Economia

Para onde vai o Ronaldo das Finanças?

O ministro das Finanças demissionário não esconde a ambição de ir para governador do Banco de Portugal. Em relação à liderança do Eurogrupo, já preparou a sua substituição.

«Tudo o que é bom tem um fim», é desta forma que anunciou a sua despedida na reunião do Eurogrupo, mantendo-se, ainda assim, em funções até ao dia 12 de julho. Apesar das suas apostas – reforma da zona euro e a concretização do aprofundamento da União Económica e Monetária e da União Bancária – ter ficado por cumprir, dois anos e meio depois, na hora da despedida os elogios foram rasgados. O comissário europeu da Economia, Paolo Gentiloni, reforçou o reconhecimento generalizado ao trabalho de Centeno ao longo do seu mandato. 

«Foi absolutamente notável», disse Gentiloni, acrescentando que «não é a última reunião, por isso ainda não é altura de dizer adeus, mas já é altura de dizer ‘muito obrigado’, Mário».

Certo é que o tiro de partida para a eleição do novo presidente do Eurogrupo já foi dado. Mário Centeno liderou, esta semana, a penúltima reunião, depois de ter anunciado na terça-feira que ia abandonar a pasta das Finanças e que não se iria candidatar a um segundo mandato. Para já, a ministra da Economia e Finanças de Espanha, Nadia Calviño, o ministro das Finanças da Irlanda, Paschal Donohoe e o ministro das Finanças do Luxemburgo, Pierre Gramegna são os nomes apontados para o suceder.

Mas Centeno já antecipou um «novo ciclo» não só em termos de liderança, mas também de políticas. A mensagem foi passada nas redes sociais e aproveitou ainda para lembrar que agora é «altura de proteger o euro de estratégias divergentes», acrescentando também que é importante «assegurar que as perspetivas da Zona Euro são tidas em conta na forma como vamos gastar os novos recursos», apontando para o acordo do pacote de emergência de 540 mil milhões de euros de apoio a famílias, empresas e países.

Liderança 
Mário Centeno chegou à liderança do Eurogrupo em janeiro de 2018. A desconfiança inicial – por ser titular da pasta das Finanças de um novo Governo de geringonça, apoiado por uma maioria parlamentar de esquerda e com a aposta em reverter a política de austeridade levada a cabo pelo Governo de Passos Coelho – deu lugar à consagração, em parte, por ter posto as contas portuguesas em ordem.

Recorde-se que, nos seus primeiros meses em funções, o Governo teve como principal missão em Bruxelas lutar contra as anunciadas sanções a Portugal, devido ao défice excessivo, de 4,4% do Produto Interno Bruto (PIB), registado no final de 2015, tendo a Comissão Europeia acabado por desistir das sanções em julho de 2016. Centeno conseguiu encerrar não só o dossiê de Procedimento por Défice Excessivo sob o qual o país se encontrava desde 2009, como as agências de notação financeira começaram a melhorar a sua avaliação da dívida soberana portuguesa.
Trabalhos esses que levaram, em maio de 2017, o alemão Wolfgang Schäubl a batizá-lo de ‘o Ronaldo do Ecofin’.
No seu currículo fica o anúncio de um acordo ‘histórico’ com as autoridades gregas – no final de uma maratona negocial – sobre a conclusão do terceiro programa de assistência à Grécia, consumada em agosto, e que, nas palavras do próprio, representou o «final dos últimos resquícios da crise do euro», já que pôs fim ao ciclo de resgates a países na zona euro no quadro da crise económica e financeira, entre os quais Portugal (2011-2014).

Mas o que irá marcar mais a sua passagem pelo Eurogrupo será a profunda crise provocada pela pandemia da covid-19, que ainda não é possível avaliar o seu real impacto, apesar das projeções tanto do Fundo Monetário Internacional e do Banco Central Europeu não serem nada animadoras. Se a primeira entidade aponta para uma queda da zona euro na ordem dos 7,5%, a segunda fala numa recessão de quase 9% já este ano.

Conflitos internos 
Apesar de ter posto as contas de Portugal em ordem e ter alcançado, pela primeira vez, o primeiro excedente orçamental da história da democracia (0,2% do PIB), nem sempre o seu trabalho criou consenso. A par das dúvidas por parte dos credores internacionais em relação à estabilização do setor financeiro, com a resolução do Banif e a reestruturação da Caixa Geral de Depósitos (CGD), uma das primeiras ‘guerras’ nacionais girou em torno dos salários da administração do banco público, o que acabou por levar António Domingues a bater com a porta. Face à polémica criada, Mário Centeno viu-se obrigado a dizer que o seu lugar estava à disposição «desde o dia em que assumiu funções».

Também internamente houve quem duvidasse das capacidades do ministro das Finanças. Carlos César chegou a admitir que não o escolheria para ser «orador num comício», uma afirmação a que Centeno disse apenas: «O exercício de governação não é um comício».

A injeção em torno do Novo Banco acabou por estalar o verniz entre o ainda ministro das Finanças e António Costa, levando Centeno várias vezes a garantir que a transferência de 850 milhões de euros para a instituição financeira liderada por António Ramalho não tinha sido feito à revelia do primeiro-ministro. E até à sua demissão passou um curto espaço de tempo. Esta semana admitiu que a sua relação com António Costa foi «saudavelmente tensa». Em entrevista à RTP, Mário Centeno revelou também que a decisão de sair «foi construída juntamente com o primeiro-ministro, num contexto de grande responsabilidade». E voltou a garantir que «não houve nenhuma deterioração, nem seria sério. Ficaria desgostoso de exercer o lugar de ministro das Finanças sem ter uma relação clara e transparente com o primeiro-ministro».

Quanto ao seu futuro não esconde a ambição: Banco de Portugal, mas garante que a decisão cabe ao próximo ministro das Finanças e ao primeiro-ministro. E não vê incompatibilidades nesta mudança. «Ser governante não é um cadastro», revelou, lembrando que só em Portugal é que existem essas restrições.