Opiniao

Os amigos são para as ocasiões

O Governo faz de conta que resiste e o sindicato faz de conta que insiste.

Tenho ouvido muitas declarações do PC, sobre o que acontece noutros países e sobre as limitações à liberdade ou as características dos regimes, que são verdadeiramente surreais.

Não é preciso  que o regime  seja comunista, basta ser-lhes simpático.

Do mesmo modo que nunca vi um político da sua órbita ser condenado sem um aceno de compreensão e sem que a a aplicação da lei fosse tida como perseguição ideológica.

É a velha muralha de aço.

Nunca há maus desse lado.

Cá por casa, a aura do PC advém da defesa das liberdades, da afirmação da Constituição, da luta pelos direitos e garantias.

Tão intransigente que impulsiona sindicatos e cobre a sua actuação.

Chegou o momento da verdade, porém.

E se o poder interno é também considerado amigo?

Claro que nenhum governo sem o PCP é de esquerda.

Mas se se opõe à direita ou ao centro é, em princípio, de apoiar.

Formula, então, o princípio da conveniência da luta ou da sua suficiência.

Imagine-se que, como no caso dos professores, se assiste a um comprometedor movimento de apoio da direita.

Nesse caso, tira-se o pé do acelerador, deixa-se cair o dirigente sindical, transige-se.

Basta, diriam, manter a pressão e a sua notícia.

O Governo faz de conta que resiste e o sindicato faz de conta que insiste.

Ou, recorde-se o problema dos transportes.

A direita queria privatizar a gestão. A ameaça era séria para os sindicatos do setor.

O principal objectivo era, como foi, impedir tal medida.

Como no caso dos professores, os transportes são um setor vital.

A questão é que, dentro dele, há já interesses vários e é livre o direito de associação.

A Fectrans pode multiplicar as lutas no Metropolitano e na Soflusa. De tal modo que,  às vezes, é difícil perceber os objectivos. 

Só ajuda ao aparecimento de outros sindicatos. Temem-se, então,  as consequências.

Percebe-se que, apesar das muitas greves, a situação dos trabalhadores é pouco mais que miserável, que a transigência cala as dúvidas sobre o cumprimento da legalidade pelas empresas, que urge intervir para que o mal não cresça. Isto é, para que o controle do movimento sindical se não perca.

Quando o conflito se agudiza e outros tomam precipitadamente a iniciativa, surge a voz do PCP.

As greves da Fectrans não prejudicam. Outra qualquer, sim.

Umas são contra o patronato, outras contra as pessoas.

É o que o poder amigo precisa para lançar a ofensiva geral e insistir que a greve não é um direito absoluto. Serviços mínimos no máximo. Intervenção substitutiva dos militares e das forças de segurança. 

Timidamente, o PCP, sem megafone, declara uma certa incomodidade. Exagera , o Governo, o amigo. Sem mais.

A Fectrans não faz o que mais faz, a greve. Negoceia. Aproveita o balanço. Isola os demais.

O Governo agradece e elogia.

De outros não reza a história.

Ou melhor, contribuem de um modo mais elaborado.

Invocam o perigo da direita para instabilizar. Steve Banon segue as pisadas de Madona. Está interessado em Portugal. 

De modo tão competente que transforma o tal Governo amigo, que não é de esquerda, em algo que a direita gostaria de imitar.

Mudar a Constituição? Rever a lei da greve? Alterar a configuração dos serviços mínimos?

Francamente… Não é preciso tanto.