Opiniao

O "humilde mensageiro"…

Guterres ouviu, em direto, as explosões de mísseis russos, lançados sobre Kiev, enquanto partilhava uma conferência de imprensa com Zelensky...

O "humilde mensageiro"…

Finalmente, o Secretário geral da ONU, António Guterres, deu um ar da sua graça e arranjou tempo para se deslocar a Moscovo e a Kiev, avistando-se com Putin e Zelensky, após dois meses sangrentos de guerra e de destruição maciça da Ucrânia, desencadeados pela invasão russa.

Ouviu de perto a ladainha do Kremlin, com a narrativa do costume, onde o vilão quer ser tomado por pessoa de bem. 
Guterres observou à volta de Kiev o martírio de cidades-satélite arrasadas. E ouviu, em direto, as explosões de mísseis russos, lançados sobre Kiev, enquanto partilhava uma conferência de imprensa com Zelensky. Uma humilhação.

Guterres confessou-se chocado com o atrevimento. E não era caso para menos. Após ser recebido em Moscovo pelo Presidente russo na famosa mesa XL, os mísseis disparados foram um ‘recado’ de Putin. E uma despudorada afronta, pintada de desprezo pela instituição e pelo seu primeiro representante. 

Esta viagem foi decidida tardiamente, e já sob a pressão da carta dirigida ao Secretário-geral por 200 antigos dirigentes da ONU, na qual lhe lançavam um apelo para que fosse mais proativo em relação a este conflito.

De facto, a passividade de Guterres desenhou-se cedo, e não se alterou mesmo quando as tropas russas já montavam o cerco à Ucrânia. 

Apesar da evidência dessa movimentação militar, Guterres não assumiu qualquer iniciativa preventiva, ao abrigo da Carta das Nações Unidas, facto criticado pelos autores da missiva, entre os quais, Franz Baumann, ex-Secretário-geral-adjunto da ONU.

Dir-se-á que ‘mais vale tarde do que nunca’, embora o gesto tenha surgido a reboque das visitas da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, ou do presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, além de vários chefes de governo europeus e governantes americanos, que arriscaram ir a Kiev no meio de muitas incertezas.

O propósito confesso de Putin, de assenhorear-se do território ucraniano, nem sequer era novo. Desenhava-se desde 2014 quando anexou a Crimeia, perante a apatia do Ocidente, que encarou a ocupação com piedosas declarações de circunstância. 

Por isso, Putin deve ter presumido que tomava conta da Ucrânia num fim de semana, e que as tropas russas seriam acolhidas em júbilo pelas populações ‘libertadas’. Erro de cálculo. 

Outro erro de cálculo terá sido o de Joe Biden quando ofereceu os seus préstimos, já com a invasão russa no terreno, para evacuar Zelensky e família. Ficou célebre a recusa do Presidente ucraniano ao responder-lhe que «preciso de munições, não de boleia»…

A partir daí, a resistência ucraniana terá continuado a surpreender Putin – e não menos Biden –, enquanto o mundo se rendeu à lição de coragem de Zelensky, e à solidariedade dos países vizinhos, que acolheram milhões de refugiados, num êxodo dramático. 

Para António Vitorino, um apagado diretor-geral da Organização Internacional para as Migrações e antigo ministro de Guterres, «é necessário um cessar-fogo humanitário na Ucrânia», preconizando a mediação política.

Sucede que as negociações bilaterais de pouco adiantaram, mais parecendo que o Kremlin as tem utilizado como expediente dilatório para prosseguir a ofensiva no terreno, algo que não ‘comoveu’ o PCP – nem esclareceu alguns generais-comentadores – sobre quem é o invasor e a vítima. 

Neste contexto impensável em pleno século XXI, compreende-se melhor que Franz Baumann tenha dito que a «passividade de António Guterres perante a iminência da guerra na Ucrânia foi inacreditável».

Guterres nunca se caracterizou, como governante, por ser lesto nas decisões, salvo ao demitir-se de primeiro-ministro, em 2001, para evitar ‘o pântano político’, a seguir à pesada derrota socialista nas autárquicas desse ano. 

Nem Guterres nem Vitorino mudaram muito, não obstante desempenharem cargos internacionais pelos quais sempre aspiraram. 

Neste segundo mandato como secretário geral da ONU, Guterres pode ainda ganhar – ou perder definitivamente – o lugar na História.

Pressentindo-o, Marcelo Rebelo de Sousa saiu em sua defesa, para contrabalançar as críticas de Zelensky (por ir primeiro a Moscovo e só depois a Kiev), ao declarar que «era sempre preso por ter cão e preso por não ter». Ficou-lhe bem.

É justo reconhecer, contudo, que Guterres conseguiu ser incómodo e assertivo em Moscovo, durante os encontros com Lavrov e Putin, assumindo uma leitura divergente da guerra lançada pelo Kremlin contra a Ucrânia, sem pactuar com a rábula da ‘operação militar especial’. 

A paz na Europa não tem garantias vitalícias. Longe disso. E cabe às Nações Unidas desempenhar um papel fundamental «na prevenção de conflitos, usando a diplomacia, os bons ofícios e a mediação». Guterres sabe disso. O ‘humilde mensageiro’ vai levar muito que contar. Mesmo que regresse com uma ‘mão cheia de nada’…

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