Politica

“Já temos Estado a mais na economia”

O antigo ministro Luís Mira Amaral defende que o relançamento da economia deve passar pela reindustrialização e considera que com os fundos europeus temos a ‘última oportunidade’ para tornar o país viável e competitivo no contexto europeu. O economista afasta semelhanças entre a contratação do estudo Porter e Costa Silva para relançar o modelo económico português.

Encomendou um estudo a Michael Porter em 1992. Tantos anos depois, acha que se aproveitou alguma coisa ou ficou tudo na gaveta?

Primeiro gostava de esclarecer esse assunto porque houve aí alguns politólogos que fizeram confusão nesta matéria. O que se passou na altura é que, como ministro da Indústria em funções, resolvi convidar o professor Michael Porter, que é um guru da estratégia empresarial, a vir a Portugal e a aplicar o modelo Porter à economia portuguesa. Tenho ideia que foi uma sugestão do meu colega Luís Todo Bom que me desafiou: ‘Por que não convidas o Michael Porter e não fazemos a aplicação do modelo Porter a Portugal?’. Achei a ideia excelente e tomei a iniciativa de o convidar e à sua equipa de consultoria, a Monitor – uma equipa inglesa, embora ele fosse americano – para virem ao nosso país para aplicarem o seu modelo à economia portuguesa. O que se passou agora com o chamado paraministro é totalmente diferente. É um primeiro-ministro que à revelia dos ministros que estão em funções resolveu convidar um senhor para fazer o plano de recuperação económica do país. No meu caso, convidei uma pessoa cuja reputação era indiscutível em todo o mundo para vir a Portugal colocar o conhecidíssimo modelo Porter à economia portuguesa.

Uma decisão de António Costa que apanhou todo o Governo de surpresa...

Sim, porque foi feito à revelia dos ministros. Há uns politólogos que vieram dizer que isto é a mesma coisa do que aconteceu no tempo do Porter. Não é nada a mesma coisa, é totalmente diferente. Esse ministro, que era eu, convidou o professor Michael Porter para vir a Portugal para aplicar o modelo Porter, constituí uma equipa no ministério sob a minha coordenação que tinha pessoas do ministério, tinha conhecidos economistas, gestores e empresários do país e, em conjunto, trabalhámos e fomos discutindo com o professor Michael Porter e com a sua equipa a implementação do modelo na economia portuguesa. E daí saiu o famoso relatório Porter. Infelizmente, depois de sair do Governo, o Governo seguinte do meu amigo António Guterres esqueceu-se totalmente deste trabalho. Tinha tido o cuidado de lançar o Fórum para a Competitividade para fazer depois a implementação desse estudo. No entanto, o Governo de António Guterres esqueceu-se totalmente de tudo. Acho que a economia portuguesa perdeu muito por não terem implementado o que vinha no estudo.

O estudo assentava na aposta em determinados setores chave, como o vinho e o calçado...

E não só. O que me agradava na metodologia do estudo não era só o relatório, pois já tenho visto relatórios muito bonitos, mas depois ninguém liga nada. O estudo do professor Michael Porter levou a construir um conjunto de task forces entre o Ministério da Indústria, as associações empresariais, empresários, economistas e gestores, que iriam implementar as recomendações. O estudo não era apenas um relatório, que já de si era importante. Era a constituição destas task forces para implementar as medidas recomendadas e foi por isso que constituí o Fórum para a Competitividade para, como eu dizia, ‘aportuguezar’ as conclusões no sentido de o aplicar na economia portuguesa. Uma das coisas importantes do estudo era a constituição de clusters na economia, mas com o Governo socialista, tudo isto esteve congelado muito tempo e só uns anos depois é que se voltaram a lembrar dos clusters e começou-se novamente a caminhar para isso. Lamentavelmente perdeu-se muito tempo e não tivemos na economia portuguesa as consequências que deveríamos ter.

Acha que a economia portuguesa podia estar numa fase diferente ou mais competitiva se tivessem sido aplicadas as conclusões do estudo?

Não tenho dúvidas nenhumas disso. Podíamos estar numa situação muito melhor se as conclusões do relatório tivessem sido implementadas: quer em algumas políticas públicas horizontais que o estudo identificava, quer nos clusters.

Portugal perdeu então terreno...

O calçado felizmente, como tinha uma excelente associação, evoluiu muito e é hoje um caso de sucesso em Portugal. A seguir à Itália somos o país produtor de calçado com o preço mais elevado do mundo. Os vinhos também são outro caso elucidativo, uma vez que foram as próprias associações do setor que voltaram a contratar a Monitor para implementar o estudo para o seu setor.

Mas acabou por ser uma iniciativa dos setores e não do Governo...

Exatamente, foram medidas implementadas por iniciativas desses setores.

Tem ideia de quanto custou esse estudo que encomendou?

Já não me lembro.

Atualmente não há nenhuma cópia desse relatório no Governo, já que foram desaparecendo ao longo dos anos...

Não sou responsável por isso. Naquela altura, ainda não havia internet e, por isso, não foi digitalizado. Ficou no gabinete de estudos e planeamento um dossiê físico. Agora o que fizeram com esse dossiê não sei. Nem sei quem é que ao fim de 25 anos tirou o projeto. Tenho em minha casa um dossiê físico que ainda não está digitalizado.

Leia o artigo na íntegra na edição impressa do SOL. Agora também pode receber o jornal em casa ou subscrever a nossa assinatura digital.