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A fuga da Universidade

Urge que Lisboa atente aos sinais de afastamento da universidade em relação ao seu território e reaja. Importa que a capital construa uma estratégia que relance o potencial do ensino superior ao serviço do desenvolvimento da cidade

A notícia da saída de Lisboa para Carcavelos de mais duas faculdades da Universidade Nova de Lisboa (que se juntam à Nova SBE) é muito significativa em relação à importância da localização das instituições de ensino superior. Cascais percebeu a sua importância para o desenvolvimento e competitividade do seu território e tem apostado na capacidade de atração. Lisboa, ao contrário, parece não se importar de perder instituições de ensino superior.

O ensino superior é um fator de desenvolvimento social e económico para as comunidades em que se insere, atraindo, potenciando e gerando formação, dinamismo e competitividade. A universidade é um centro de saber e de investigação que envolve profissionais muito qualificados, preparando jovens, com base no conhecimento, para os desafios mais exigentes e, com cada vez maior relevância, envolvendo empresas altamente competitivas que investem e emprestam a sua experiência e beneficiam de quadros bem preparados e dos resultados da investigação produzida.

A presença da universidade em Lisboa (berço da universidade em Portugal) tem sido determinante para o desenvolvimento da cidade, atraindo e fixando os setores mais dinâmicos da sociedade na investigação, na inovação e no conhecimento, com reflexo no perfil das empresas nacionais e estrangeiras que se estabelecem na cidade, na qualidade do emprego e na riqueza gerada.

A expansão do ensino superior em Portugal e a sua modernização, com a necessidade de ampliação ou criação de instalações, significou um desafio para a cidade de Lisboa. Durante a década de 90 (e nos anos seguintes), foi decisiva a vontade de Lisboa oferecer condições para a ampliação das instalações universitárias com a ampliação do campus do Instituto Superior Técnico (IST), o desenvolvimento da Cidade Universitária e a criação do Polo Universitário da Ajuda, entre outros.

No âmbito da Área Metropolitana de Lisboa, o início deste século coincide com o desenvolvimento de estratégias de atração de instituições de ensino superior para outros concelhos que entenderam a importância destas instituições nos respetivos territórios, criando condições para a sua relocalização. Primeiro em Oeiras, com a criação do Tagus Park onde o IST se instalou com parte da sua oferta e, mais recentemente, em Cascais, que apostou na instalação da Nova SBE (que saiu de Lisboa) e, no futuro próximo, com a transferência das faculdades de direito e de medicina da Universidade Nova de Lisboa que também abandonam a cidade de Lisboa.

Este movimento tem uma consequência positiva para a Área Metropolitana de Lisboa, criando novos polos de desenvolvimento. Mas para a cidade de Lisboa não deixa de ser patente a incapacidade de manter a atração de agentes tão importantes para a competitividade da cidade. É muito revelador um dos argumentos para a opção tomada pela Faculdade de Direito da Nova: a maioria dos seus alunos não mora em Lisboa, mas na ‘linha’.

Lisboa tem vindo a observar o envelhecimento dos seus residentes. E parece ter deixado de apostar nas condições para o desenvolvimento do ensino superior, constatando-se dificuldades no alojamento para estudantes, problemas nos transportes e falta de outras condições para a estadia e vivência dos estudantes. Com este movimento de saída, também a aposta de Lisboa como ‘cidade Erasmus’ fica comprometida.

Urge que Lisboa atente aos sinais de afastamento da universidade em relação ao seu território e reaja. Importa que a capital construa uma estratégia que relance o potencial do ensino superior ao serviço do desenvolvimento da cidade, encontrando um modelo para a reflexão e para a resposta adequada, que envolva as universidades e outras instituições de ensino superior, as empresas e as instituições ligadas à investigação e desenvolvimento.