O Matuto ficou ciente de que a expressão “dar uma de João sem braço” estaria na mira do politicamente correto, por ser considerada capacitista — uma discriminação velada às pessoas com deficiência. O Matuto sabe das coisas e pensa que a ideia não tem eira nem beira.
A função desse criado seria dar a vela, um copo de água, o urinol (vulgo penico), conforme a necessidade do momento. Ora, todos esses utensílios passaram a guardar-se na mesinha do lado da cama — e essa mesinha passou a ser o “criado mudo”.
Como tourear este emaranhado de fios? Os filamentos energéticos saem de buracos na parede e entram nas tomadas com liberdade eléctrica. Como resolver o dilema? – medita o Matuto.
As consequências politico-sociais geram uma distopia ungida e caso esta proposta teológica se instale no poder, não estaremos diante de mera excentricidade religiosa — mas sim diante dum projecto político profundamente maléfico.
Ao arrepio do preço do arrendamento (aluguel, no Brasil, por favor), salta-se de casa em casa. Dona Sirlei – gentil esposa do Matuto – deita as mãos à cabeça e sobe nas tamancas, cada vez que se cogita uma mudança: “afgh! Chega de mudar de casa”.
O Matuto, observando a cena doméstica, acredita que a Bebel vai arquivando tudo na sua memória afectiva: “os adultos são uns tontos! Eu aqui, feliz da vida, a divulgar o que penso e eles todos admirados. Que criaturas estranhas”
Não é possível estabelecer com a felicidade, de acordo com certos pensadores, uma relação de posse, daí que nunca sejamos donos da felicidade. A felicidade habita dentro de nós. Ou nós habitamos nela.
O Matuto mantém-se firme no seu pessimismo capilar: lava-se com parcimónia, pega no sabão azul e recusa-se a atribuir às substâncias amazónicas virtudes metafísicas.
O Matuto não conhece ninguém que seja vizinho duma hospedeira. Elas nunca tomam uma bica na pastelaria da esquina. Não se topam na fila do supermercado. Não frequentam as cabeleireiras do bairro. Enfim!
No fundo, o football é mesmo isso: uma rasteira bem dada na previsão dos intelectuais.
O Português tem uma plasticidade social, maior no Português que em qualquer outro colonizador europeu”. O Matuto concorda: o Português sempre teve um toque suave. Até na colonização.
Quando o Matuto era Matutinho, era-lhe permitido ter duas gripes por ano. Tudo o que ultrapassasse isso, era considerado um exagero temperamental, tratado com olímpica indiferença. Mariquices!
O Matuto sabe de fonte segura que os estudiosos chamam a este fenómeno de “memória involuntária” porque se refere à capacidade do cérebro em acessar lembranças sem esforço aparente.
O Matuto não aguenta mais ter a boca com sabor de churrasco, sem trincar uma picanha ou um filezinho. Um magote de reacções Pavlovianas que deixam um amargo de boca.
Aqui, é preciso esclarecer que o Matuto simpatiza com o dilema feminino. Enquanto o homem fica de pé e se ajeita, atrás duma árvore, escondido pela porta do carro ou contra um muro, a mulher não tem esse ‘à vontade’.
É um vírus, um vício sem cura. Coisa irritante. Duma grande falta de chá. O Matuto prefere o agasalho das rotinas e das ideias conservadoras, mesmo que ligeiramente puídas.
todos os candidatos parecem ao Matuto como bonecos de palha, inchados de ar e promessas, mas balofos. Só se mexem se alguém puxar os cordelinhos.
O Matuto já viu o futuro e ele não é brilhante: inteligência artificial, realidade aumentada, óculos VR, zero empatia. Tudo muito higiénico, tudo muito digital.
Fica confirmado que o Matuto acha que há um certo prestígio em estar gripado, quando a gripe tem pedigree. Já uma constipação vulgar não tem história, não dá direito a chá na cama nem a um “coitadinho” com afecto.