Entrevista a João Paulo André, químico

'A magia é uma peça-chave no puzzle da história da ciência'

Depois de dedicar um livro à relação entre a química e a ópera, João Paulo André debruça-se sobre o papel das mulheres na história da ciência. Sobre o esquecimento a que foram votadas, diz: ‘Pensar-se que a mulher não tinha propensão para a ciência foi uma ideia que deu muito jeito’.


Professor de Química na Universidade do Minho, João Paulo André licenciou-se em Coimbra e doutorou-se na Universidade de Basileia, na Suíça. Em 2019 publicou o seu primeiro livro: Poções e Paixões – Química e Ópera fala sobre elixires do amor e venenos. «Esse livro andou na minha cabeça mais de vinte anos», diz-nos. «Tive sorte porque a nível mundial ainda ninguém se tinha lembrado disso».

Além da química e da música, também é apaixonado por literatura, tendo assinado a entrada ‘Química e farmácia’ no Dicionário de Eça de Queiroz. Agora, acaba de publicar Irmãs de Prometeu – Química no Feminino (ed. Gradiva), onde conta as histórias de mulheres cientistas, as injustiças que sofreram, as dificuldades que enfrentaram e o contributo que deram para o progresso científico.

Teve paciência para contar quantas mulheres são referidas no seu livro?
Não… Era questão de ver as que estão no índice remissivo. Por acaso falta referir aqui no índice uma mulher que me escapou.

Só deu pela falta dela a posteriori?
Era a Princesa Diana, a Lady Di. Não era química mas teve uma antepassada, penso que sete gerações atrás, chamada Georgiana [Cavendish] Spencer, que teve alguma relevância na criação da Instituição Pneumática, em Bristol, que se dedicava ao estudo dos gases para inalação. Acreditava-se que os gases inalados poderiam tratar algumas doenças. E a Georgiana Spencer foi uma das pessoas que apoiaram a criação dessa instituição.

Como benemérita?
Ela não era só benemérita, tinha o seu próprio laboratório de química em casa. Naquela época não havia laboratórios institucionais, eram todos privados. Lavoisier tinha o melhor laboratório do mundo porque era multimilionário e podia pagar os seus equipamentos. E até há um português nessa história, João Jacinto de Magalhães. Há quem diga que era um espião científico do século XVIII. Isso poderá ser um pouco polémico, mas o facto é que Lavoisier encomendou muito do seu equipamento científico – era ele próprio que fazia o design – a esse João Jacinto de Magalhães, que era uma pessoa extremamente bem relacionada a nível internacional. Mas isto é só um parêntesis para referir a importância de ter dinheiro, naquela época, para se poder praticar. No caso da Lady Spencer seria, digamos assim, a título recreativo. Praticar química era uma coisa chique que os ricos e os aristocratas faziam em casa. E ela não só tinha o seu próprio laboratório como chega a interceder junto de pessoas influentes para fundar a Instituição Pneumática. Quem a apoia nessas pretensões é o James Watt, o aperfeiçoador da máquina a vapor, porque terá tido uma filha que morreu ou estava doente de tuberculose, e tinha muita esperança nos gases inalados e no seu valor terapêutico. Essa instituição, contextualizando-a na época – estamos em finais do século XVIII – é importante porque está na origem daquele capítulo da história a que chamamos química pneumática, o estudo dos gases. Em termos terapêuticos teve uma importância reduzida, embora acabe por estar aí o embrião da anestesia, que só se começa a aplicar quase em finais do século XIX. Parece que a Rainha Vitória de Inglaterra é a primeira monarca a dar à luz, pelo menos um dos filhos, já sob o efeito de anestesia. E isso tem as raízes em Bristol, nessa Instituição Pneumática.

E falamos de que gases? O oxigénio? Agora fala-se também muito de gás hilariante…
Ainda ontem vinha nos jornais que está outra vez a aumentar o consumo de óxido nitroso. Esse foi um dos gases estudados na altura. Mas o próprio oxigénio era uma descoberta recente. Primeiro foi talvez o Carl Scheele na Suécia; depois o Joseph Priestley, em Inglaterra, e depois é logo o Lavoisier em Paris. Estamos a falar num espaço de três, quatro anos – 1772, 73, 74, por aí. O Carl Scheele, o sueco, e depois o Priestley, em Inglaterra, isolam aquele gás, veem que alimenta as combustões. Mas quem vem explicar o papel do oxigénio nas combustões e oxidações e reconhecer que o oxigénio é o gás que respiramos é Lavoisier. Na altura nem se chamavam gases, eram os ‘ares’.

Foi um momento de viragem, então.
O próprio termo oxigénio é cunhado por Lavoisier. ‘Oxi’ é um vocábulo que tem origem no termo grego para ‘ácido’; e ‘génio’ é ‘gerador’. Aí ele cometeu um pequeno erro porque acreditava que todos os ácidos continham oxigénio, então cunhou este novo ‘ar’, este novo gás, de ‘oxigénio’, ou seja, ‘gerador de ácidos’. Foi toda uma mudança. Não era só mais um elemento que se conhecia, era uma química nova que nascia. Aliás, não é uma química nova – é o nascimento da química moderna.

Fico com a ideia de que existem mais mulheres na química do que noutras disciplinas mais teóricas como a física. Estarei enganado ou existe de facto mais apetência feminina para a química?
Talvez existam mais químicas. Se nos reportarmos ao passado temos as chamadas artes químicas, em pleno contexto doméstico. Em casa produziam-se as tintas, os vernizes, as velas, a própria manipulação de alimentos – as conservas, as compotas, os pickles… Já numa perspetiva mais restrita, terá alguma razão, porque a química será das primeiras ciências onde começou a haver mão feminina. Desde cedo foi considerada uma ciência adequada ao sexo feminino. A primeira foi a botânica, o que se compreende, porque a mulher sempre teve essas funções de colher as flores, de fazer arranjos florais… a botânica veio naturalmente. E depois a própria parte científica da botânica também era considerada adequada à mente feminina. Penso que é Rousseau que chega a dizer que o intelecto feminino não é propenso aos raciocínios rigorosos, analíticos, etc., etc. Portanto a mulher entra na ciência desempenhando aquelas tarefas mais rotineiras, de classificação – essas sim, eram consideradas mais adequadas à paciência feminina, à minúcia que o sexo feminino era considerado possuir. E depois a astronomia. Temos, por exemplo, a Caroline Herschel, que foi uma grande astrónoma do século XIX. A astronomia também era considerada adequada às senhoras.

A botânica e a astronomia foram então a porta de entrada das mulheres na ciência.
Depois a química também. E por acaso aí houve uma figura da história norte-americana que teve um papel muito importante, Benjamin Rush, um dos 56 signatários da Declaração da Independência. Era médico, tinha-se formado em Inglaterra, e ensinava Química em Filadélfia. Ele próprio fez um programa de ensino secundário, e teve uma preocupação muito grande com a educação feminina. Achava que a química era útil à nação que estava a começar, e era adequada quer a rapazes quer a raparigas, pelo desenvolvimento da intelecto que promovia, e, no caso da mulher, era especialmente útil para as lides domésticas. E portanto acabou por ser responsável pelo ensino da química à população feminina. No acesso das raparigas ao ensino a América posicionou-se, de uma forma geral, bastante à frente da Europa.

Achei curiosa uma referência aos vestidos, que tinha de se ter cuidado…
Para não se inflamarem.

Deviam estar na moda aqueles vestidos ‘farfalhudos’.
A indumentária das poucas mulheres que inicialmente frequentavam as universidades era suposto ser uma roupa de decoro, sóbria… E as senhoras, primeiro, iam acompanhadas, com chaperones. Não era de bom-tom uma senhora ir sozinha – tinha de ir com a mãe, ou com o marido, ou com a criada.

Ontem à noite fui buscar Os Génios da Ciência, de Abraham Pais, também publicado nesta coleção, Ciência Aberta. A capa mostra fotografias dos 16 génios…
E não há nenhuma mulher?

E não há nenhuma mulher. São 16 homens. Demorou a que a comunidade científica começasse a reconhecer o contributo das mulheres?
Claro. Acho que o caso específico da química ilustra bem o que tem sido a realidade. Até hoje, há oito mulheres a receberem o prémio Nobel. A última foi em outubro, Carolyn Bertozzi. No cômputo geral, nas áreas científicas – a química, a física e a medicina –, só 3% dos prémios Nobel foram atribuídos a mulheres. Este valor reporta-se há dois ou três anos, mas não mudou muito. Continuamos na casa dos 3% para mulheres e 97 % para homens. Vamos ver o caso da Química. 1911, Marie Curie; 1935, a filha dela, a Irène Joliot-Curie, conjuntamente com o marido; depois passam-se quase 30 anos até vir outro prémio Nobel, a Dorothy Crowfoot Hodgkin, em 64. Entre 1911 e 1964 houve três mulheres prémio Nobel. De 1964 até 2008 não há nenhuma, o seguinte vem em 2009, à Ada Yonath. Desde 2009 tivemos novamente em 2018, Frances Hamilton Arnold, e dois anos depois, em 2020, Emanuelle Charpentier e a Jennifer Doudna, pela chamada tesoura genética. E agora em 2022 a Corolyn Bertozzi. Acho que só agora, finalmente, é que as instituições estão a despertar para a realidade. Mas de facto houve um esquecimento total. Mas pensar-se que a mulher não tinha propensão natural para a ciência também era uma ideia que dava muito jeito.

Porque permitia aos homens manterem o controlo da situação?
Também. Mas muitas universidades justificavam que não se pode favorecer os familiares, etc., e poupavam nos salários. Várias mulheres citadas neste livro trabalhavam com os maridos sem serem remuneradas.

Leve dois e pague um.
É verdade. Mesmo os laboratórios dos Bragg (William Henry e William Lawrence], pai e filho, da cristalografia, estiveram entre os primeiros a admitir mulheres, com números que chegavam à ordem dos 20%. Mas a verdade é que elas recebiam menos pelo mesmo trabalho do que os homens. E os Bragg são cotados muitas vezes como os pioneiros na aceitação das mulheres.

Como dá conta no livro, tudo começa com a magia, com a alquimia. Quando é que a química se começa a emancipar?
A magia é um assunto extremamente complexo. Para esta história que quis contar, tentei perceber até que ponto a magia teve influência no desenvolvimento da ciência, e apercebi-me de que é um mundo. E quanto mais irracionais as coisas são, mais difícil é compreendê-las. E não estamos a falar de magia negra, estamos a falar da chamada ‘magia branca’. Descodificar a natureza era um papel que cabia aos filósofos naturais, que era o nome que se dava aos cientistas – o nome cientista só aparece no século XIX. A natureza era vista como um repositório de forças ocultas – e oculto não tem necessariamente a ver com ocultismo ou com algo obscuro –, forças invisíveis. A natureza era um livro com muitos segredos que tinha de ser decifrado. E só quem tivesse poderes especiais o podia interpretar. Um dos grandes humanistas, Pico della Mirandola, dedicou-se à magia. A magia é uma peça-chave do puzzle da história da ciência. O Pico della Mirandola foi cauteloso. Outros estavam já com um pé na magia negra…

A resvalar para a heresia?
Sim, sim. Ao fazer investigação para este livro olhei para a questão da magia de uma forma que nunca tinha olhado. Por um lado, temos a alquimia, que surge em Alexandria, nos primeiros séculos da era cristã. Alexandria era um caldeirão com muitas doutrinas, muitas seitas, muitas filosofias, muitas tendências. Ainda estamos no mundo grego. Depois grande parte desse saber perde-se na Europa e passa para a cultura árabe. A presença árabe na Europa – na Andaluzia, na Sicília, etc. – foi muito importante, e com as viagens dos europeus ao Médio Oriente, com as cruzadas e o comércio, aos poucos começa a chegar à Europa todo aquele manancial, todo aquele conhecimento da Antiguidade, muitas vezes já adicionado do saber árabe. E no meio desse saber todo vem a alquimia. E claro, houve também muitas mulheres a dedicarem-se à alquimia. Respondendo à sua pergunta: quando é que a química passa a ser química? Na língua inglesa há uma palavra muito boa que nós não temos, chymistry. A chymistry é uma designação muito boa, porque revela que aos poucos, em finais do século XV, XVI e ainda no século XVII, a química está a separar-se da alquimia. A alquimia já não é só aquela tentativa de encontrar a Pedra Filosofal para obter ouro a partir de materiais inferiores, começa a haver uma alquimia em que se dá importância à preparação de substâncias úteis para o dia-a-dia, nomeadamente para a medicina. Estamos em pleno século XVI. Paracelso tem uma grande importância na história da ciência.

O alquimista suíço? 
Sim. Até aí dominava a medicina de Hipócrates e de Galeno, acreditava-se que havia quatro humores no corpo e as doenças eram resultado do desequilíbrio desses humores, por isso estavam sempre a fazer as sangrias para reequilibrar os humores do corpo. Não havia a ideia de recorrer a produtos químicos para tratar uma doença específica. 

Havia chás e ervas…
Sim. Mas Paracelso é revolucionário. Naquele período começava a grassar a sífilis na Europa e ele é pioneiro no tratamento da sífilis com recurso a compostos de mercúrio. Isso foi uma total novidade, recorrer a um composto químico para tratar uma doença. Nunca ninguém tinha feito isso. A alquimia começa a ter um valor pragmático.

E quando aparece a química propriamente dita?
Algumas universidades introduzem a química no século XVII, mas muito poucas. No início do século XVIII ainda os compêndios de química diziam que os quatro elementos primordiais eram o fogo, a terra, a água e o ar. Estamos a falar sobretudo em França, onde a química estava bastante… 

Evoluída?
E é precisamente nesse cenário que Lavoisier vai brilhar já em finais do século XVIII. Se quisemos estabelecer o marco que assinala o aparecimento da química moderna é a publicação, em 1789, ano de outra revolução, e na mesma cidade – Paris –, do Tratado Elementar de Química de Lavoisier.

Uma das áreas da química a que as mulheres desde cedo aparecem muito associadas é a da cosmética, os cuidados de beleza.
Isso remete-nos muito para os livros de segredos, que são receituários fantásticos, às vezes com coisas completamente loucas. Eu tive um cuidado grande na escolha de receitas porque algumas poderiam chocar um pouco.

Então porquê?
Há coisas absolutamente surpreendentes. Li receitas que mandavam rechear um ganso com gatinhos acabados de nascer, e claro, com recurso também a determinadas ervas, e deixar aquilo no forno, durante não sei quantos dias, depois no final dissolver tudo, destilar.

Isso parece aqueles feitiços do Livro de S. Cipriano, em que tem de se usar uma galinha morta à meia-noite num dia de lua cheia… [risos]
Nós não acreditamos nem no efeito dos feitiços nem no efeito destas mezinhas, mas neste caso estou a referir-me a preparados destinados a curar doenças. Garanto-lhe: aqui não há nada de espiritual. Um desses livros de segredos é o livro de Catarina Sforza, que nos chegou ainda em manuscrito. Mas já no século XVI surge outro livro extremamente importante, que é quase considerado o modelo dos livros de segredos, que é o Magia Naturalis, de Giambattista della Porta. Se bem que é um livro de ciência popular, mostra essa ideia de que a interpretação da natureza estava a cargo dos magos. E é um livro onde também surgem segredos de cosmética. Coisas fantásticas, como conselhos para recuperar a virgindade de uma mulher. Todos esses livros têm um ou dois segredos de como recuperar a virgindade, ou como aumentar o vigor sexual. Coisas muito engraçadas.

Está muito difundida aquela ideia do cientista excêntrico, aéreo, distraído, mas que também é capaz de lampejos brilhantes. Isso é um estereótipo mais masculino?
Deixe-me pensar se entre as senhoras que investiguei encontrei alguma mais despistada. Não... Mas encontrei uma figura já do século XX extremamente interessante, a Dorothy Wrinch. Não vai ao encontro do que me está a perguntar, mas lembrei-me dela porque é um caso fascinante. Esta senhora, que era matemática em Cambridge – estamos a falar da década de 1930 –, posicionou-se de uma forma muito peculiar na ciência. Era uma mulher extremamente inteligente e uma matemática brilhante. Falou-me de ‘lampejos’. Ela teve um lampejo de alguma… não é loucura, mas como hei de dizer? Numa altura em que já se falava de cromossomase a bioquímica estava a dar os primeiros passos, ela tenta aplicar as suas teorias da matemática ao desvendar das estruturas destas biomoléculas. Sem base experimental nenhuma. Como já um historiador disse, ela foi quase uma figura do Renascimento, com um conhecimento vasto em várias áreas, uma figura brilhante. Mas criou uma teoria totalmente falaciosa. Os pitagóricos interpretavam o mundo através de números, e ela no fundo foi uma pitagórica, porque também trouxe os conhecimentos dela de matemática, de poliedros, de figuras geométricas, e tentou interpretar a estrutura das proteínas com base nisto. No final saiu algo de completamente errado, mas houve ali toques de génio. Aliás chegou a ser nomeada para o Nobel da Química. Às vezes a diferença entre o genial e o estapafúrdio é muito pequena.

Napoleão dizia isso: ‘Do sublime ao ridículo é só um passo’.
A vida está cheia destes exemplos. Os extremos às vezes tocam-se.

É um caso único de uma família em que aparecem três Nobéis. O que é que os Curie tinham de especial?
Há coincidências extremamente interessantes. Ainda antes de Pierre e Marie se terem casado, provavelmente até antes de se terem conhecido, Pierre e o irmão desenvolveram um dispositivo baseado no efeito piezoelétrico – os cristais, quando sujeitos a compressão, originam uma corrente elétrica. Marie Curie licencia-se em Matemática e Física, na Sorbonne, entretanto conhece o Pierre Curie, e decide avançar para o doutoramento. Andou ali uns tempos à procura do tema para a tese de doutoramento e vai pegar no fenómeno da radioatividade, que era uma descoberta muito recente pelo Henri Becquerel. O Becquerel descobre que os minérios e os sais de urânio libertavam uma radiação desconhecida, e fez uma série de comunicações à Academia das Ciências, mas não teve grande impacto. A coisa teria terminado por ali se não houvesse esta jovem polaca à procura de um tema para a tese de doutoramento, e que acabou por escolher as radiações do Sr. Becquerel. E depois teve à disposição esse dispositivo que Pierre Curie e o irmão tinham inventado uns anos antes. Pierre Curie continuou lá a fazer as suas investigações, de magnetismo, etc., mas quando perceberam que aquela radiação não podia provir só do urânio, suspeitaram que haveria certamente novos elementos lá escondidos no meio. E vêm a descobrir o polónio e o rádio. Aí ele pára o trabalho dele e passam a trabalhar em conjunto. Isto são as raízes históricas. Depois cria-se ali um clã. Uma historiadora francesa muito famosa, Bernardette Vincent Bensaúde, chama ‘Planeta Curie’ a esta dinastia. Há quase um espírito de aristocracia, mas parecia que isto fazia parte da tradição dos grandes cientistas de França. Fechavam-se entre eles, eram elitistas. Nas férias os Curie vão todos para o Norte, para a Bretanha, para a praia, com outros casais de distintos cientistas, até chamavam àquela praia a Praia da Sorbonne. Os filhos destas figuras não frequentavam escolas públicas, eram ensinados em casa. Marie Curie ensinava física, outro ensinava matemática, etc. Isto correspondia a uma certa tradição francesa de elitismo no meio científico. E depois acabavam também por casar entre eles. Há ali uma quase consanguinidade científica. Uma destas figuras é o Paul Langevin, que já tinha sido aluno de Pierre Curie. Depois o Pierre Curie morre, atropelado por uma carruagem, e Marie Curie e o Paul Langevin apaixonam-se e acabam por ter uma relação. Isso até deu azo ao chamado ‘affaire Langevin’ nos jornais. De repente Marie Curie era a inimiga, a judia, a estrangeira, a destruidora de lares. Jogaram-lhe pedras à janela, partiram-lhe os vidros. A Marie Curie e o Paul Langevin não casaram, porque ele já era casado, mas quis o destino que os netos de ambos se casassem. A Helène Langevin Curie, filha da Irène, veio a casar com um neto do Paul Langevin. Ainda vi esta senhora discursar, em 2011, o ano internacional da Química, e emocionou-me.

Há muitos casos de parcerias entre casais, não há?
Casais de cientistas há bastantes, no passado e na atualidade. Hoje em dia até há instituições que encorajam isso. A Suíça tem liderado isso. Porque está provado que o rendimento é maior. Quando é uma dupla, sejam casados ou não – sendo casados, se tem de correr bem corre mesmo bem – há ali uma sinergia que é mais do que a soma dos dois.

A química hoje deve estar mais presente do que nunca na alimentação. Em especial se pensarmos nos produtos embalados.
Alimentos que foram processados? Sim.

O químico é aquele que vai ao supermercado, olha para os rótulos e percebe o que querem dizer aqueles nomes estranhíssimos ?
O químico compreenderá melhor, mas muitas vezes não são os nomes dos compostos que estão lá, o que está são códigos, os Es [como o famoso E-330]. Pode-se ir à procura, mas à partida não sabemos.

Então não se dá aquela situação de ver ‘Tem isto e aquilo, não vou comprar porque faz mal’.
Há uma coisa que um químico de certeza que sabe e se calhar muita gente não sabe. Vou dar um exemplo: a vitamina C das pastilhas efervescentes e a vitamina C da laranja são diferentes? Se calhar algumas pessoas pensam que são diferentes. São a mesma coisa. Uma foi produzida na própria laranja, foi uma síntese natural; a outra foi sintetizada no laboratório. Mas a molécula é a mesma. Há muitos mitos que um químico pode ajudar a desmistificar.

Às vezes as pessoas até dizem: ‘Não vou comer isso, está cheio de químicos’!
Pois, é esse mito. Claro que come. [risos] Não tem alternativa. Se não comer ‘químicos’ morre. Tão simples quanto isso.

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