Politica

Costa quer governar país sem geringonça. Se tiver de negociar não fecha portas à esquerda nem à direita

O primeiro-ministro reage pela primeira vez ao chumbo do Orçamento do Estado e diz que fez tudo para não "matar OE à nascença" e recusa-se a explicar o que levou o PCP e Bloco de Esquerda a votar contra: "Não quero abrir feridas que importa sarar". Costa também admitiu que caso perca as eleições, deixará a liderança do PS, e ainda comentou o caso dos militares portugueses suspeitos de traficar diamantes e ouro em missões das Nações Unidas. 


O primeiro-ministro falou pela primeira vez, em entrevista à RTP1, sobre o chumbo do Orçamento do Estado (OE) para 2022, doze dias depois da votação que abriu portas a uma crise política, levando o Presidente da República a decidir dissolver o Parlamento e a antecipar as eleições legislativas para 30 de janeiro de 2022. 

António Costa disse que o Governo fez "tudo" o que estava ao seu alcance para não "matar o OE à nascença". "Estivemos a negociar até ao último minuto", realçou o chefe do Governo, que se recusou em explicar o que levou o PCP e o Bloco de Esquerda (BE) a chumbar o OE. "Tenho-os ouvido e não lhes tenho respondido e não vou responder. Não quero abrir feridas que importa sarar", afirmou Costa, ao acrescentar: "Sinto que o país sente que os políticos não tiveram respeito pelo sofrimento que as pessoas tiveram". 

Quanto à decisão de Marcelo Rebelo de Sousa, o primeiro-ministro sublinhou que "ninguém pode dizer que foi enganado pelo Presidente da República”, nem "é possível apontar o dedo", uma vez que, analisando todas as opções, o chefe de Estado escolheu "a menos má de todas as más soluções”.

Ao apelar várias vezes pelo voto dos portugueses, António Costa disse que não gosta de "fechar ou abrir portas", caso haja a necessidade de o PS se aliar novamente ao PCP e ao BE para constituir Governo. Contudo, o chefe do Governo afirmou que a Gerigonça acabou e que o PS prefere rumar para um novo ciclo governativo com maioria absoluta. Para tal, Costa indicou que a escolha está do lado dos portugueses. "A escolha é se querem regressar a um Governo do PSD ou continuar com um Governo do PS - e em que condições querem que governe. É uma opção dos portugueses. Ficarei de bem qualquer que seja".

"A ambição do PS não é diferente da dos outros partidos. Bati-me por esta solução [Geringonça]. Não escolho a orientação nem do PCP nem do BE: se optaram ser partidos de protesto, tenho de respeitar", assinalou o primeiro-ministro, que também disse não fechar portas aos partidos de direita, mas que antes de negociar "é preciso deixá-los arrumarem-se a si próprios, depois falamos da Direita do PS. Não vou interferir nesse processo". 

Porém, António Costa relembrou que, em 2019, disse que votar no PS "seria reforçar geringonça" e por isso "seria uma traição chegar a um acordo com o PSD". Mas agora existe um outro cenário: "PCP diz que não haverá mais geringonças e que Catarina Martins diz que só quando António Costa sair da liderança do PS é que serão possíveis acordos". Ou seja, Costa entende que o PS precisa do maior número de votos possíveis para governar à sua mercê, mas "sem nunca deixar de dialogar" à esquerda ou à direita, realçou Costa. "Procurarei um entendimento duradouro com os nossos parceiros", apontou. 

Em relação às matérias que o Governo ainda pode legislar, António Costa disse que “fará tudo o que é normal fazer para aumentar o salário mínimo” para 750 euros, mas que ainda vai negociar na concertação social, tendo uma reunião marcada para esse efeito. O mesmo vai acontecer com o aumento dos funcionários públicos e para a atualização automática das pensões.

Já sobre o aumento extraordinário das pensões, o líder do executivo disse que não deverá fazer, dado que o "Governo tem legitimidade política limitada”, considerando esta matéria uma medida de "natureza extraordinária". Caso Costa ganhe as legislativas, esse aumento será aplicado de forma retroativa a partir de 1 de janeiro.

O primeiro-ministro também comentou as suspeitas de tráfico de diamantes e ouro pelos militares portugueses em missões das Nações Unidas, ao dizer que este caso tem "um impacto negativo" nas Forças Armadas, mas "não a nível internacional. Costa disse que quando o caso foi detetado, as autoridades competentes ficaram logo informadas e começaram a autar "da forma que se devia atuar". 

Questionado sobre se o vice-almirante Gouveia e Melo não terá deixado a task-force demasiado cedo, o líder do executivo disse que o antigo coordenador da campanha de vacinação da covid-19 "cumpriu a sua missão no prazo que estava previsto", explicando que a "terceira fase de vacinação não é imputável à task-force. Muitas pessoas não perceberam a importância da terceira dose". Costa ainda apelou à dose de reforço da vacina da covid-19, alimentando a expectativa de ter todas as "pessoas com mais de 80 anos e comorbilidades já com a terceira dose tomada" no Natal. 

Quanto ao Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), o primeiro-ministro afirmou que está "em curso" e que Portugal não "vai adiar nada". "Seja qual for o Governo é para ser cumprido", frisou Costa, acrescentando que o Governo está a cumprir os prazos "para que nada venha a prejudicar o país". 

 

 

E por último, António Costa admitiu que se perder as eleições, sairá da liderança do PS. "Isso significaria abrir um novo ciclo de governação", sublinhou. 

Para terminar, o primeiro-ministro ainda deixou uma mensagem a todos os portugueses: "É muito importante que todos tenham consciência da gravidade da situação em que o país vive: ainda estamos em pandemia, temos um enorme esforço de recuperação económica para consolidar, temos uma oportunidade extraordinária para desenvolver o nosso país. No dia 30 de janeiro, ninguém pode ficar em casa, têm de ir votar. E têm que ir votar para garantir uma solução que seja estável e duradoura". 

Notícia atualizada às 22h40