Luís Mira. Secretário-geral da CAP

'O problema é que o animal nas cidades está humanizado'

E lembra que hoje em dia ‘vestem-se os cães, arranjam-se namoradas e até vão ao psicólogo’. Em relação às touradas diz que há o risco de ficarem reduzidas ao mundo rural e admite que ‘tem mais estatuto ser chef em Portugal do que ser toureiro’.


A ideia de ser vegan já deixou de ser moda?
Há pessoas que tomam essa opção, mas acho muito violento, para não utilizar outra palavra, que se obrigue um miúdo com um, dois, três ou quatro anos a comer só vegetais, não tendo opção daquilo que faz. Está cientificamente provado que este miúdo vai ter um desenvolvimento mais reduzido. Veja os países onde há menos proteína e como é que eles são e o desenvolvimento que têm. Ao longo das últimas gerações, a disponibilidade de proteína fez com que as pessoas fossem mais altas. Parece que estamos a regredir.

Falando em outras polémicas como estão as touradas e a caça?
São duas coisas diferentes. A caça é uma atividade que tem um triângulo com o agricultor que alimenta a caça, mas que também tem prejuízos quando a população é muito grande, diria que o biólogo tem de ajudar na parte científica para equilibrar as populações. Há um excesso, por exemplo, de javalis em toda a Europa, porque não há predadores. Se não houver caçadores é incomportável. É uma praga que destrói o rendimento das pessoas, porque comem tudo, partem tudo, até estragam mais do que comem. Mas uma das razões para que essa população tenha aumentado muito é também porque há uma maior disponibilidade de alimento, nomeadamente de milho.

E a renovação da carta de caçador é cada vez mais difícil...
É mais difícil, exige mais cursos e mais custos. Há uma outra questão que não faz nenhum sentido a nível europeu que é acabar com as munições de chumbo. Como se o chumbo que a pessoa espalha no meio do campo fosse relevante para a poluição que isso causa. Estou de acordo relativamente às aves aquáticas, pois quando se atira no mesmo sítio isso tem um prejuízo para as aves, como é óbvio. No resto da caça é um verdadeiro erro. Uma das alternativas é usar esferas de aço, mas depois causa prejuízos na extração da cortiça. Os países do norte da Europa definem as leis e nós aplicamos. Veja o caso das centrais nucleares, França e Alemanha disseram que iam extingui-las, mas como precisavam muito de um momento para o outro passou a ser energia limpa. Aqui parece que estamos mais ou menos na mesma.

E em relação às touradas?
É uma questão cultural. As cidades perderam essa cultura das corridas de touros. Acho que há também alguma quota-parte de culpa dos próprios toureiros. Porquê? Porque para se defender uma determinada coisa é preciso o protagonista dar a cara. Vamos a Espanha e existem sete, dez toureiros que são figuras públicas. São reconhecidos em qualquer parte do país e fazem anúncios das mais prestigiadas marcas espanholas. Como é conhecido cá um cantor ou um chef. Hoje tem mais estatuto ser chef em Portugal do que ser toureiro. Em Espanha, não. Até porque o toureiro tinha uma áurea de coragem e tinha uma capacidade de pôr em perigo a sua integridade física, o que que não acontece aos chefs, a não ser que cortem o dedo. Em Portugal não existe nenhum toureiro que seja figura pública. Há uns anos, o mestre Batista fez o anúncio da Gillette, acho que isto diz tudo. Na altura, quem fazia o anúncio da Gillette não era o Cristiano Ronaldo, isto demonstra a importância que tinham as corridas de touros. Há uma necessidade de existirem protagonistas dos próprios toureiros.

Corre o risco de acabar?
Fica reduzido às zonas rurais, onde as pessoas têm uma ligação aos animais, em que gostam deles, sacrificam-se por eles, mas não os humanizam. O problema é que o animal nas cidades está humanizado, faz parte da família. As pessoas depois choram muito quando o gato ou o cão morre. As pessoas que vivem no campo criam muitos animais: têm vacas, ovelhas e depois matam ovelha para comer, mas não choram porque mataram a ovelha. Essa relação que diria dada pelo Walt Disney, essa humanização dos animais que hoje está totalmente implementada nas cidades, não existe no mundo rural, por razões óbvias. O que não quer dizer que se trate mal os animais ou que não se conheça as vacas pelo nome, mas não se faz um funeral quando a vaca morre.

Mas fomos assistindo a nova legislação nesta matéria...
Isso é tudo muito engraçado, enquanto os agricultores são controlados pelo bem-estar animal, ninguém controla e é impossível controlar se o meu cão ou se o meu gato vai estar dez horas em casa fechado. Ou se tenho cinco cães e não tenho condições para os ter. Alguém controla a posse dos animais nas cidades? Pior do que isso, vê-se nas cidades cães perigosos à solta, sem trela, sem açaimes, sem nada. E se chamar a polícia não querem saber disso para nada.

No espaço rural temos as matilhas...
As matilhas são utilizadas exatamente para caçar javalis, se não tiver uma matilha não sou capaz de caçar. Há aqui uma humanização dos animais que está exagerada. É verdade que hoje o bem-estar animal não tem nada a ver com o que era há 30 anos. Mas há uma questão que separa o animal do homem no mundo rural que na cidade se está a perder completamente. Vestem-se os cães, arranjam-se namoradas para os cães, leva-se o cão ao psicólogo.

É um caminho perigoso?
Na minha opinião é. É um caminho muito perigoso e o cão da cidade não é mais feliz do que o cão do campo, até pelo contrário, é muito mais infeliz. Não se pode cortar o rabo ao cão porque é proibido e as pessoas não percebem que na cidade não faz mal o cão ter rabo, mas se o cão viver no campo e se for à caça tantas vezes dá ao rabo no meio das silvas que fica com o rabo todo em sangue. Corta-se o rabo aos cães de caça para não ferirem o rabo e as pessoas acham que é uma questão de estética. Não, a razão inicial tem a ver com isso. Aliás, experimentem e vão ver. Porque é que se corta as orelhas a alguns dos cães das matilhas? Pela mesmíssima razão, se não entram dentro das silvas e saem todos cortados.

Mas é doloroso...
Lá está é doloroso. Mas é nesse sentido que começa a discussão do urbano face a estas situações. Se correr uma maratona e caírem as unhas é doloroso, mas a dor só se sente depois, o cão quando entra nas silvas não é obrigado. Ele está focado no vício que tem de ir atrás do javali e nem vê se tem silvas, se tem arames. Os animais mais do que nós vão com o seu foco e com o seu instinto. Estas situações acontecem para proteger os animais, não por uma questão estética. E misturam-se as coisas. Há uma incompreensão de um lado e do outro e a CAP tenta sempre explicar a razão destas situações. Agora para perceber uma corrida de touros tenho de ter cultura taurina. Em Espanha, o Dicionário de Tauromaquia tem dois volumes grandes, se uma pessoa nunca leu nada sobre corridas de touros, se nunca leu nada sobre touros e se for ver uma tourada acha que é a maior estupidez, porque não percebe o que ali se passa, não tem a tal cultura. Em Espanha é mais puritana do que cá, porque o touro não tem os cornos protegidos porque não há pegas. São coisas distintas.

Mas matam o touro na arena...
Cá matam fora da arena. Mas em Espanha se o touro for muito bom já o indultam, não o matam. Agora o regulamento espanhol até flexibilizou e quando há um touro extraordinário, o público pede e não matam. Fica para reprodutor.

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