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'Vai haver congresso de uma maneira ou de outra'

Seguro tenta que o aparelho do PS contenha a vaga avassaladora a favor de um Congresso antecipado. A colagem do adversário a Sócrates (“o director de campanha de Costa”) é outra estratégia dos seguristas. “Vai haver congresso de uma maneira ou de outra”, contrapõe um costista.

Até quando vai Seguro resistir? Em contagem decrescente para a Comissão Nacional de amanhã - o primeiro momento em que será possível os socialistas decidirem marcar um Congresso antecipado -, os dois lados multiplicam os contactos e a 'contagem de espingardas'.

Para os apoiantes de António Costa será uma questão de tempo até que o Congresso extraordinário para disputar a liderança ao actual secretário-geral tenha lugar. Do lado segurista, a mensagem que passa é a de resistir até à última, embora haja quem anteveja um momento em que o líder perceba que não tem outro caminho senão ceder, apurou o SOL - e isso poderá acontecer já amanhã, sábado.

Para já, Costa tem a máquina da Câmara de Lisboa com ele e a maioria dos notáveis no Parlamento. Por seu lado, os seguristas tentam colar a imagem de Sócrates a Costa. “Sócrates é o verdadeiro director de campanha de Costa”, diz ao SOL fonte da direcção de Seguro. Os contactos do ex-primeiro-ministro incluem líderes de distritais e presidentes de câmara. Mesquita Machado, ex-presidente de Braga, e homem forte no distrito, e Joaquim Mourão, líder distrital de Castelo Branco, terão sido dois dos contactados.

Seguro também não perdeu tempo. Anteontem, os seus apoiantes, incluindo os secretários nacionais Miguel Laranjeiro e António Galamba, reuniram uma parte do aparelho, em Lisboa. “Temos a maioria das distritais, só Lisboa, Aveiro e Açores não são nossas”, diz um segurista. É que, segundo os estatutos do partido, um congresso só pode ser convocado pelo secretário-geral, pela maioria da Comissão Nacional ou por 50% das federações, desde que correspondam a mais de 50% dos militantes.

Do outro lado, a contabilidade é diferente. “A marcação do Congresso não é decidida pelas presidências, mas pelas comissões políticas distritais”, diz ao SOL Pedro Nuno Santos, apoiante de Costa. “Seja como for, a decisão é política e serão os militantes a decidir. Não tenho a menor dúvida de que haverá um Congresso, de uma maneira ou de outra”, remata.  

'Quanto mais tarde, pior'

Fernando Medina, também apoiante de Costa, diz ao SOL que Seguro não pode continuar “num braço-de-ferro que não pode ser vencido”: “Posta a questão da liderança, tem de se resolver e quanto mais tarde, pior. Seja quem for o líder”.

Ontem, em Coimbra, o secretário-geral falou pela primeira vez. “Lamento o que se está a passar esta semana”, disse Seguro, acusando os que “transformam uma vitória do PS numa derrota”. Mas, logo depois, Jorge Sampaio colocou mais pressão: “Espero que se encontre [na reunião da Comissão Nacional] uma solução rápida, uma solução de unidade”.

António Arnaut, histórico militante socialista, dizia ontem que “Seguro deve marcar o Congresso”. E, na inauguração da Feira do Livro, António Costa afirmou que “não será necessário andar a fazer uma contabilidade” de apoios, pois “a questão é política”.

Cantar vitória antes de tempo

A pressão sobre Seguro começou logo na noite eleitoral das europeias. “Uma grande vitória”, a que se deveria seguir eleições antecipadas e maioria absoluta nas legislativas. O discurso vitorioso de António José Seguro parecia não colar com o ambiente agridoce que pairava entre os socialistas. “A dada altura, temia-se o pior. Depois, a expectativa era chegar aos cinco pontos de diferença e nem aos quatro chegámos”, diz ao SOL fonte da estrutura de campanha. 
Pouco depois do discurso de Seguro, António Costa - que não esteve presente na noite eleitoral -, dizia na SIC Notícias que a vitória “soube a pouco”. Sucederam-se as farpas lançadas por personalidades de peso do PS: Mário Soares, Ferro Rodrigues, Augusto Santos Silva e Carlos César. 

No dia seguinte, Costa mostrou-se “naturalmente disponível” para entrar na corrida à liderança. A partir deste anúncio, a pressão sobre Seguro para convocar um Congresso extraordinário foi máxima - principalmente no Parlamento, onde a bancada socialista está muito dividida entre apoiantes de Seguro e de Costa.  

Durante a tarde de quarta-feira, o corredor da Assembleia da República onde funciona o gabinete dos socialistas era o mais concorrido. À porta, um rol de vozes falava aos jornalistas, apelando à realização do Congresso e a favor de Costa - como Jorge Lacão, Pedro Marques, João Galamba, Eduardo Cabrita e Vieira da Silva, nomes próximos de José Sócrates -, para logo dar lugar a um desfile de apoiantes de Seguro: João Portugal, José Luís Carneiro, Nuno Sá e Miguel Laranjeiro. De manhã, já tinha sido a vez do líder parlamentar, Alberto Martins, e no dia anterior o cabeça-de-lista às europeias, Francisco Assis.  

Eleições nas federações?

Ao final da tarde de quarta-feira, Costa e Seguro reuniram-se, durante uma hora e um quarto, no Largo do Rato. O presidente da Câmara de Lisboa saiu a pressionar Seguro: se o líder do PS não convocar o Congresso extraordinário, então ele próprio fará esse pedido à Comissão Nacional de sábado. De Seguro, apenas um comunicado: “O secretário-geral do PS registou a posição do dr. António Costa”. 

Se, nas federações, Seguro parece reunir um maior número de apoios dos presidentes, a vida não está facilitada no Parlamento. A moção de censura do PCP pôs a nu as clivagens da bancada rosa. O líder do PS já tinha avançado que os socialistas iam votar a favor, mas durante uma reunião da bancada muitos foram os críticos a pedir a abstenção. A direcção acabou por apoiar, ao final da tarde, a moção. Mas há liberdade de voto e teme-se uma divisão dos deputados. 

Já nas federações há outra variável que pode baralhar a contagem de espingardas. Segundo os estatutos, após um acto eleitoral, deverá haver eleições para as federações. Contudo, segundo o líder da Federação do Porto, José Luís Carneiro, houve um acordo tácito com as federações, incluindo Aveiro e Lisboa (apoiantes de Costa), para só haver eleições depois das legislativas. Caso contrário, o novo presidente eleito após as europeias teria um curto mandato. Mas os novos desenvolvimentos no partido poderão precipitar tudo.

manuel.a.magalhaes@sol.pt

sonia.cerdeira@sol.pt