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A Igreja na guerra

Na Ucrânia, a Igreja Católica apoia ativamente as vítimas da guerra. Mais uma vez, os cristãos e os comunistas – estes escondidos sob uma outra bandeira – se veem frente a frente. 

A Igreja na guerra

Mão amiga fez-me chegar as seguintes informações sobre ações da Igreja Católica ucraniana na guerra em curso no país, que reproduzo com poucos acertos formais:

– Mais de 6.000 sacerdotes e religiosas da Igreja Católica ficaram na Ucrânia depois do início da invasão para oferecer abrigo, fornecer comida, curar feridos, dar apoio espiritual e administrar sacramentos às populações; 

– Algumas pessoas foram confessar-se pela primeira vez, para estarem preparadas para a morte. Há mesmo quem pretenda confessar-se pelo telefone; mas não é uma prática que os padres possam aceitar; 

– Há quem se tenha ido batizar antes de ir para a guerra, fazendo também nesse dia a sua primeira comunhão;

– Milhares de pessoas refugiaram-se nos terrenos dos seminários de duas cidades, e a Igreja acolheu-as, alimenta-as, dá-lhes apoio espiritual e lugar para dormirem e para se lavarem;

– Um projétil atingiu a residência do bispo de Kharkiv, mas ninguém se feriu; lá continuam a preparar refeições para levar para duas estações de Metro próximas;

– Na diocese de Kiev, os supermercados estão vazios; falta pão e água. O bispo auxiliar da cidade é responsável por enviar o que é necessário – e ele próprio ajuda a carregar os víveres nos veículos que os distribuem;

– Um seminário acolhe cerca de 160 mulheres e crianças, e duas escolas católicas tornaram-se dormitórios. Os seminaristas e voluntários atendem os refugiados;

– Mais de mil conventos e casas religiosas (924 na Polónia e 98 na Ucrânia) prestam auxílio a refugiados e deslocados de guerra.

Estas informações têm por objetivo, segundo os seus difusores, combater a omissão, nos meios de comunicação social ocidentais, do papel que a Igreja Católica tem desempenhado no apoio às vítimas da invasão da Ucrânia. Papel que, de facto, intencionalmente ou não, tem sido pouco referido.

Mas não é isso que agora me importa tratar. 

O caso é que, para muita gente, Putin surge hoje como o homem que ‘ressuscitou’ a União Soviética, embora em bases diferentes – e a Igreja Católica só tem razões de queixa da URSS. Assim, é natural não só que apoie as vítimas da invasão russa como ajude a combater os invasores.

Todos nos lembramos do auxílio prestado pela Igreja Católica nas décadas de 1970 e 80 à luta dos polacos contra o jugo asfixiante de Moscovo. Os contestatários do regime reuniam-se em templos para fugir à repressão. E a Igreja da Polónia emergiu de tal modo nessa época como baluarte da luta pela liberdade que, em 1978, um polaco seria eleito Papa: Karol Vojtyla. E a ação deste, de mãos dadas com Lech Walesa e o seu sindicato Solidariedade, seria decisiva na libertação do país.

Assim terminou na Polónia uma longa batalha da Igreja Católica – que durante décadas foi uma das principais vítimas da repressão nos países comunistas, cujos Governos demoliram igrejas, perseguiram e prenderam padres, mataram cristãos.

Era o resultado lógico da ideologia oficial. 

Nesses países, todos os poderes estavam reunidos num único órgão, segundo a regra: «Tudo no Estado, nada fora do Estado». O Estado concentrava em si o poder político, o poder económico e o poder doutrinário. 

Num sistema destes, totalitário, a religião – qualquer religião – não tinha lugar. A ideologia comunista substituía todas as religiões. Tal como estas, tinha a sua doutrina, os seus dogmas, os seus santos, os seus mártires, os seus rituais e os seus sacerdotes. Os líderes comunistas substituíam os líderes religiosos como doutrinadores do povo.

E do mesmo modo que, na Idade Média, nos países católicos, os hereges eram perseguidos e queimados, na União Soviética e nos países comunistas os contestatários da ideologia oficial eram presos e em alguns casos executados. Novos estudos apontam para que, na URSS, tenham sido mortos perto de 12 milhões de cristãos. Um número gigantesco que dá bem a medida da violência da repressão. 

Vem tudo isto a propósito do papel desempenhado pela Igreja Católica ucraniana no apoio aos fugitivos da invasão russa. 
Mais uma vez, Igreja Católica e comunistas – embora estes escondidos sob outra bandeira – se defrontam numa guerra de morte. Ainda não vimos igrejas bombardeadas, talvez porque os russos tenham medo da ira de um deus qualquer.
Porque respeito já se viu que não têm por nada. 

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