Opiniao

A luta continua, os grevistas para a rua

Os portugueses estão felizes porque não ficaram sem combustível e o primeiro-ministro foi amigo deles... 

Quando os estivadores paralisaram o país, não deixando nada entrar ou sair pelos portos portugueses, o Governo apareceu com paninhos quentes a convencer os patrões a aceitarem as exigências dos grevistas. Muitos eram precários e acabaram por entrar nos quadros da empresa em questão. Nessa altura, um dos maiores empregadores do país, a Autoeuropa, ficou em dificuldades e falou-se na possibilidade de deslocação da fábrica para outras paragens. Nunca o Governo falou em requisição civil ou mandou militares e agentes policiais para substituir os estivadores. O BE e o PCP estavam ao lado dos grevistas e o Governo não quis ondas com a ‘Geringonça’ e resolveu o problema.

Agora, curiosamente, ao mesmo tempo que os camionistas se manifestam por melhores condições salariais, os estivadores do porto de Sines voltaram a entrar em greve, já pondo em causa muitos postos de trabalho, segundo os patrões. Veremos o que dirá o Governo nos próximos dias.

Mas voltemos à greve dos camionistas, de matérias perigosas e não só, que tem animado o país. O Governo tentou, por todos os meios, abortar a greve à nascença, como se a mesma não fosse um direito consagrado na Constituição. A máquina de propaganda do Executivo entrou em ação e rapidamente os grevistas começaram a ser os maus da fita e os patrões os coitadinhos. Nesta fase, a tutela deu gás ao porta-voz da ANTRAM, a associação dos patrões, nada mais do que um boy do partido que gere muitos milhões de euros em fundos, tendo sido nomeado para essas funções pelo Executivo de António Costa. Por artes mágicas, percebeu-se que o ódio de estimação se virou para o mariolão do assessor do sindicato dos motoristas de matérias perigosas que ganhou um protagonismo inusitado nos últimos meses, falando-se mesmo que terá sido convidado por Marinho e Pinto para ser o cabeça de lista, por Lisboa, do PDR, às eleições Legislativas.

Já André Matias de Almeida, o homem da ANTRAM, é a personagem do bem e nunca se viu em Portugal tantos estarem ao lado dos patrões contra os empregados. É óbvio que ninguém quer ficar sem combustível no carro e todos aqueles que defendem a democracia esperam que o patronato tenha sucesso para poder pagar melhor aos seus funcionários. Mas ver o PCP e o BE só acordarem para o problema - começaram por virar as costas aos grevistas - quando as coisas já estão bem encaminhadas não deixa de ser irónico. Pior só mesmo Rui Rio que twitou nas suas férias que o problema devia ser adiado para depois das eleições Legislativas, sendo obrigado a aparecer ontem devido à enorme contestação interna no seu partido.

António Costa mostrou neste processo todo porque se aproxima a toda a velocidade da maioria absoluta. O Governo isolou completamente os motoristas de matérias perigosas que foram mesmo obrigados a afastar dos holofotes o seu assessor Pardal Henriques. Ao mesmo tempo conseguiu puxar a FECTRANS, um sindicato afeto à CGTP, para a mesa das negociações, tendo este fechado o acordo com os patrões. Só que a FECTRANS, pelos vistos, não representa muitos motoristas de matérias perigosas, pois se assim fosse não teria sido necessário a requisição civil nem serviços mínimos. Afinal, o sindicato não aderiu à greve e o Governo foi obrigado a avançar com tudo o que tinha à mão. Pelo meio meteram no bolso o sindicato dos motoristas de matérias não perigosas, que também estava em greve.

Perante isto tudo, certo é que os motoristas vão passar a ganhar mais de 100 euros no ordenado, a partir de próximo ano, muito à conta dos grevistas mais radicais. Também certo é que António Costa é brilhante a gerir o xadrez político. Os portugueses estão felizes porque não ficaram sem combustível e o primeiro-ministro foi amigo deles... 

vitor.rainho@sol.pt