Economia

Salgado invoca Cavaco, Passos, Maria Luís e Durão

No Conselho Superior do Grupo Espírito Santo de 2 de Junho as chamadas para o governador do Banco de Portugal e para Carlos Moedas não são os únicos momentos em que Ricardo Salgado se impõe ao clã familiar recordando-lhes que tem acesso a uma rede de contactos políticos conceituados.

Nesta reunião, uma das várias do Conselho que foram gravadas e a que o SOL teve agora acesso, na abertura dos trabalhos desse dia - que além da situação do grupo serviam também para debater a chaga da sucessão e o teor de uma entrevista dada pelo gestor ao Jornal de Negócios, poucos dias antes - Salgado faz questão de ler uma carta que havia enviado ao governador do BdP, a 31 de Março.

“Essa carta li depois ao presidente da República, ao primeiro-ministro, à ministra das Finanças e ao José Manuel Durão Barroso”, gaba-se.

A missiva, num tom claro de chantagem, alertava para “os riscos sistémicos” que o banco e a banca portuguesa enfrentariam se a família fosse afastada da governação do BES antes do aumento de capital - que só terminaria a 9 de Junho. Enumera os múltiplos impactos negativos que o afastamento da sua gestão poderia acarretar: accionistas de referência que iriam embora, crise de liquidez pois os clientes venezuelanos e angolanos tirariam as suas contas do banco, corrida aos depósitos em Espanha “por ser posto em causa o bom nome Espírito Santo” e dificuldades em Angola, com eventual revogação da garantia dada por José Eduardo dos Santos.

Ao longo dessa carta, aliás, Salgado puxa várias vezes dos pergaminhos da família, e lembra que a garantia de Angola fora “em boa parte atribuída pela consideração e confiança no GES”: “Uma queda desse relacionamento poderá levar a uma nacionalização do BESA, com todo o impacto para o BES”.

Os efeitos não se abateriam apenas no banco, avisava.  O seu afastamento e dos restantes elementos da família, dizia, arrastaria uma “desvalorização de dimensões imprevisíveis” na capitalização do BES e da Espírito Santo Financial Group, pondo em perigo a capacidade de pagar empréstimos. Haveria ainda um “impacto sistémico” nos bancos do grupo na Suíça, no Panamá e no Dubai. No fundo, avisou o gestor, o afastamento da família resultaria na “liquidação desordenada do GES e necessidade de intervenção para recapitalização” do BES.

Na carta dirigida a Carlos Costa, o então presidente do BES mostrava-se ainda disponível para “consensualizar uma transição ordenada” e afastar a concretização destes atemorizantes cenários. Mas esse momento só poderia ocorrer “depois do aumento de capital”, que terminou em meados de Junho.

Seguindo à risca as palavras de Salgado, a mensagem teve o efeito pretendido: “No dia 8 de Abril fui chamado. O governador aceitou adiar para depois do aumento de capital a alteração da governance”, narra à família, acrescentando: “Foi parado o processo de destituição dos membros do grupo, que poderá evoluir para uma transição mais digna. Após o aumento de capital, o BdP poderá chamar-nos para nos comunicar a sua orientação”.

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