior correspondência com as suas experiências, desejos e temores, e por isso lhe dão a medida da sua liberdade.

Por outro lado, Enzensberger sabia que, mesmo que a literatura se mantivesse livre, não podia já legitimar ou questionar uma situação de conjunto, porque já ninguém lhe dá ouvidos. “Face a este estado de coisas, o crítico clássico é um militante sem público a quem dirigir-se; as suas estratégias a largo prazo mostram-se anacrónicas; a sua influência evapora-se na indiferença de um mercado pluralista que se está nas tintas para a diferença entre Dante e o Pato Donald.”

Mas, apesar deste estado de coisas, entendia que era fazer alguma coisa para contrariá-lo, já que não se podia contar com as próprias instituições da cultura e do Ensino, uma vez que, como dizia Thomas Bernhard, quando o conhecimento é encontrado morto, já sabemos que estamos no terreno da academia. O próprio Enzensberger reconhecia que “pensadores capazes de apontar um rumo ao pensamento dificilmente se podem encontrar nos respectivos sectores do ensino universitário”.

Mal concluiu os estudos, e ainda que desse algumas aulas como professor visitante, Enzensberger entrou na Rádio de Stuttgart, juntando-se à secção de ensaios e, pouco depois, trabalhava como leitor da Suhrkamp Verlag, que viria a tornar-se a editora dos seus livros. Naquela altura, na Alemanha, havia um conjunto de publicações que permitiam a um escritor ver os seus ensaios sobre temas da actualidade publicados, e Enzensberger não demorou a ser um dos pensadores mais requisitados. Em menos de uma década, viria a criar a sua própria chancela Die andere Bibliothek, que nasce em 1970, e teve um sucesso estrondoso, apresentando aos leitores alemães narradores como Curzio Malaparte, John Reed ou Enrique Vila-Matas, tendo Enzensberger sido responsável por revelar ainda e, até, em alguns casos, por traduzir poetas como Nelly Sachs, Tomas Tranströmer, Czeslaw Milosz ou Eugenio Montale.

Nos anos que se seguiram, Enzensberger viajou por todo o mundo, permanecendo por longas temporadas fora da Alemanha. Esse desejo de inspeccionar as condições no estrangeiro começou quando era ainda estudante, tendo viajado pela Europa – esteve em Espanha, Grécia, Finlândia e Itália. Nesses anos que se seguiram à Guerra, quis testemunhar os sinais da devastação que haviam deixado uma vez mais o velho continente dilacerado. Mais tarde, passou meses a viajar pela América do Norte e do Sul, esteve na Austrália, na China e na União Soviética.

Em maio de 1975, em pleno período revolucionário, Almeida Faria deu à estampa a primeira antologia da poesia de Enzensberger na nossa língua, e não precisou de mais do que uma frase para deixar clara a urgência que serviu como princípio orientador da sua escolha: “Porque a política é a sua obsessão dominante e porque hoje em Portugal não há a poesia política que seria precisa, fiz a presente selecção, cujo título é de minha responsabilidade.” Chamou-lhes Poemas Políticos. Nesse mesmo ano, Enzensberger deslocou-se a Portugal, dinamizando nesse ‘Verão quente’ vários encontros com escritores e intelectuais portugueses. João Barrento – que assinaria já neste século a tradução de Mausóleu, um dos mais importantes títulos do autor –, destacaria uma sessão, a 4 de junho, sobre Poesia política no Instituto Alemão de Lisboa em que, além de Almeida Faria e de ele próprio, estiveram presentes Óscar Lopes, Egito Gonçalves, Sophia de Mello Breyner e José Cardoso Pires, entre outros. Ao apresentá-lo, Óscar Lopes disse que o poeta alemão tinha feito da sua vida “um método de descoberta, um método de acção”.

Tendo vivido um ano em Lanuvio, perto de Roma, e ainda um ano decepcionante na Cuba de Castro, em 1980, deixaria Berlim ocidental, mudando-se para Munique, provavelmente devido às responsabilidades decorrentes do seu cargo de editor. Essa sua peregrinação foi um verdadeiro trabalho de campo que foi realizando ao longo dos anos, à medida que progredia de uma compreensão local ou regional para um foco na dimensão global e internacional, assumindo, portanto, uma perspectiva cada vez mais abrangente dos problemas que o mundo enfrenta. Alfonso Berardinelli, num perfil que lhe dedicou no mais recente número da revista Electra, nota que Enzensberger foi cultivando um funambulismo estilístico, bem como a dialéctica e a retórica ditadas por um cepticismo anárquico e autodefensivo, insistindo que Auschwitz e Hiroshima foram o baptismo de uma época histórica que ainda não terminou. “São factos históricos que puseram a nu as raízes de toda a política até agora em vigor e não se deve esquecê-los ou relegá-los para um passado enterrado, se se quiser eliminar as premissas que tornaram possíveis aqueles horrores”.

Além das já referidas traduções de Almeida Faria e João Barrento, foram sendo editadas por cá outras obras como Perspectivas da Guerra Civil, O diabo dos números, O homem do terror e, já em 2019, sai uma extraordinária antologia com o título 66 poemas, pela mão de Alberto Pimenta, que é, sem sombra de dúvida o poeta que, entre nós, mais tem em comum com Enzensberger, não apenas no sentido de compromisso como no nojo “pelas instâncias da merda em que nos fazem chafurdar”, partilhando esse sentido quase desesperado de liberdade que lhe canta nos versos numa desbravadora e lúdica atenção ao mundo e aos homens. E isto de tal modo que há poemas que traz daquele para a nossa língua que deixam nela um veneno intenso e saboroso que poderia tanto ser de um como do outro: “e que talvez fosse melhor calar o bico/ e que não vamos calar o bico/ isso já sabemos/ isso já sabemos// e que não podemos ajudar ninguém/ e que ninguém nos pode ajudar a nós/ isso já sabemos// e que somos vocacionados/ e que temos a escolha entre nada e mais nada/ e que temos de analisar este problema profundamente/ e que pomos duas colheres de açúcar no chá/ isso já sabemos// e que somos contra a repressão/ e que os cigarros vão encarecer/ isso já sabemos// e que pressentimos sempre o que aí vem/ e que de cada vez teremos razão/ e que daí não se segue nada/ isso já sabemos// e que isto tudo é verdade/ isso já sabemos// e que isto tudo é mentira/ isso já sabemos// e que isto é tudo/ isso já sabemos// e que aguentar não é tudo pelo contrário é nada/ isso já sabemos// e que nós vamos aguentar/ isso já sabemos// e que tudo isto não é novo/ e que a vida é bela/ isso já sabemos/ isso já sabemos/ isso já sabemos”.

A morte de Enzensberger significa a perda de um dos “últimos príncipes do intelecto” que, colocando-se ao nível da vida comum, desenredavam e deslindavam as formas de corrupção e chantagem que impedem que se demonstre as novas formas como a exploração dos homens se processa nos nossos dias, construindo uma obra prismática e sismográfica que retoma a postura insubornável de Karl Kraus perante a “magia negra” dos jornais. Se este tinha testemunhado o ambiente de “feliz apocalipse” em que o Império Austro-Húngaro se desmoranava, analisando os processo de corrupção linguística e moral que permitiam conceber uma imagem distorcida da realidade ao ponto dessa representação substituir a própria vida, Enzensberger actualizou esta análise, e foi inclusivamente mais longe do que os seus mentores, Adorno e Horkheimer, percebendo como a ideia de uma “indústria cultural” não passava de uma enorme “ilusão de óptica” dos críticos da cultura.

Enzensberger mostrou que o que estava em causa não era a produção de cultura, nem estava sequer em causa produzir fosse o que fosse, mas antes dominar a mediação derivada do produto, ou seja, tratava-se de uma indústria que “o que fabrica não são já bens, mas opiniões, juízos e preconceitos, conteúdos de consciência de todo o tipo”. Assim, Enzensberger percebeu como actualmente o que há é uma manipulação industrial que se dirige à consciência que é induzida, instilada, mediada e reproduzida. Se nesta tão decadente época, a sensação que temos é de que as coisas se protelam e o tempo se arrasta apenas porque também “o Juízo Final foi subornado”, Enzensberger mostrou-nos como, ao longo dos últimos cem anos, o desenvolvimento da manipulação de consciências se tornou a instância-chave dos mecanismos de controlo da sociedade moderna, e como, não só a política apenas persiste como um eco esvaziado de todo o propósito, reduzido a uma impostura, mas este modelo recorre permanentemente aos serviços de intelectuais oportunistas envolvidos num número de circo em que se limitam a readaptar velhas ilusões ao invés de renovar os seus conhecimentos e manter uma atenção vigilante ante qualquer forma de pressão.

Para Enzensberger foi a própria função social do intelectual que se alterou no último século, estando exposto a novos perigos e incertezas, novas e mais subtis formas de ser chamado a tornar-se cúmplice daquele processo. Numa altura em que “são os galeristas quem decide o que é a arte e os grandes projectos do futuro são definidos por comissões de programação”, em que os suplementos literários já soam obsoletos, quando nas redacções dos jornais e das revistas a cultura há muito se tornou um simples apêndice do suplemento de ócio e entretenimento, das secções que se ocupam da gastronomia ou dos gadgets, da moda ou do design, das cirurgias estéticas, ginecologia ou notícias sobre a vida das celebridades, não é de estranhar que a notícia da morte de Enzensberger não tenha merecido destaque.

E, no entanto, os seus escritos e o reverberar da sua inteligência, do seu infatigável talento para cruzar o passado e o futuro, a acuidade de uma percepção capaz de deter-se tanto nos detalhes como no grande plano, de balançar entre a esperança e a resignação, e mesmo entre a utopia e o apocalipse, batendo-se com igual fervor e competência contra o provincialismo poético e a iliteracia política, demarca um destacado posto de observação e vigilância perante uma sociedade vertiginosamente orientada para essa forma de agitação desenfreada em que os homens sufocam entre os reflexos e os ecos uns dos outros, sendo cada um apenas uma amostra, e tornando-se necessário juntar centenas deles para se restituir o peso de uma só alma. Enzensberger concentrava esse peso indiviso. Era dos poucos que “do seu semelhante não comia a carne”, e, porque nos disse quase tudo o que de mais fundo e degradante viu nesta época, por ter entendido como “os rastos do progresso são sangrentos”, descerá com cada um de nós quando formos depositados num túmulo ou atirados à fossa, deixando um osso seu a dar sentido à frágil construção dos nossos.

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